Black Mirror – 3×04 – San Junipero

Imagem: Vox

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Black Mirror com “San Junipero” encontra o amor em um lugar de esperança. Só desta vez, as coisas se saem bem. O que foi isso, Brasel?! Charlie Brooker deu uma trégua, não me assustou dessa vez e nem quase vomitar me fez vomitar.

Quantas vezes eu me questionei sobre o que acontecerá conosco quando o corpo morrer. Tudo aquilo que somos e sentimos que habita um corpo apenas, como um hospedeiro, para onde vai? Que triste seria se apenas se apagasse. Quantas teorias e diálogos esperançosos sobre reencontros todos nós já tivemos. O que também é tratado em The 100 na terceira temporada de forma semelhante com a Cidade Luz, Clarke e a Comandante Lexa.

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O quarto episódio desta temporada, através de uma atmosfera oitentista e nostálgica muito bem reproduzida, nos apresenta duas lindas mulheres, Yorkie (Mackenzie Davis, de olhos lindos) e Kelly (Gugu Mbatha Raw), que se conhecem em um bar em San Junipero. Enquanto Yorkie é uma garota tímida e parece não ter visto nada do mundo, Kelly é o oposto. As duas se envolvem romanticamente e a trama se desenrola de forma linda com as duas construindo uma relação.

Nos parece estranho esse “anos 80” e temos algumas pistas, como o fato de acontecer algo à meia-noite, o atraso de uma semana para Yorkie e Kelly se encontrarem, sugestões de que existe algo a mais, e as coisas não são o que parecem. Começamos a entender um pouco mais, quando Kelly evita encontrar Yorkie por motivos pessoais e comoventes e Yorkie não desiste dela, procurando-a também em outras décadas, semana após semana, começo dos anos 80, 1996, 2002, o mesmo lugar retratado em outras épocas.

Quando Kelly e Yorkie decidem se encontrar no mundo real, entendemos tudo sem esforço. San Junipero é uma espécie de paraíso artificial simulado, criado para terapia de imersão nostálgica, com o intuito de ajudar pacientes terminais, idosos e portadores da doença de Alzheimer, liberada em “doses” de 5h por semana para cada pessoa, para evitar que percam o contato com a realidade. As duas mulheres são significativamente mais velhas do que aparentam na simulação. Yorkie ficou tetraplégica aos 21 anos, em um acidente de carro, após contar aos seus pais (muito tradicionais) sua opção sexual, e está em uma cama sozinha desde então.

Yorkie decide morrer, e aqui outra ponta solta é amarrada, as pessoas podem escolher antes de morrerem ficar em San Junipero como residentes. Em um diálogo, fica bem claro que não é uma opção permanente. Após morrerem e estarem em San Junipero, todos tem a opção de partir a qualquer momento e, quando escolherem isso, simplesmente acaba.

Ao decidir morrer, Yorkie não tem autonomia para escolher ficar na cidade maravilhosa, ela não pode assinar um termo, a família não a visita mais e também não aprovariam a permanência dela no paraíso artificial. Decide-se então casar com um enfermeiro para que este como familiar possa assinar por ela. Kelly sabendo disso, em um ato bondoso e gentil pede Yorkie em casamento para ajudá-la a partir. Ela que luta contra uma doença terminal, havia sido casada por 49 anos e tido uma filha que morreu aos 39. Ao contrário de Yorkie, ela não gostaria de ficar em San Junipero. Essa também tinha sido a escolha de seu marido Richard. Para ela, não faria sentido ser enviada a uma nuvem, ficando residente em um paraíso artificial sem sua família.

Kelly por fim acaba tomando a decisão de ficar com Yorkie (e que arrepio quando a eutanásia está acontecendo no clímax da música tocando). E sim, as coisas acabam bem. Elas felizes vivendo momentos ao lado uma da outra em um céu na terra.

E para matar a curiosidade de muitos, “San Junipero”, foi gravada na Cidade do Cabo, na África do Sul, assim como “Nosedive”.

Black Mirror que tem sido consistente ao nos mostrar que a tecnologia é uma armadilha, vem com uma narrativa comovente neste episódio e quase surpreendente humano.

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