Autópsia: O adeus da boa esposa

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Imagem: CBS/Divulgação

The Good Wife chegou ao fim após sete temporadas entre altos e baixos. Um grande sucesso da televisão americana que estreou em 2009 e encontrou seu auge na quarta e quinta temporada, passando por uma leve queda de qualidade em seus dois últimos anos. Mesmo com os produtores, Michelle e Robert King, e a protagonista, Julianna Margulies, afirmarem que não fariam mais a série além da sétima temporada, a CBS forçou a renovação e quase vimos uma nova temporada de desastres, sem qualidade dos produtores originais e sem sua principal estrela. Ainda bem que a emissora reconheceu a necessidade do fechamento este ano.

Uma das melhores coisas da série foi a profundidade de cada personagem, as várias camadas que cada um tinha. Todos eles foram muito bem construídos pelos King; eles não se resumem naquele maniqueísmo de “bem e mal”. As pessoas são profundas, que associadas às suas histórias, criam-se enredos e diálogos magníficos. Fora que, é nítido a personalidade forte de alguns personagens, o temperamento, a luta para alcançar seus interesses. Não é o caso apenas de Alicia, mas também de Diane Lockhart, que sempre lutou por direitos humanos e pelas grandes causas. Will e Peter também. Personagens carismáticos e ao mesmo tempo complexos são difíceis de achar hoje em dia na TV aberta. Acho que isso é o que fará mais falta.

The Good Wife foi muito significativa também no sentido de ter nestes personagens marcantes participações mais do que especiais. Os telespectadores vibravam quando Michael J. Fox aparecia interpretando o chantagista Louis Canning, ou quando Carrie Preston aparecia com suas gracinhas e sabedoria ao interpretar Elsbeth Tascioni. TGW teve grandes nomes como convidados especiais, a exemplo de Oliver Platt, interpretando Reese Dipple, Mike Colter como Lemond Bishop entre outros. Grandes conhecidos de outras mídias, até mesmo também da TV, estiveram presentes, nem que seja por alguns episódios como foi o caso de Peter Gallagher nesta última temporada. Com toda a certeza, TGW foi uma arte de uma equipe!

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Imagem: CBS/Divulgação

 

A série da boa esposa foi do tipo procedural, ou seja, a série teve um caso em cada episódio. Com certeza uma das coisas que marcaram a série foram estes casos jurídicos e políticos. O drama destacou muitos acontecimentos que a sociedade tem vivido atualmente como questões políticas, conflitos com a tecnologia, casos polêmicos, entre outros. Uma das temáticas mais presente nas últimas temporadas foi a vigilância exercida pelo governo norte americano, sendo que a própria Alicia e seu escritório foi monitorado pela NSA, agência americana de segurança nacional. Demorou um pouco para Alicia perceber que tinha sido interceptada, mas ainda bem que ela descobriu na sétima temporada. Um absurdo tudo que foi capturado da vida dela. Com TGW, a realidade foi jogada na cara dos telespectadores, sem fantasia, sem ficção. É muito legal isso!

 

 

A política também foi marcante para série. Mas foi agora, na sétima temporada, que aprendemos um pouco mais sobre as eleições presidenciais dos EUA. Peter foi pré-candidato à vice-presidência de uma forma bem realista, incluindo os momentos da campanha e tudo o que sua equipe passou. Sempre acompanhamos Eli Gold liderando a campanha de Peter, mas foi na última temporada que conhecemos seu lado mais “maldoso”, quando ele é dispensado de seu cargo e tem de conviver com Ruth que assume seu lugar. Foi um dos plots mais engraçados da série, aliás, Eli sempre teve um papel bacana durante todas as temporadas, mas na última ele ficou ainda mais relevante. As primárias tomaram vários episódios, e eu diria que foi o ponto alto da temporada. Sim, tivemos uma temporada mais sem sal do que outras mais “bombantes”, como a quarta e quinta.

 

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Imagem: CBS/Divulgação

 

Mas foi graças a todas elas que pudemos ver a evolução de Alicia, o que ela se tornou depois de tudo o que ela passou. Não é que a boa esposa ficou má, mas ela não é a mesma, errou e aprendeu com os erros. E isso não pode ter um fim, pois Alicia tem muito o que caminhar. Por isso, o final da série foi aberto. TGW contou a história de uma mulher que apoiou o marido durante um escândalo, mostrou sua história e como ela se reergueu, as suas escolhas e como estas afetaram sua vida. Com certeza, um fim definitivo não era cabível.

Começamos vendo Alicia batendo em Peter por ele ter destruído a vida dela, tendo que recomeçar do zero. Agora, na finale, vimos Alicia destruindo o relacionamento de Diane e a reputação de um homem honesto como Kurt, para salvar a si e seu marido/família. Não foi de maldade dela fazer isso, mas apenas consequência de uma escolha que ela fez. Os produtores chamaram de dano colateral. E a lição de que tiramos deste final é justamente essa, como suas escolhas podem afetar as pessoas em sua volta e mudar o que você é.

Durante toda a série, Alicia deixou de lado suas necessidades e desejos, principalmente com Will, a fim de ser uma “boa” esposa para Peter. Mas Will sempre foi uma fantasia, um “e se”. E mesmo depois de sua morte, ele ainda continuou na vida dela. Por isso, no último episódio, vimos ele dando conselhos para ela, que afirmou amá-lo para sempre. Mas foi ali que ela percebeu estar livre para fazer o que quiser.

 

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Imagem: CBS/Divulgação

 

Sem Will – e também podemos considerar Kalinda, que foi uma grande amiga -, Alicia perdeu as pessoas que a fizeram mais humana, mas no final das contas, tudo isso foi por conta do processo de corrupção que ela vinha enfrentando com Peter. Tudo bem que este julgamento foi prolongado demais, sem necessidade, mas serviu de fundo para entendermos o que Alicia se tornou. Menos humana ou não, ela cresceu.

Na verdade, um ciclo foi fechado. Vimos a transformação de Alicia nestas sete temporadas e na última vimos as consequências das suas escolhas e o que ela se tornou. A protagonista não esteve da mesma forma que o primeiro episódio da primeira temporada, apesar das referências, do local, do tapa e tudo mais. Uma etapa se encerrou e agora outra está por vir, seja solteira, ou ainda casada, ou com Jason. Seja liderando o escritório com Diane ou não. Da mesma forma acontece na vida real, etapas… Um degrau de cada vez. Mas quem não queria acompanhar Alicia no próximo degrau, não é mesmo?!

In my opinion, Alicia continuará sendo uma boa esposa, boa pessoa, boa advogada, boa amiga… Mas agora mais forte, mais determinada e poderosa. Alicia se tornou a melhor representação do empoderamento feminino e tenho orgulho de dizer que acompanhei durante estes sete anos a construção deste mulherão! <3

The Good Wife, já está fazendo falta, your honor!

Paula Reis

Paula Reis

Advogada e concurseira de plantão, no Mix, é editora de reviews e colunas. É viciada em tudo sobre Game of Thrones e adora séries jurídicas.

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