Batman – A Piada Mortal: HQ, animações e oportunidades perdidas

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Imagem: bhmpics.com

Muitos podem torcer o nariz para o universo cinematográfico da DC. Os filmes têm sido duramente massacrados pela crítica e o público não parece estar recebendo tão bem os novos projetos que surgem nos últimos anos. O debate é polêmico e complicado: estariam os filmes com problemas? Ou o problema seria o público, acostumado com um tipo de abordagem? De todo modo, este texto não busca discutir a qualidade do universo cinematográfico da DC. Ainda assim, preciso esclarecer alguns pontos: sou fã da DC. Pra mim, Batman, Superman e CIA são os melhores super-heróis (foi mal, Marvel) criados, e qualquer coisa vinda dessa fonte me desperta curiosidade. Sou um dos defensores de Batman V Superman – A Origem da Justiça, por exemplo, principalmente a versão estendida. Por mais que tenha um carinhos por essas histórias e personagens, não posso fechar os olhos para eventuais tropeços. E Batman – A Piada Mortal, nova animação do grupo, é um tropicão inquestionável.

O ponto que pretendo levantar é que se a DC leva bordoadas na tela grande, o mesmo não pode ser dito sobre suas animações. As adaptações animadas do estúdio e da Warner são excelentes em sua grande maioria. Desde Batman: A Máscara do Fantasma, nos longínquos 1993, temos boas animações surgindo de tempos em tempos. Houve o período em que histórias originais eram criadas, ou que os longas eram continuações diretas ou independentes de séries animadas. Enquanto Máscara está ligado à clássica Batman: The Animated Series, O Retorno do Coringa está atrelado a Batman Beyond, enquanto o subestimado Batman Vs Drácula faz parte do arco The Batman. Com o tempo, as produções começaram a experimentar adaptações diretas de HQs. Nos últimos anos tivemos transições fieis de O Cavaleiro das Trevas, Ano Um, Flashpoint, entre outras. A bola da vez é A Piada Mortal, uma das melhores histórias do Homem Morcego. Ou quase, já que o verdadeiro protagonista não é o herói.

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The Killing Joke é uma HQ one-shot, ou seja, história curta, independente de grandes arcos e séries. Escrita pelo mestre Alan Moore e desenhada por Brian Bolland, a obra chegou às bancas em 1988. De lá pra cá, está ao lado das grandes histórias do Batman. Moore talvez seja o maior escritor de HQs da história, e seu estilo está em cada linha de diálogo, em cada reviravolta. Sua visão aguçada está no visual, nas rimas, na construção cuidadosa de sua trama e personagens. Bolland fez um trabalho impecável, mas o grande nome realmente é o de Moore. Tão icônica e relevante, porque A Piada Mortal nunca ganhou as telas (grandes ou pequenas) antes? Sempre existem problemas de direitos autorais e coisas do tipo, mas acredito que o fator decisivo é justamente por Killing Joke ser one-shot. Rápida, a graphic novel não sustentaria um longa-metragem sozinha. É claro que a obra foi referenciada inúmeras vezes em animações e filmes (incluindo Batman, de Tim Burton), mas nunca ganhou espaço exclusivo.

Depois de adaptar vários clássicos absolutos, parece que os produtores e executivos não puderam fugir de A Piadaada879eaa6778c725923863755040f720d8c2686_hq Mortal. Com Esquadrão Suicida chegando aos cinemas com um Coringa totalmente novo, parece o momento ideal para lançar a animação. O hype foi grande. Poucas animações oficiais da DC foram tão aguardadas como esta. Também pudera: respeitosa com seus materiais originais, a DC sempre entregou animações competentes tanto narrativa quanto visualmente. O Cavaleiros das Trevas – Partes 1 e 2 são exemplos de fidelidade, bem como Ano Um. Como os roteiristas fariam um longa de 80 minutos com as poucas páginas de The Killing Joke. Era fácil supor que a fidelidade seria tocada. Mas isso não chegava a importar, pois até nas mudanças as adaptações se saíam bem.

O roteirista Brian Azzarello, praticamente um especialista em Coringa e responsável por diversas HQs famosas, optou pelo caminho mais fácil: pegou Barbara Gordon e aumentou seu papel na história. A escolha não só foi fácil como certa: Barbara/Batgirl realmente aparece na HQ de Moore apenas como uma muleta narrativa, um ponto pequeno, mas importante, que faz a trama girar. Azzarello, então, pensou como um roteirista e esticou a linha que merecia um aprofundamento. Dando destaque à Barbara, o impacto das ações do Coringa aumenta. Além disso, podemos ter uma noção melhor da dor sentida pelo Comissário Gordon e até pelo Batman. Não tinha como dar errado: um roteirista competente e respeitadíssimo pegaria algo estabelecido no material original e tornaria mais complexo, profundo, dando uma dimensão nova à narrativa.

Só que deu errado. A ideia de destacar Barbara é ótima, mas a execução é sofrível. O primeiro ato do filme é completamente novo. Narrado pela personagem, o início não existe na HQ. Azzarello falha ao inserir a Batgirl em uma trama completamente desinteressante e desconexa. Os primeiros trinta minutos do longa-metragem nem parecem pertencer ao arco de A Piada Mortal. É outro filme, praticamente. Outra coisa. O primeiro ato do filme não serve nem como episódio de qualquer uma das séries animadas do herói. Temos um criminoso desinteressante que desperta a atenção de uma Batgirl abatida. O desenrolar é cansativo, e até o Batman surge chatíssimo nestes momentos. O único ponto positivo é que vemos explicitamente porque Barbara desistiu do manto de heroína.

Passada a introdução equivocada, o longa finalmente adentra A Piada Mortal, e aqui a produção comprova o grande talento das animações da DC: fidelidade quase obsessiva. Não só os diálogos são quase idênticos aos da HQ, mas os enquadramentos são extremamente fieis. A diferença entre a introdução e A Piada Mortal em si é tão gritante, que quando o primeiro quadro da HQ surge na tela, parece que outro filme começou. As gotas de chuva empoçam no chão tal qual na graphic novel. Batman entra no Arkham para conversar com o Coringa. Para quem conhece a fonte, o resto é história.

Aqui, não há muito do que reclamar. Seguindo as sequências da HQ à fio, a animação faz um bom trabalho ao adaptar as páginas de Moore e Bolland. O ritmo é bom, mas ainda assim parece que falta vida. Falta o espírito da HQ, falta o próprio Coringa. Quando mergulha de cabeça no material original, A Piada Mortal é apenas uma adaptação pela adaptação. Para simplificar, o longa soa apenas como uma motion comic; é o gibi impresso na tela com os dubladores lendo os diálogos. Ao menos os dubladores se sobressaem. Mark Hamill é o Coringa. Ele tão é o personagem que acaba se sobressaindo à própria animação. Ele, com sua voz, é mais Coringa do que o desenho colorido na tela. O ator faz um trabalho tão bom, tão dedicado, que a animação praticamente não o acompanha. Neste sentido, Hamill é um Coringa tão bom quanto Heath Ledger ou Jack Nicholson.

Tecnicamente, A Piada Mortal é tão boa quanto qualquer outra animação da DC. Esperto, Sam Liu e sua equipe trabalham colorações diferentes para o presente e os flashbacks. Enquanto as ações atuais são coloridas, os flashbacks são mergulhados em um sépia opressor. O diretor falha miseravelmente ao perder grandes oportunidades, como as rimas que Moore e Bolland criaram na HQ. Nas páginas, escritor e desenhista costuravam passado e presente com rimas visuais, detalhes que ligavam um ponto a outro e chegavam a dar uma outra dimensão à história do Coringa. Liu parece ignorar isso. As transições são pobres e confusas. A adaptação, portanto, perde a elegância das páginas e aposta em saltos bruscos e pouco sutis.

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As belas transições da HQ não são tão bem trabalhadas na adaptação. Imagem: arquivo pessoal

A Piada Mortal não é um desastre. Algumas coisas funcionam e merecem elogios, mas fica difícil defender a adaptação quando ela não consegue recriar sequer o final irretocável da HQ. Ainda que tente ser tão ambíguo quanto a HQ, o filme falha nos segundos finais por não ter o mesmo impacto, ser mais explícito e, pior, rápido demais. Novamente falta sutileza à adaptação, que deixa pouco espaço para as interpretações do público. Se as páginas levantavam debates e permaneciam na memória, a película tira a graça ao deixar óbvio o desfecho, bem como o estupro de Barbara Gordon, algo completamente desnecessário à trama e não condizente ao próprio Coringa. O Palhaço do Crime queria provar um ponto, mas Azzarello e Liu parecem que não entenderam tal ponto.

Barbara/Batgirl, aliás, é pessimamente retratada em A Piada Mortal. Servindo como objeto sexual na maior parte do tempo, a personagem apenas sofre e é influenciada pelos homens que a rodeiam. Ela recebe ordens do Batman, do pai e até mesmo do bandido que a persegue. Quando não segue tais ordens, a garota se dá mal. Os momentos mais deprimentes ocorrem quando um personagem afirma que ela age de tal forma pois “está naquele período do mês”; além disso, ainda há uma cena de sexo completamente descartável entre ela e o Batman. No topo de um prédio, de uniforme, capa e tudo.

Não pense que toda essa lamentação é coisa de fã e nerd leitor de HQ. Para quem não acompanha o universo, A Piada Mortal deve ser ainda pior. Servindo apenas como curiosidade, a adaptação falha ao tentar se conectar com os fãs e com os “não iniciados”. Trata-se de uma oportunidade perdida e um lembrete: Alan Moore talvez estivesse certo ao não querer nenhuma de suas obras adaptadas às outras mídias.

Quer assistir boas animações da DC? Aqui vão cinco dicas, em ordem de lançamento, com o que há de melhor no catálogo:

1) Batman: A Máscara do Fantasma

Pontapé inicial da DC em animações originais, A Máscara do Fantasma traz aquele que é considerado um dos melhores Batman da TV e do cinema. Atrelado a Batman: The Animated Series, Máscara tem tudo que a série clássica possui: visual bacana, com os dois pés no noir, e roteiro bem amarrado. Na trama, o Morcego combate o Fantasma, um novo vilão que se passa pelo herói ao cometer seus crimes. Temos, portante, o Batman detetive, sério, mas aventureiro, que ainda tem que lidar com o Coringa. É, até hoje, uma das melhores animações da DC.

2) Batman: Ano Um

É irônico, mas um dos responsáveis por Ano Um é Sam Liu, o diretor de A Piada Mortal. Nesta adaptação para a criação de Frank Miller, vemos o primeiro de Bruce como Batman. Temos um herói jovem, um tanto imaturo, tentando se acostumar à nova realidade. Destaque para o traço impecável e à fidelidade na transição.

3) Batman Contra o Capuz Vermelho

Nesta, que é considerada por muitos como a melhor animação da DC, o Homem-Morcego enfrenta um novo vigilante. Mas seria ele um herói? A pilha de cadáveres sugere que tudo é mais complexo do que se imagina. O destaque vai para a direção de Brandon Vietti, que já comandara o herói em séries como The Batman e Os Bravos e Destemidos.

4) Batman: O Cavaleiro das Trevas Parte 1 e 2

Por mais que dividido em duas partes, O Cavaleiro das Trevas é uma experiência que deve ser apreciada na íntegra. Os longas de Jay Oliva trazem o melhor tipo de fidelidade: aquela que respeita, mas que toma suas liberdades quando necessário. Indispensável a qualquer fã, principalmente agora, depois de Batman V Superman. Visual direto da HQ e roteiro bem construído.

5) Liga da Justiça: Ponto de Ignição

É um filme com o nome da Liga, mas trata-se de uma história sobre o Flash. É uma adaptação do já clássico arco Flashpoint, criado por Geoff Johns, novo “Todo-Poderoso” do Universo Cinematográfico. Na trama, Barry Allen vai para uma realidade onde seus poderes não existem, sua mãe está viva e a Liga da Justiça é lenda. O Batman não é Bruce, mas Thomas Wayne, o pai do Morcego original. Guerra pra todo lado e muita coisa bacana acontecendo ao mesmo tempo. Uma das melhores animações, sem dúvida.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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