Black Mirror entregou em sua 7ª temporada um dos episódios mais ousados e divertidos de toda a série: “USS Callister – Infinity”, o aguardado retorno da tripulação digital que conhecemos no episódio clássico da 4ª temporada.
Revisitando esse universo com novas camadas, mais humor e uma crítica ainda afiada sobre tecnologia e poder, o sexto episódio dá um fechamento digno — e inesperadamente pop — à nova leva da antologia da Netflix.
Um salto direto para o caos digital
“Infinity” começa exatamente de onde o episódio anterior parou: após o colapso do servidor privado onde estavam presos, Nanette (Cristin Milioti) e os outros clones da tripulação Callister agora vagam por um universo online massivo e imprevisível, povoado por 30 milhões de jogadores reais. Se antes eles viviam sob o controle do sociopata Robert Daly, agora enfrentam um novo desafio: sobreviver nesse ambiente competitivo onde dinheiro digital é essencial para continuar existindo.
E o problema é maior do que parece. Sem corpos no mundo real, se morrem no jogo… bem, morrem de vez. A solução? Emboscar jogadores desavisados e roubar seus créditos. A distopia sci-fi da vez mistura inspiração em Destiny, Star Trek e muito da cultura gamer moderna, mas sem perder o DNA sarcástico de Black Mirror.
Nanette no mundo real e o perigo da descoberta em Black Mirror
Paralelamente, no mundo real, a verdadeira Nanette lida com um novo pesadelo: um repórter do New York Times começa a investigar o caso Daly e suspeita da existência de uma tecnologia ilegal de clonagem digital — justamente o sistema que aprisionou sua consciência no jogo. Com medo de que sua versão virtual seja apagada, Nanette se une ao CEO vilanesco da empresa para tentar encontrar uma forma de salvar seu “eu” digital.
É um jogo de gato e rato envolvendo vigilância corporativa, ética da tecnologia e identidade digital. E tudo isso embalado por diálogos afiados e um roteiro surpreendentemente leve, mesmo tratando de temas tão complexos.


Black Mirror 7ª temporada Episódio 6 abraça o humor e a ação
Ao contrário de outras histórias mais sombrias da temporada, USS Callister – Into Infinity aposta no humor, na ação e em uma boa dose de meta-referência. É o primeiro episódio da série a ter uma recapitulação (“Previously on…”), e também o mais longo até agora, com 88 minutos — mas que passam voando.
A direção brinca com elementos visuais do sci-fi clássico e moderno, das referências à estética de Star Trek: Into Darkness até trilhas sonoras que evocam o espírito de John Williams. O roteiro, assinado por Bisha K Ali, Bekka Bowling, William Bridges e o criador Charlie Brooker, acerta ao fugir dos clichês de paródia e entregar uma história envolvente e inesperadamente emotiva.
O legado da USS Callister e o futuro digital
Para quem se lembra do final do episódio original, a sensação era de libertação. Mas “Into Infinity” mostra que a liberdade no mundo virtual não significa exatamente segurança ou felicidade. Ainda presos em um jogo sem corpo para retornar, os personagens vivem como nômades digitais, enfrentando a brutalidade de jogadores reais e os perigos do esquecimento.
Ao mesmo tempo, o episódio cutuca a indústria de jogos online, a monetização predatória, e até a forma como tratamos avatares e identidades digitais — seres com sentimentos reais, ainda que gerados por código. A performance de Milioti continua cativante, e sua versão digital carrega boa parte da carga emocional do episódio.
Um dos melhores finais da série
No fim das contas, USS Callister –Infinity é um raro caso de sequência que justifica sua existência. Ele consegue expandir o universo criado anos atrás, divertir, surpreender e ainda fazer o espectador refletir — tudo isso sem perder o ritmo e a inventividade que tornaram Black Mirror um sucesso mundial.
O episódio também funciona como um lembrete: a tecnologia não precisa ser o vilão por si só — o problema, como sempre, está em quem a controla.
Black Mirror – Temporada 7 está disponível na Netflix, e “Into Infinity” encerra a temporada em grande estilo: com phasers em mãos, piadas afiadas e um olhar provocativo sobre o futuro que já está entre nós.