Black Mirror – 3×02 – Playtest

Imagem: Quartz / Divulgação

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Aqui estou novamente, reflexiva após outro episódio de Black Mirror, aquele tapinha na cara básico.

“Playtest”, segundo episódio da terceira temporada, apresenta Cooper (Wyatt Russel), nosso personagem protagonista da vez. Um americano aventureiro fazendo várias viagens pelo mundo, fugindo dos problemas, inclusive de sua mãe, após a morte de seu melhor amigo e pai, que era assolado com a doença de Alzheimer, e acumulando memórias enquanto há tempo, vivendo tudo o que lembra, já que carrega possivelmente traços da triste doença. Cooper está em Londres, parada final antes de finalmente voltar para casa e conhece Sonja (Hannah John-Kamen) através de um aplicativo de encontros. Após o encontro e uma noite juntos, tornam-se amigos.

Pausa para reflexão nesse ponto. Os conselhos de minha mãe, quando eu era pequena: “Não fale com estranhos” e “Não entre em carro de estranhos” e o que fazemos hoje foge à regra. As pessoas usam o Tinder e o Uber, saindo e entrando em carros de estranhos a um botão de distância, e aqui eu pareço paranoica, mas é a forma como levamos a vida hoje, isso faz parte de nós. A única coisa que precisamos hoje é de nossos smartphones, isso é bem enfatizado no inicio do episódio, quando Cooper deixa o passaporte e leva apenas seu aparelho celular. Seu celular ao mesmo tempo que o isola da pessoa que poderia ser mais próxima, sua mãe, o aproxima de estranhas pessoas como Sonja, Katie e Shou.

No seu último dia em Londres, Cooper se vê sem dinheiro e não consegue comprar passagens para casa. Um detalhe interessante é quando o cartão de Cooper não funciona e numa tentativa inútil, assopra o cartão na esperança que ele volte a funcionar (um movimento clássico familiar para aqueles que lembram de assoprar as fitas Nintendo em seu mau funcionamento). Então, ele busca ajuda de Sonja e decide através de outro aplicativo, arranjar um trabalho provisório para conseguir uma forma de voltar pra casa.

Nesse ponto que é a coisa começa a esquentar, Cooper decide ser cobaia na Saito Games, uma empresa gigante (e pasmem, ou não, uma empresa com esse nome existe) do gênio promissor Shou Saito (Ken Yamamura), que produz jogos de terror. Acompanhado por Katie (a carismática Wunmi Mosaku, que fez uma ótima atuação), ele aceita passar por pequenos procedimentos médicos “reversíveis” e testar um jogo de terror de sobrevivência em realidade aumentada onde o cérebro baixa o jogo e faz uma projeção mental, procurando seus pontos fracos e manisfestando seus medos mais obscuros. O jogo usa a própria mente para te assustar, afinal, possuímos o processador mais potente, o cérebro humano.

O objetivo do jogo é ficar no ambiente virtual até se sentir aterrorizado o bastante para pedir que parem. E que os jogos comecem! “Playtest” é com certeza, uma ótima opção para a semana de Halloween. Cooper começa a ser aterrorizado por seus medos, como aranhas, o valentão do ensino médio, tudo isso numa casa do século XVIII, com barulhos assustadores. E aí começamos a nos questionar sobre a trama até então, Sonja tinha boas intenções?! Katie e Shou estão prestes a fazer algo nefasto?! Vemos o personagem trancafiado no inconsciente da sua mente, ao mesmo tempo que tenta compreender o funcionamento do programa.

Este jogo capta seus maiores medos e os usa contra você. Algo parecido já acontece conosco, nossa vida é monitorada virtualmente enquanto digitamos, pesquisamos, por algoritmos. Dessa forma, recebemos anúncios relacionados ao que pesquisamos, publicações em nossas redes sociais, somos direcionados à páginas específicas. A forma que nos posicionamos virtualmente é nossa marca registrada, para recebermos algo personalizado. Agora, paremos para pensar quando isso tiver o poder de acessar nossos mais profundos pensamentos. Não parece tão distante e irreal algo assim agora.

Wyatt Russel fez um bom trabalho, me senti angustiada com a enrascada em que o personagem Cooper se meteu. Seu desespero em querer que aquilo parasse e o jogo acabasse também foi o meu. Quanto mais Cooper despertava das experiências, mais o jogo parecia complexo e brilhante. E quando pensamos que tudo acabou bem, doce ilusão! O celular tocou. Em que ponto o jogo realmente começou?

E como de costume de Black Mirror, o episódio se transforma em um olhar angustiante sobre a forma como vivemos hoje, como nossas experiências podem ser apenas extensões de nossos aplicativos, jogos e smartphones. Como nós transformamos nossas vidas em um jogo gigante. E como nossos desejos mais grandiosos, até mesmo os nossos sonhos mais sublimes, podem ser apenas manifestações artificiais de nossa dependência tecnológica.

 

Efeitos colaterais “Playtest”: “Será que estou vivendo uma mentira? Eu existo? Isso é um jogo? Tira essa coisa da minha cabeça, tira! Parem!”

Lição e alerta Black Mirror de hoje: Desliguem seus celulares, isso pode salvar sua vida!

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