Autópsia: O inesperado fim de Penny Dreadful

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O desfecho de Penny Dreadful é uma experiência única por diversos motivos. O primeiro é muito simples: as duas horas finais da série são quase impecáveis do ponto de vista técnico e narrativo; o segundo é mais complexo e interessante: ninguém sabia que aqueles eram os últimos momentos do programa. Pode não parecer, mas isso talvez não tenha precedentes nestes últimos intensos anos de televisão. Por quê? Simplesmente pelo fato de que a produção conseguiu manter o término em segredo. Geralmente, quando uma série é cancelada ou simplesmente chega ao seu último ano, o canal e a produção tratam de deixar bem claro ao público e à indústria de que o fim está próximo. Com Penny Dreadful nem o Showtime nem o criador John Logan noticiaram a finale. Ela apenas aconteceu e, depois de vermos um “The End” na tela e um vídeo de despedida e agradecimento de Logan, só nos restou lamentar. É uma decisão arriscada, que não agradou a todos, mas será que esta não é uma ideia boa?

Imagine se a moda pega e, daqui para frente, não sabermos a data exata para o fim de nossas séries favoritas? Pode parecer assustador, mas é, no fundo, excitante. Pense que a próxima finale de Game of Thrones é a última de toda a série? Você não espera e, de repente, o destino do Trono de Ferro está decidido. Ou então que a quarta temporada de House of Cards foi a derradeira, e não há mais caminho para Frank e Claire. Nós espectadores sabemos que isso não é verdade. Nós temos bem claros em nossas mentes que GoT não termina de fato nesta semana e que o casal Underwood retorna no próximo ano. Isso talvez tenha nos acostumado mal, essa comodidade que a certeza de retorno nos concede. Assistir uma série sem saber quando esta acaba é como assistir um filme sem saber a duração, ou ler um livro página por página sem saber quando a última chegará. É acompanhar uma trama e ir tecendo opiniões e possibilidades conforme avança. Isso permite que nos surpreendamos (algo raro hoje em dia) e que os roteiristas tenham a liberdade de escrever o quanto quiserem sem prestar satisfações.

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Pense na percepção: se o canal Showtime tivesse anunciado há meses que a terceira temporada seria a última, todos a encarariam de forma distinta. A season premiere seria a última premiere, os últimos três ou quatro capítulos ganhariam uma importância maior do que a normal e a finale seria encarada por outra perspectiva, mais emocional e nostálgica. Do modo como realmente aconteceu, Penny pegou todos de surpresa. Estávamos tão satisfeitos e crentes com a renovação que nós apenas curtíamos o momento e antecipávamos o futuro. O Showtime é reconhecido no meio da indústria televisiva como um dos canais mais respeitosos para com seus materiais originais. Pouquíssimas foram as séries que acabaram sem um final ou tratamento adequado. O canal permite que seus roteiristas trabalhem livremente e invistam no que achar melhor. É por isso que muitas de suas séries de baixa audiência ainda estão no ar ou com final definitivo já agendado. Não vejo nenhum outro canal que sustentaria séries como Masters of Sex ou The Affair por tanto tempo.

Assim, é possível inocentar o canal nessa história do cancelamento. É difícil crer que o Showtime tenha sido responsável pelo término da série. Isso porque Penny Dreadful era um dos melhores projetos do catálogo da emissora; além disso, a audiência não era tão ruim, tendo um alcance elogiável em países fora do eixo EUA/Inglaterra. Para completar, este era um show comandado pelo respeitadíssimo John Logan e com um elenco invejável. O que levou Penny a ser cancelada, então? A resposta veio do próprio criador, e devemos acreditar nela. Em vídeos e entrevistas, Logan afirmou que decidira pela fim da série na terceira temporada quando o segundo ano ainda estava sendo filmado. Para ele, a história já estava se encaminhando para o fim e não havia nada a mais para contar. Pode parecer papo de roteirista que teve seu programa jogado no lixo, mas parece ser verdade neste caso. Assim, caso você queira culpar alguém, culpe o próprio sujeito que criou a série em primeiro lugar.

Isso nos leva à questão do poder que um showrunner tem. Vince Gilligan e Matthew Weiner, por exemplo, decidiram acabar com suas séries quando bem entenderam. Sabendo do talento dos dois, o AMC (outro canal respeitoso, vale apontar) confiou e permitiu que dois de seus maiores sucessos, Breaking Bad e Mad Men, terminassem. É a prova do poder que certos roteiristas possuem na indústria. Aaron Sorkin, criador de The West Wing e The Newsroom, é um sujeito que tem o aval de escrever uma série praticamente sozinho. Sua última incursão na TV, a ótima Newsroom, talvez tenha sofrido justamente pelo fato de que Sorkin a escrevia quase sem ajuda de outros roteiristas. Apesar dos problemas de audiência e a negação da crítica, a HBO permitiu que o programa fosse encerrado ao fim do terceiro ano. John Logan, por exemplo, escreveu 24 dos 27 episódios de Penny Dreadful, um feito notável. Se ele teve poder de começar uma série e escrevê-la quase que inteiramente, ele tem, também, a força para cancelá-la quando e como bem entender.

penny-dreadful-3900x2930-best-tv-series-of-2015-2-season-6583Deixe que acabe

John Logan tem um currículo invejável. Ele escreveu Gladiador, O Último Samurai, O Aviador, A Invenção de Hugo Cabret, Sweeney Todd, Rango e os dois últimos 007. Com tudo isso na bagagem, Penny Dreadful ainda é um de seus melhores projetos, e também um dos mais pessoais. Segundo ele, trabalhar na série foi uma das melhores coisas de sua vida. E é impossível não acreditar. Penny forma uma espécie de trilogia impecável de drama e horror. Os arcos de seus personagens e as tramas criadas não só envolvem como jogam o espectador para dentro de um mundo crível e absolutamente fascinante. Em três temporadas, PD apostou em abordagens que muitos temeriam: ao invés de se jogar em efeitos visuais ou no terror regado à carnificina, o show apostou no desenvolvimento dos personagens e seus respectivos demônios. Em retrospecto, a jornada de Vanessa Ives é daquelas vistas em grandes clássicos da literatura e do audiovisual. Vanessa é, desde já, icônica, e sua importância fica ainda mais evidente no desfecho da série: Penny Dreadful era Vanessa e vice-versa.

Tudo isso não aconteceria sem Eva Green, absolutamente impecável em todos os capítulos produzidos. Na terceira parte da trilogia de Logan, Green atinge o ápice da construção de sua personagem, e entrega momentos sublimes, como aqueles vistos em A Blade of Grass, quarto episódio do último ano. Centrado em apenas três personagens, o capítulo joga Ives no centro de todas as discussões, e Eva Green se entrega de corpo e alma à composição. Seus colegas de elenco também merecem destaque, principalmente Rory Kinnear e Patti LuPone. Esta, aliás, já merece elogios por sua breve participação na segunda temporada. No terceiro ano, LuPone entra como peça-chave da história e entrega uma excelente atuação. Sua Drª. Seward, inclusive, reforça o time de mulheres fortes de Penny Dreadful. Aliás, se esta série merece um reconhecimento inquestionável, este é colocar as mulheres na linha de frente, fortes e independentes. Poucas séries podem se orgulhar de ter tantas personagens femininas poderosas e bem construídas como PD.

Vanessa, Lily, Seward, Joan, Hecate, Justine e Catriona. A série poderia funcionar muitíssimo bem só com esta personagens, sem a interferência de nenhum dos personagens masculinos. Catriona, interpretada por Perdita Weeks, aliás, merece uma série só dela. Ou melhor: a personagem poderia perfeitamente protagonizar Penny Dreadful caso a série continuasse. Assista os dois últimos episódios e tenha certeza de que a história poderia continuar sem problemas, seguindo rumos ainda mais empolgantes. Ver o grupo em ação, matando vampiros, é divertido e produz uma catarse inestimável em um desfecho cheio de momentos antológicos. A conversa entre Ethan e Vanessa, por exemplo, é outro momento que merece menção: em uma espécie de recado à audiência, Penny acalma e emociona ao afirmar: “permita que acabe, vai ser melhor assim”.

Em resumo, os dois episódios que encerraram a trilogia são quase perfeitos. “Quase” por motivos simples, mas que não podem passar despercebidos. Primeiro: o destino de Drácula não satisfaz; além disso, Dreadful apostou em subtramas que não chegaram a lugar algum. Ainda que seja divertido acompanhar a inserção de Dr. Jekyll neste universo, é preciso admitir que o personagem pouco fez na temporada. Parece que John Logan não pôde resistir e o colocou no roteiro sem saber exatamente o que fazer a longo prazo. Se Penny ainda fosse renovada, tudo bem, pois o personagem certamente retornaria. Logan tendo o fim em vista, contudo, poderia ter trabalhado melhor este e outros pequenos aspectos que sugeriu, mas não desenvolveu de fato.

Ainda assim, qualquer defeito é pouco se analisarmos o quadro completo. Cada temporada teve o seu arco e a mitologia em geral nunca decepcionou. Em retrospecto, Penny teve uma estrutura elogiável e revelou decisões corajosas pelo caminho. As horas derradeiras provam o que a série sempre pregou: o amor e a humanidade, no fim, é o que vale. Nem que para isso precisemos “permitir que acabe”. Deixe que acabe e não chore. Não há porque lamentar, pois a jornada valeu a pena.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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