Bright: novo filme da Netflix é uma soma de erros e acertos

Imagem: Netflix/Divulgação

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Quando os fatos surgem, precisamos reconhecê-los. A Netflix, embora já tenha garantido seu sucesso entre as séries de TV, ainda não conquistou o terreno cinematográfico. Nenhum de seus filmes foi um estouro de crítica ou público. Este ano, o longa-metragem que tem conquistado os especialistas e garantido alguns prêmios é Mudbound, produção que não chega a ser realmente da plataforma, que apenas a distribui em alguns territórios. Assim, a Netflix vem tentando se consolidar através da experimentação: já tentou filmes de guerra, dramas, romances, comédias, animações e, agora, uma fantasia policial original e arriscada.

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E os resultados são delicados. Bright, dirigido por David Ayer (Corações de Ferro, Esquadrão Suicida), embora seja bem feito e garanta diversão, não deve ser o filme que finque a bandeira da plataforma no terreno dos grandes estúdios. Um dos motivos é que as produções da Netflix segue sendo produções da Netflix. Sua forma de produção e distribuição afasta as obras de qualquer outra lançada oficialmente nos cinemas. São como telefilmes que nunca deixam de ser telefilmes, mesmo possuindo qualidade inquestionável.

Na trama, ambientada em uma realidade alternativa, Ward (Will Smith) é um policial de Los Angeles obrigado a patrulhar ao lado de Jakoby (Joel Edgerton), um Orc. Neste universo, Orcs e Elfos e outras criaturas dividem espaço com humanos. Enquanto Elfos são ricos e poderosos, Orcs vivem nas periferias e sofrem pesado preconceito. Em meio a essa tensão racial, a dupla de policiais precisa lidar com uma nova ameaça.

Bright é uma mistura de Dia de Treinamento com O Senhor dos Anéis, como bem classificou Will Smith na última Comic Con Experience. Quando investe em seu perfil policial, o longa se sai bem, quando adota o perfil fantástico, acaba tropeçando. Por mais que tente criar uma mitologia concreta, a base nunca parece firme ou bem estabelecida. São muitas ideias jogadas e a impressão que fica é que Bright é um pequeno pedaço de algo muito maior. Em outras palavras, é como se o filme fosse uma continuação de um livro ou game, ou uma adaptação de outro produto, algo que exige um conhecimento prévio.

Assim, é difícil entrar no ritmo e na abordagem. São Orcs, fadas, anjos, varinhas mágicas e mais uma porção de seres e objetos mágicos. Tudo vem empacotado num belo conjunto visual, seja em termos de maquiagem ou efeitos. A mistura com o universo realista, contudo, não funciona em alguns momentos. Ayer investe pesado na construção de um ambiente urbano, sujo e violento. Neste quesito, Bright pertence ao mesmo grupo de outros projetos do diretor, como os bons Marcados para Morrer e Os Reis da Rua. E Ayer sabe dirigir sequências de ação. Amparado por uma boa fotografia e por um trabalho de som poderoso, o diretor cria bons momentos de tensão, além de tiroteios e perseguições bem orquestradas. Por esta perspectiva, Bright é um bom filme de ação.

A coisa fica estranha mesmo com o viés fantástico. O roteiro se atrapalha entre personagens descartáveis e decisões bobas. Noomi Rapace, por exemplo, passa o filme quase inteiro calada. O mesmo acontece com os seus inúteis capangas. Na verdade, todos os personagens secundários são fracos: da esposa do protagonista (que desaparece antes do filme chegar aos dez minutos) aos detetives que investigam a situação, nenhum é bem desenvolvido ou minimamente carismático. A força reside mesmo é na dupla central, e Will Smith e Joel Edgerton são as melhores coisas do filme. Enquanto Smith é sempre uma garantia de carisma, Edgerton rouba a cena mesmo sob maquiagem pesada. O ator, mesmo com lentes que mudam a cor e a forma de seus olhos, comunica seus sentimentos através de breves movimentos, um trabalho elogiável que emociona e faz rir com apenas um olhar.

No fim, Bright poderia ser apenas mais um filme policial. As metáforas exageradas não são novas, já foram utilizadas e reaproveitadas de formas melhores em outros projetos. Logo, a fantasia surge deslocada, já que a trama funcionaria bem apenas acompanhando a dupla central de policiais. Prova disso é que a dinâmica dos dois funciona muito bem, principalmente no terço final do filme, quando Ayer parece encontrar o equilíbrio certo de humor. Apesar de eventuais problemas, o longa serve como entretenimento e merece elogios pela boa intenção.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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