Black Mirror: através do espelho negro (e o que encontramos lá)

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David Chase, criador de The Sopranos, afirmou em uma entrevista que gostaria que o último episódio de sua série não tivesse créditos finais. Seu desejo era claro: o capítulo final terminaria abruptamente, com um corte seco direto para uma tela preta. Chase queria que o espectador visse seu reflexo refletido na tela da TV após acompanhar a história do gangster Tony Soprano por quase dez anos. Ele não queria créditos ou música, apenas uma tela negra, vazia por aproximadamente um minuto, forçando a audiência a se encarar no reflexo. A HBO, contudo, vetou a ideia. Quem assistiu a finale de The Sopranos sabe duas coisas: ela é genial e termina de repente. É verdade que a tela fica escura por uns segundos, mas em seguida as letras brancas dos créditos surgem.

Pode ser uma decisão tola, mas a ideia de Chase vai além da estética. O criador queria que o público encarasse seu rosto na TV e percebesse seu espanto após um final aberto. Mais: gostaria que todos pudessem ver os rostos daqueles que amaram e torceram por um sujeito que matou, traficou, comandou esquemas de prostituição, sequestrou, traiu família e colegas e sempre foi encarado pelo público como anti-herói, como um homem de princípios que merecia nosso respeito e admiração. Chase queria, em linhas mais rasas, que o público pudesse digerir o último capítulo e suas lacunas e possibilidades. A televisão, porém, que sempre priorizou tempo e dinheiro, preferiu tocar a programação adiante, pois, segundo eles, ninguém gostaria de ver a tela de seu aparelho preta e vazia, como se tivesse pifado.

Porque é assim que as coisas funcionam: a TV, a Netflix, os aplicativos e tudo que você utiliza em qualquer tipo de aparelho não querem que você perca a atenção. Eles não querem que você pisque e volte à realidade. Eles querem você preso em suas histórias, jogos e ideias. O celular é a primeira coisa que você toca pela manhã e a última à noite, mas você não costuma se enxergar nele. Quando você quer tirar uma foto, existe todo um preparo: o cabelo, a luz, a roupa. Está tudo certo? Tudo bem? Se sim, a foto é tirada. É então postada nas redes e as curtidas e comentários vêm. Você já desligou o seu dispositivo móvel e viu, sem querer, seu rosto refletido na tela preta? Quando o aparelho descarrega e você sai de sua suspensão momentânea, vendo os olhos brilharem na superfície do vidro negro. Você se assusta, reclama, busca uma tomada mais próxima. Tudo porque você não quer se ver, não quer olhar para si se não estiver preparado. Você quer voltar para aquela realidade.

O nome Black Mirror vem justamente da tela negra que divide você de todo o resto atrás dela. Uma pequena película entre uma realidade e outra. Não há série, hoje, que discuta nossa realidade como Black Mirror. Passe os olhos por todos os programas lançados recentemente. Pegue toda a última década e tente achar uma produção que dialogasse com tantos temas importantes como a criação de Charlie Brooker. O show acerta justamente por não apostar em abordagens fáceis, palatáveis, daquelas que esquecemos logo que desligamos o aparelho ou passamos para o próximo programa. As histórias de Black Mirror ficam, marcam e fazem refletir. Pior: assustam com algo simples, a verdade.

Engenharia Reversa talvez seja o mais fraco dos novos capítulos lançados pela Netflix. O irônico, contudo, é que talvez seja o mais denso em sua abordagem crítica social e um dos mais assustadores se comparado à atualidade. Ainda que Perdedor, o primeiro da nova temporada, também assuste ao esfregar em nossa cara certas verdades, Engenharia Reversa sai um pouco do universo particular e fala em uma escala maior, praticamente mundial. Enquanto Perdedor seguia os personagens presos em seus universos egoístas criados em smartphones, Engenharia Reversa fala de empatia, guerra, manipulação midiática, xenofobia e muito mais, tudo amparado por um pano de fundo claramente inspirado na questão dos refugiados espalhados pelo mundo.

No episódio, aparelhos são implantados em soldados para que estes enxerguem seus oponentes como monstros e, assim, possam matá-los sem remorso ou qualquer tipo de senso crítico. Eles então viram máquinas de combate, peças de um tabuleiro que apenas puxam gatilhos. O implante manipula e faz com que os soldados enxerguem certa parcela da população como monstros, bestas que devem morrer para que o bem maior seja mantido, para que a raça pura prevaleça.

Foi essa lógica que levou o nazismo ao poder. E não só: ditaduras e qualquer tipo de preconceito. Se os imigrantes são mal vistos é porque assim disseram que eles deveriam ser encarados. Se qualquer descendente árabe é visto como terrorista é porque assim disseram. Se a homofobia continua prevalecendo, é porque disseram que a sexualidade das pessoas importava. Que isso afetaria a família tradicional, o futuro das crianças e o estado das pessoas de bem. A mídia, os “formadores de opinião”, os escritores, os diretores e roteiristas, os programas que você assiste e os sites por trás da tela negra. Eles todos disseram e outros apenas reproduziram estes discursos. Pior: tudo isso começou há séculos e a cultura tratou de manter estes ideais acessos. As pessoas levaram adiante e os “espelhos negros” reproduziram, principalmente hoje, quando estes estão por toda a parte.

Um reflexo no vidro negro

Black Mirror nunca deixou suas crítica implícitas. Desde o primeiro capítulo tudo já era claro. Brooker nunca quis confundir o público criando tramas indecifráveis. Ao contrário, sempre produziu histórias fechadas em si, mas abertas a inúmeras interpretações. Brooker fez na TV o que Christopher Nolan faz no cinema: cria roteiros aparentemente complexos, mas facilmente decifráveis, que escondem um mar de possibilidades. Em outras palavras, os capítulos são acessíveis, mas te pegam pela mão e te fazem conjecturar uma realidade dentro daquele universo.

Sou um dos poucos que considera Hated in the Nation o capítulo mais fraco desta nova temporada. Inchado, o episódio tem trinta minutos totalmente descartáveis. Além disso, o roteiro não tenta subverter o gênero como o fez em outras tentativas. Na terceira temporada, Brooker e seu time brincaram com o horror, o drama, o romance, o suspense e sempre atingiu resultados elogiáveis. Em Hated in the Nation, contudo, a produção falha ao construir um thriller policial que se encaixe no universo de Black Mirror.

Ainda assim, o desfecho desperta questionamentos importantes. O capítulo termina com o criminoso solto e uma das detetives indo atrás do sujeito. O final em aberto levanta algumas possibilidades: ela alcançou o bandido e o matou? A detetive era parceira do terrorista? O que você prefere? Muitos, tenho certeza, desejaram a morte do assassino. Ao ansiar pela justiça à base de sangue, entretanto, o espectador torna-se aquilo que o episódio critica. Ao desejar que o criminoso, responsável por inúmeras mortes, seja morto, o público torna-se o hater que usou a hashtag: death to.

Sem ser explícito, Black Mirror te joga naquele universo e te faz ser uma peça naquilo tudo. Sem perceber, você está por trás do vidro negro, e não à sua frente.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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