Autópsia: o adeus à Banshee

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O texto abaixo não contém spoilers. O vídeo, contudo, pode estragar algumas surpresas.

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Banshee terminou como começou e cresceu: sem fazer alarde. A explosiva série de ação do Cinemax chegou ao fim na última semana e deixou órfãos alguns fãs devotos. O fato é que Banshee representava com dignidade um gênero complicado na TV. Séries de ação raramente dão certo. E estou falando de ação pura, na concreta acepção do termo. Temos vários casos de dramas que investem em ação aqui e ali, como Prison Break, por exemplo, mas poucos apostam no gênero sem medo, como 24 e Strike Back, também do Cinemax. E Banshee fez bonito ao longo de sólidas e divertidas quatro temporadas, afirmando-se como um dos melhores exemplares de seu estilo.

Antes de chegarmos ao final propriamente dito, vamos falar da série como um todo. Banshee nunca se levou a sério, e esta é uma de suas maiores e melhores qualidades. No intuito de entreter, o programa nunca tentou dar passos maiores que sua narrativa permitia. Enquanto as cenas de ação eram cada vez mais insanas, a história sempre buscou resultado na simplicidade, nos vilões clássicos e na desconstrução/construção do arquétipo do herói amaldiçoado. Assim, os próprios personagens beiravam o absurdo: Burton era o capanga durão cuja imagem, com terno bem alinhado, óculos e gravata borboleta, remetia ao oposto do que realmente era. Chayton era o vilão implacável, forte, destemido e perigoso. Tudo com um pé no exagero.

Assim, Banshee se desenvolveu envolvente e sempre tirando sarro de si mesma ou de outras séries e filmes do gênero. A postura poderia parecer séria, mas o objetivo era divertir, entreter o público e manter a atenção na história. Nem que para isso, claro, os roteiristas tivessem de subverter diversas expectativas da audiências. Um confronto realmente mortal entre Hood e Proctor sempre foi anunciado, mas nunca concretizado. Personagens adorados morriam ou desapareciam sem muita cerimônia.

Os elogios a Banshee são vários, e é incrível que a série não tenha, no Brasil e no exterior, o respeito e a audiência merecidos. Para início de conversa a série sempre trazia temporadas curtas e fechadas, quase como uma antologia. Cada temporada tinha o seu vilão, o seu arco principal e os pontos a serem abordados. Paralelo a isso, a mitologia era construída, mas sem atrapalhar a experiência do espectador que parasse para assistir um capítulo qualquer da terceira temporada na TV, por exemplo. Assim, Banshee era livre para apostar sem medo, e estes arcos isolados foram criados até o fim, mesmo que não tenha funcionado completamente em sua reta final.

Além disso, a série era um exemplo de como fazer ação. Tendo alguns dos diretores mais interessantes do meio, Banshee teve gente como Greg Yaitanes (vencedor do Emmy por House) e Miguel Sapochnik (responsável pelo episódio Hardhome, entre outros, em Game of Thrones) atrás das câmeras. Isso permitiu cenas de perseguição impressionantes bem como confrontos, corporais e armados, fantásticos. Muitos deles sem uso de efeitos visuais, apenas efeitos práticos e dublês. O trabalho de câmera era elogiável, e prova disso são as lutas em plano sequência ou em ambientes nada convencionais.

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E assim Banshee caminhava, com história bacana, ação bem feita e elenco competente. Agregue a isso muito – mas muito – sexo e violência e você tem uma série que nunca decepcionou dentro do seu propósito. Com audiência modesta e a história já contada, Banshee entrou em sua quarta e última temporada. E embora o ano final tenha cumprido seu papel muito bem, alguns problemas saltaram aos olhos. Vamos a eles.

Para começar Banshee resolveu se levar a sério demais logo em sua reta final. Depois de passar três anos no deboche e no escapismo puro, a série resolveu mergulhar em dilemas, mortes sentidas em excesso e arcos inúteis. O show, que sempre abordava os dramas de seus personagens superficialmente (e isso era bom, acredite) decidiu se tornar mais obscuro e dramático. A decisão não se mostrou um fiasco, mas levou a série, e seu público, a um caminho que nenhum destes deveria seguir.

Além disso, os oito capítulos finais abordaram a investigação e caça de um assassino em série. Logo, mais uma Banshee-TV-Series-Poster-HD-Wallpaperqualidade da série se tornava um defeito: os arcos isolados. Lembra quando eu disse que cada temporada tinha sua trama central e única? O último ano também tentou isso, mas acabou derrapando em uma ideia frouxa e desinteressante. O grande problema é que a terceira temporada já havia encerrado quase todas as pontas soltas e os roteiristas receberam carta branca para fazer uma temporada final para amarrar tudo. Para isso, a equipe teve que criar personagens e tramas do zero, tudo para sustentar oito horas de história.

O resultado foi positivo em alguns níveis e decepcionante em outros. Banshee cometeu o mesmo erro que diversas outras séries: estender sua existência além do desfecho. Supernatural, por exemplo, poderia e tinha tudo para terminar na quinta temporada, mas o canal e os produtores decidiram renovar e hoje o programa ganhou, até agora, mais seis anos de sobrevida. Ainda assim, Banshee conseguiu encerrar a trajetória de seus personagens principais de forma quase irretocável. Todos aqueles que aprendemos a gostar nos últimos anos tiveram seu desfecho apropriado (menos um, cujo destino ficou levemente aberto) e disso não há o que reclamar. A season finale em si não fez feio, e trouxe muito da velha abordagem para a despedida.

Ao fim, o que dizer? Tudo já foi dito, dentro e fora da tela. A única coisa a ser declarada é: assista Banshee e se divirta. Vale a pena, do primeiro ao último minuto.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

1 comment

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  1. Avatar
    fcscorrea 29 maio, 2016 at 01:24 Responder

    Banshee, dentro do gênero, era a minha preferida. Agora é esperar que alguma série assim apareça. Uma pena ela não ter tido a audiência que merecia.

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