O primeiro episódio de Black Torch chega com uma missão complicada. Sempre que um novo shonen aposta em exorcistas, criaturas sobrenaturais e protagonistas impulsivos, as comparações com grandes sucessos do gênero são inevitáveis. E a estreia não foge disso. Em poucos minutos, o anime lembra bastante Bleach em sua construção inicial, enquanto alguns acontecimentos do episódio remetem diretamente a Chainsaw Man. No entanto, seria injusto resumir Black Torch apenas a essas influências.
O episódio usa referências bastante conhecidas como ponto de partida, mas rapidamente apresenta elementos suficientes para despertar curiosidade sobre seu próprio universo. O resultado é uma estreia dinâmica, com boa animação, cenas de ação muito bem coreografadas e um protagonista que consegue conquistar o público logo em sua primeira aparição.
Mais importante do que isso, porém, é perceber que o anime entende exatamente o que precisa fazer em seu capítulo inicial: apresentar seu herói, estabelecer as regras daquele mundo e deixar uma promessa clara de que aventuras muito maiores estão por vir.
Jiro é apresentado como um protagonista clássico, mas extremamente carismático
Grande parte do sucesso do primeiro episódio passa pela construção de Jiro.
À primeira vista, ele parece seguir o arquétipo tradicional dos protagonistas shonen. Tem aparência de delinquente, vive envolvido em brigas e demonstra uma personalidade impulsiva. No entanto, basta observar suas atitudes para perceber que existe uma enorme diferença entre sua aparência e seu verdadeiro caráter.
Desde criança, Jiro possui a habilidade de conversar com animais. Em vez de usar esse dom em benefício próprio, ele transforma essa capacidade em uma forma de proteger aqueles que não conseguem se defender sozinhos. Sempre que encontra alguém maltratando um animal, intervém imediatamente, mesmo que isso signifique enfrentar grupos inteiros de estudantes ou arrumar novos problemas.
Essa característica ajuda a definir quem ele é muito antes da história apresentar qualquer grande conflito sobrenatural. O roteiro deixa claro que Jiro não age por obrigação nem porque deseja se tornar um herói. Ele simplesmente acredita que proteger os mais fracos é a coisa certa a fazer.
Essa construção faz com que o espectador compreenda rapidamente suas motivações, tornando muito mais fácil criar empatia pelo protagonista.

As referências a Bleach aparecem desde os primeiros minutos
É impossível assistir ao episódio sem notar a forte influência de Bleach.
A própria personalidade de Jiro lembra bastante Ichigo Kurosaki. Ambos possuem uma aparência intimidadora, vivem cercados por confusões e acabam sendo muito mais bondosos do que deixam transparecer. Além disso, a forma como utilizam habilidades sobrenaturais para ajudar seres invisíveis ao restante das pessoas também estabelece um paralelo bastante evidente.
As semelhanças continuam na maneira como Jiro luta. Seu avô lhe ensinou técnicas ninjas que transformam os confrontos físicos em sequências extremamente ágeis, lembrando o estilo de combate que marcou os primeiros arcos de Bleach.
Felizmente, o anime não tenta esconder essas inspirações. Pelo contrário. Ele parece bastante confortável em dialogar com obras que ajudaram a definir o gênero. A diferença é que utiliza essas referências apenas como base para construir uma identidade própria.
Rago muda completamente o rumo da narrativa
Até a metade do episódio, Black Torch parece concentrado apenas em apresentar seu protagonista e suas habilidades especiais. Essa impressão muda completamente quando surge Rago.
O gato, inicialmente apresentado como um simples animal ferido encontrado na floresta, rapidamente revela ser um mononoke, uma criatura sobrenatural extremamente poderosa que está sendo perseguida por outros seres semelhantes.
A relação construída entre Jiro e Rago funciona quase imediatamente porque ambos compartilham características parecidas. Os dois são desconfiados, preferem resolver seus problemas sozinhos e demonstram enorme dificuldade para aceitar ajuda. Ainda assim, aos poucos, surge uma relação de respeito que acaba se tornando o verdadeiro coração do episódio.
Mesmo ferido, Rago insiste em abandonar a casa de Jiro para não colocá-lo em perigo. É com essa decisão que todos os acontecimentos finais da estreia são desencadeados.
O primeiro grande confronto mostra o potencial do anime
Quando o mononoke responsável por perseguir Rago finalmente aparece, o episódio muda completamente de ritmo.
A direção aproveita esse momento para apresentar uma sequência de ação bastante competente, utilizando uma animação fluida e movimentos rápidos que ajudam a transmitir a sensação de perigo constante.
Embora Rago peça que Jiro fuja imediatamente, o protagonista se recusa a abandonar alguém que acabou de salvar. Essa escolha diz muito sobre sua personalidade. Mesmo sem possuir qualquer chance real de vitória, ele prefere enfrentar uma criatura muito mais poderosa do que simplesmente assistir à morte de um companheiro.
É, aliás, essa coragem que acaba conduzindo ao momento mais importante da estreia.
Durante o confronto, Jiro sofre um golpe fatal que atravessa seu peito. Em qualquer outra situação, aquele seria o fim do protagonista.
Mas Black Torch utiliza essa aparente derrota para apresentar a principal transformação da história.
A fusão entre Jiro e Rago lembra Chainsaw Man, mas segue outro caminho
Diante da morte iminente de Jiro, Rago toma uma decisão inesperada.
Em vez de devorá-lo, como normalmente fazem os mononokes, ele entra em seu corpo e compartilha seu próprio poder para salvá-lo.
A sequência inevitavelmente lembra Chainsaw Man, principalmente pela maneira como uma criatura sobrenatural se funde ao protagonista para lhe conceder uma nova forma. Ainda assim, as duas histórias seguem caminhos diferentes.
Enquanto Chainsaw Man trabalha essa união como um pacto envolvendo sobrevivência e desejos pessoais, Black Torch parece interessado em explorar uma parceria construída sobre confiança.
Rago não salva Jiro porque espera alguma recompensa.
Ele faz isso porque reconhece a bondade que encontrou naquele garoto.
Essa diferença muda completamente a dinâmica entre os dois personagens e promete desenvolver uma relação muito mais próxima ao longo da temporada.

A nova forma de Jiro encerra o episódio mostrando o verdadeiro potencial da série
Depois da fusão, Jiro retorna à vida completamente transformado.
A partir desse momento, o anime apresenta um aumento significativo no nível da ação. O protagonista passa a utilizar habilidades que não possuía anteriormente, enquanto Rago continua influenciando seus movimentos durante a batalha.
O combate serve menos para resolver o conflito daquele episódio e mais para mostrar ao público quais serão as possibilidades narrativas da série daqui para frente.
É uma escolha inteligente.
Em vez de gastar muito tempo explicando o funcionamento de seus poderes, o anime prefere demonstrar essas capacidades diretamente em combate, tornando tudo muito mais dinâmico.
Ao final da luta, fica claro que Jiro deixou de ser apenas um garoto capaz de conversar com animais. Agora ele ocupa uma posição muito mais importante dentro daquele universo sobrenatural.
A animação ajuda a tornar a estreia ainda mais eficiente
Outro aspecto que merece destaque é a qualidade técnica apresentada logo no primeiro episódio.
As cenas de ação possuem ótima fluidez, os efeitos utilizados durante as transformações são bastante consistentes e o desenho dos mononokes transmite exatamente a sensação de ameaça que a história procura construir.
Além disso, a direção evita exagerar nos cortes rápidos que costumam prejudicar tantos animes de ação recentes. Sempre que um combate acontece, é possível acompanhar claramente os movimentos dos personagens, o que aumenta bastante o impacto das sequências.
A trilha sonora também contribui para criar tensão nos momentos certos, enquanto a abertura já demonstra potencial para se tornar um dos destaques da temporada.
Black Torch começa mostrando que pode ser um dos bons shonens do ano
É cedo para afirmar até onde Black Torch conseguirá chegar. Afinal, um bom episódio de estreia não garante necessariamente uma boa temporada. Ainda assim, o anime faz praticamente tudo o que se espera de um primeiro capítulo.
Apresenta um protagonista carismático, constrói rapidamente seu universo, introduz um parceiro que promete render ótimas interações e encerra a história deixando uma série de perguntas para os próximos episódios.
As comparações com Bleach e Chainsaw Man certamente continuarão acontecendo, principalmente porque algumas inspirações são bastante evidentes. Entretanto, o episódio demonstra que a série não pretende viver apenas dessas referências. Existe personalidade suficiente em Jiro, Rago e na mitologia dos mononokes para justificar uma identidade própria.
Se conseguir aprofundar esse universo com o mesmo equilíbrio demonstrado na estreia, Black Torch tem tudo para se firmar como uma das boas surpresas da nova temporada de animes. Afinal, seu primeiro episódio deixa uma impressão bastante clara: as influências são visíveis, mas a história que pretende contar parece ser totalmente sua.


