Cartão Postal – Gotham

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Gotham City é uma das cidades fictícias mais famosas da cultura pop. Recriar o local sempre é interessante e cada artista tem a sua visão sobre o lar do Homem Morcego. Gotham, a série da FOX, é uma junção interessante de diversas Gothams. Junte o visual urbano realístico dos filmes de Christopher Nolan com a abordagem anacrônica e burlesca de Tim Burton e você tem algo próxima da Gotham da TV. Goste ou não da série, é preciso reconhecer a beleza estética do programa.

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Filmada em Nova York, a série tem a pegada dos filmes de Nolan ao trazer elementos urbanos contemporâneos, mas é inegável que o programa também bebeu, e muito, na fonte de Tim Burton. É notável, por exemplo, que o filme com Michael Keaton como Batman traz uma Gotham anacrônica, em uma mescla interessantíssima de elementos contemporâneos e antigos. Note por exemplo, que a Gotham de Burton traz diversos elementos que remetem a décadas passadas, como carros antigos, prédios históricos e roupas clássicas (dos vestidos “anos 50” aos chapéususados pelos jornalistas). Ainda assim, a cidade criada para o filme ainda traz alguns elementos modernos, criando um universo estranho, que mistura épocas e parece deslocado no tempo.

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A Gotham de Tim Burton. Fonte: Warner Bros.

Assim, não tenho receio em palpitar que a Gotham de Tim Burton talvez seja a melhor versão da cidade já criada. Fiel ao visual dos quadrinhos – e com o toque impecável do cineasta – a Gotham de Batman pode ser carnavalesca ou exagerada, mas evoca um clima impecável e certeiro para o universo do Homem-Morcego. É justamente isso que a série Gotham pega um pouco emprestado. A iluminação, as locações, as cores, tudo indica uma visão específica para o mundo de Batman.

Fuja dos dias de sol

Doug Kraner, diretor de arte da série, comentou que a equipe geralmente está fugindo do brilho, da beleza e dos dias ensolarados. Em entrevista ao The Guardian ele ainda afirma: “E se temos que filmar em um dia de sol com um céu azul, esse céu sempre será removido e substituído por um céu cheio de nuvens na pós-produção”.

Essa mistura de estilos talvez seja explicada pela abordagem da equipe. Kraner explica que ele e os produtores e diretores da série sentaram e estudaram diversos filmes, livros e HQs para encontrar o visual ideal para Gotham. Cada vez que uma imagem legal era encontrada, ela era colocada em um mural. Todas essas imagens advindas de diversos locais renderam uma ideia do que seria a cidade da série de TV.

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Fonte: Fox

Em qual época se passa Gotham, afinal? Nenhuma específica, na verdade, mas segundo o artista comenta que a ideia é remeter à Nova York de 1970/80. O que os produtores não queriam era uma visão contemporânea ultra-realista. E aí novamente caímos no mundo de Tim Burton. Não espere smartphones e carros de última linha em Gotham. A série flutua no tempo, e essa liberdade permite diversas abordagens visuais.

Muitas partes de Nova York precisam de algumas adaptações para se parecer Gotham, mas outras tantas partes são perfeitas para representar o lar do pequeno Bruce Wayne. O beco utilizado no início do piloto, quando Bruce perde os pais, é perfeito, segundo Kraner. O beco fica em Chinatown e precisou de pouco para parecer Gotham. Ele ainda brinca que a maioria dos locais perto ou abaixo de pontes são perfeitos para a série, principalmente se tiver um carro quebrado enferrujando no lugar e algumas pilhas de lixo.

Nas entranhas de Gotham

Vamos começar pela parte bela? É claro que diversas locações são lindas, mas a mais limpa certamente é o apartamento de Barbara Kean. O visual clean e moderno do apartamento se dá por um motivo interessante. Segundo o diretor de arte, Jim Gordon vive entre dois mundos: o trabalho e o pessoal. No trabalho é cercado por um ambiente caótico, violento, sujo e opressor. É um universo bagunçado, escuro e feio, de certa forma. Além disso, é um mundo já definido, sendo Gordon apenas um homem que não pode transformar este ambiente.

Já o apartamento de Barbara representa a vida pessoal de Jim. Além disso, é um local que fica acima de toda a cidade, nas alturas de um prédio. Assim, é um lugar fora da sujeira das ruas e vielas de Gotham. Está, literalmente, acima de tudo. É limpo e, de certa forma, puro. Vale apontar, portanto, a ironia de que o relacionamento do casal está acima de tudo, mas não deixa de ter uma base de caos e sujeira. A paisagem urbana vista através da enorme parede de vidro do apartamento é, na verdade, uma foto enorme. Trata-se de uma colagem de diversos prédios de inúmeras cidades ao redor do mundo.

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Fonte: Jessica Miglio/Fox

Para a “police station” de Gotham City, a equipe tentou deixar o local com cara de prédio antigo, meio gótico, com fortes referências às catedrais. Tudo com muitas pedras e tijolos aparentes. Essa textura de blocos e tijolos, aliás, é o que vinga nas cenas externas. É fácil encontrar prédios com tijolos aparentes e enormes blocos de concreto. Muito disso tem relação com escalas: a equipe da série diz priorizar locais que evidenciam blocos e/ou revestimentos enormes, duas ou três vezes maiores do que o normal, justamente para passar uma estranheza ao público.

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Fonte: Fox

Para o visual externo do Arkham Asylum, a série construiu pilares e um portão para a entrada de um hospital verdadeiro, chamado Bayley Seton Hospital, em Staten Island. Tanto para o Arkham quanto para outros locais, a produção sempre dá um jeito de modificar a paisagem através de efeitos visuais. A ideia sempre é modificar ou até mesmo apagar prédios e elementos que possam lembrar a audiência de que a cidade, ao invés de ser Gotham, é Nova York. Pouco do que é visto nas ruas, portanto, é 100% verdadeiro. É bem possível que alguns detalhes tenham sido alterados para criar uma Gotham original.

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