O final de Cidade de Sombras, minissérie da Netflix, entrega um desfecho intenso, trágico e profundamente político.
Depois de uma temporada marcada por assassinatos simbólicos, críticas ao capitalismo, traumas de infância e corrupção institucional, a série encerra sua história colocando seus personagens diante das consequências finais de suas escolhas. E a pergunta que mais ecoa entre os espectadores é direta: Susana morre ou sobrevive?
A resposta é clara, mas o caminho até ela é carregado de dor, ambiguidades morais e reflexões incômodas.
O plano final de Hector e Helena
No episódio final, fica evidente que Hector e Helena nunca foram apenas assassinos em série em busca de notoriedade. Eles são produtos diretos de um sistema que falhou com eles desde a infância. Órfãos após uma sequência de tragédias ligadas à especulação imobiliária e à negligência do Estado, os irmãos cresceram em La Ferradura, um abrigo que, na prática, funcionava como espaço de tortura, abuso e abandono.
Helena foi vítima de abuso sexual sistemático por parte de Torrens, enquanto Hector era punido por sua piromania com confinamentos desumanos em um porão sem comida ou água. Esses traumas moldaram não apenas suas personalidades, mas também a estética e o simbolismo de seus crimes.
Cada assassinato cometido ao longo da série carrega um significado: o fogo, o confinamento, os monumentos ligados a Gaudí. Não se trata apenas de matar, mas de transformar a violência em espetáculo, forçando a sociedade a olhar para as feridas que prefere ignorar.
A ameaça durante a cerimônia do Papa
O clímax da série acontece durante a cerimônia que marca a consagração da Sagrada Família como basílica, com a presença do Papa. A polícia acredita que está lidando com mais um ataque planejado, mas logo fica claro que o objetivo é maior: criar um evento impossível de ser ignorado, associando poder político, religião e violência.
O plano dos irmãos se divide em três frentes. Hector se infiltra na cerimônia com a intenção de se imolar, levando consigo figuras políticas ligadas à demolição de áreas pobres da cidade. Helena, tomada por seus traumas ao revisitar espaços ligados a Torrens, decide encerrar sua própria vida de forma igualmente simbólica. E Susana, juíza responsável por decisões que, ainda que burocráticas, impactaram diretamente o destino dos irmãos, é deixada para morrer sufocada em um mausoléu no cemitério de Montjuïc.
Afinal, Susana morre em Cidade de Sombras?
Não. Susana sobrevive.
Esse é um dos momentos mais importantes e simbólicos do final da série. Embora tenha sido sequestrada e colocada em uma situação de morte lenta e cruel, Susana acaba sendo resgatada por Milo e Rebeca a tempo. E esse resgate só acontece porque Helena, nos instantes finais de sua vida, decide dar uma pista sutil sobre o paradeiro da juíza.
Essa escolha muda completamente a leitura do desfecho. Helena poderia ter deixado Susana morrer. Tudo indicava que aquela seria a conclusão lógica de sua cruzada. No entanto, ao perceber as contradições de sua própria narrativa, ela hesita.
O mausoléu onde Susana é mantida revela uma verdade desconfortável: a família de Hector e Helena já foi rica no passado. Ou seja, eles próprios descendem de um sistema que, em algum momento, também explorou outros. Essa revelação desmonta a ideia de uma luta puramente moral entre pobres e ricos e expõe como a violência estrutural se reproduz em ciclos.
Ao poupar Susana, Helena não perdoa. Mas reconhece que sua vingança estava começando a atingir alvos errados.
O destino trágico dos irmãos
Hector é localizado pela polícia durante a cerimônia. Baleado no ombro, ele tem a chance de se render, mas escolhe a autoimolação. Gravemente ferido, é levado ao hospital, mas suas chances de sobrevivência são praticamente nulas.
Helena, por sua vez, destrói o escritório de Torrens e, tomada por um colapso emocional, também se incendeia antes de se jogar do alto do prédio. Sua morte encerra não apenas a sequência de crimes, mas também uma trajetória marcada por abusos, silêncios e uma tentativa desesperada de ser ouvida.
Corrupção policial vem à tona
O final também expõe a podridão dentro da própria polícia. Bachs, que vinha vazando informações para a imprensa em troca de dinheiro, é suspenso após a verdade vir à tona. Já Bastos, figura ainda mais grave, tentou sabotar a investigação para proteger Torrens, a quem devia favores e benefícios.
Embora o destino final de Bastos fique em aberto, a série deixa claro que ele enfrentará algum tipo de punição. Ainda assim, o tom é amargo: o sistema raramente pune com a mesma severidade aqueles que se beneficiam do poder.
O arco emocional de Milo e Hugo
Paralelamente ao caso, Milo enfrenta o trauma da morte do sobrinho Marc e a deterioração mental do irmão Hugo, que sofre de esquizofrenia. No final, Milo toma uma decisão dolorosa, mas necessária: acompanha Sara para internar Hugo em uma instituição psiquiátrica.
Esse gesto representa um passo importante para que Milo pare de carregar sozinho a culpa por não ter conseguido salvar Marc. Ao aceitar ajuda para o irmão, ele começa, finalmente, a lidar com seus próprios fantasmas.
Rebeca e o peso da despedida
As cenas finais com Rebeca ganham um peso ainda maior fora da ficção. A atriz Verónica Echegui, que interpreta a personagem, faleceu após lutar contra o câncer, o que transforma suas últimas falas em algo quase devastador.
Quando Rebeca diz que não se importa em ficar ao lado de Milo na sala de espera, o momento ultrapassa a narrativa. É um adeus silencioso, carregado de empatia, resistência e humanidade. A série, consciente ou não, transforma Rebeca em símbolo de permanência, mesmo diante da morte.
Um final amargo, mas coerente
O final de Cidade de Sombras não oferece conforto. Susana sobrevive, mas carrega as marcas do que viveu. Os vilões morrem, mas o sistema que os criou permanece. A justiça acontece de forma parcial, imperfeita, como quase sempre na vida real.
Ao encerrar sua história dessa forma, a série reforça sua principal mensagem: a violência não nasce do nada, e a vingança raramente traz a redenção que promete. É um desfecho duro, politizado e profundamente humano, que faz de Cidade de Sombras uma obra difícil de digerir, mas impossível de ignorar.