Class – 1×01 – For Tonight We Might Die [SERIES PREMIERE]

Imagem: Arquivo Pessoal

Imagem: Captura de Tela/Reprodução

“Leave us! We are decorating.”

Rasgos no espaço-tempo, criaturas que parecem saídas de pesadelos, uma paleta de cores vivas e uma trilha sonora perfeitamente alinhada à faixa etária dos protagonistas; é assim que Class, o tão esperado spin-off de Doctor Who chega até nós. E em “For Tonight We Might Die”, primeira parte da premiere que cobriremos aqui, descobrimos que as aulas na Coal Hill Academy vão ficar muito mais estranhas do que jamais foram.

É claro, isso não fica só aparente pelos primeiros segundos, quando vemos a professora estranha (que evoluirá para ser uma das minhas personagens favoritas da TV) e um aluno lutando contra sombras. Afinal, isto é um spin-off de Doctor Who; toda sorte de conceitos já vem preconcebida com a franquia. E é aqui que está a surpresa da coisa. Quando anunciada, Class parecia uma combinação clichê de Malhação com Os Feiticeiros de Waverly Place ou um especial de halloween de Shrek (ou qualquer outro desses produtos excessivamente teen da Disney).

Mas tirando a ambientação e os dilemas de seus protagonistas, Class funciona muito bem como uma série adulta, brincando com sensualidade, ficção e drama sem deixar de lado parcelas de um gore temperado com a vida desses adolescentes que têm que lidar não só com a família, com problemas, com a tristeza da perda, com o sexo e todo o resto da vida cotidiana: esses são os adolescentes que, ajudados pela professora mais evil e do próprio Doctor, devem enfrentar os perigos que espreitam os lugares mais sombrios do espaço-tempo… É claro, demora para que tudo isso fique claro.

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Class peca, isso ninguém pode negar. Por ser uma premiere dupla, a primeira parte acaba perdendo muito tempo introduzindo as situações e universos de cada um dos protagonistas, talvez para nos fazer simpatizar com eles ou simplesmente para tenhamos uma maior noção do quanto as reviravoltas que a trama guarda impactam profundamente cada um deles.

Imagem: Arquivo Pessoal

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Começamos lento, com olhares aqui e ali e uma primeira vista dos protagonistas. E embora tenha sido intrigante tentar entender Charlie nos primeiros instantes – afinal, é meio difícil não achar que a criança parada em frente a placa da escola com uma cara de “eu sei algo, mas não vou dizer” gera todo tipo de suspeitas –, depois que somos apresentados a Srtª. Quill, essas dúvidas vão para o segundo plano.

Depois de ver Quill destilar veneno e humilhar toda a turma (com uma pausa na nossa atenção para Charlie não saber quem é Idris Elba) com seu tom ácido, suas verdades duras e sua indiferença – a olhada nos memes de gatos de óculos é vendida separadamente – não resta dúvida de que ela pode não ter matado, mas está muito envolvida naquele desaparecimento.

Mas todas essas divagações sobre a professora badass são esquecidas quando vemos as sombras novamente em ação. É claro, isso e a cena deprimente de April tentando conseguir ajuda para decorar o salão para o baile… Mas a sombra, decididamente a sombra é o desvia mais a atenção. E talvez seja por isso que o alívio cômico oferecido pela senhorinha na loja de conveniência tenha dado tão errado. O timing é importante nessas horas, e foi um pouco cedo demais para brincar depois de ver Tanya ser perseguida e descobrir que Charlie vive com a professora má.

Agora o que decididamente toma a atenção é o ataque inicial das sombras em sua busca pelo príncipe. Primeiro de tudo, porque como Doctor Who já fez em “Listen”, esses mistérios que envolvem sombras e o que pode estar com você mesmo que você não veja são bem assustadores. Segundo, esse ataque sincronizado de algo que não se pode realmente mensurar ou tocar, e pior, de algo contra o qual não há uma maneira exata de se defender foi o suficiente para colar o telespectador no sofá e apavorar-nos junto com April, Tanya e Ram. E, claro, assim como Capaldi fez mais tarde no episódio, não havia melhor momento para uma heroína nada convencional aparecer.

O discurso de Quill, que entendemos depois, quando conhecemos o destino do povo dela e de Charlie, foi simplesmente espetacular. Esse “And I am war itself” muito me lembrou do discurso sobre como o Doctor é “like fire and ice and rage. He’s like the night, and the storm in the heart of the sun. He’s ancient and forever. He burns at the center of time, and he can see the turn of the universe. And… he’s wonderful.”, lá atrás, no 3×09 da série atual.

Enfim, gostei de como toda a sequência aos eventos foi organizada. O estreitamento das relações entre Tanya e Ram, simultâneo à revelação da verdade de Charlie e Quill para April, tudo funcionou muito bem, e juro que não estou dizendo isso só porque “Leave us! We are decorating.” foi uma das melhores quotes do ano, mas porque April finalmente começa a brilhar aqui e Ram começa a parecer menos babaca, conceitos que se estendem no baile, o que é surpreendente, considerando os desenrolares.

A morte brutal de Rachel, jogada na série da maneira mais instantânea e com sutilezas de um gore que não esperava da série funcionaram muito bem, e temi que Ram fosse se juntar a lista de vítimas da noite rapidamente. E Class não parou por aí. O famigerado “Where are all the teachers?!” de April colocou as coisas bem em perspectiva. Esta não é uma série em que os adultos salvam o dia, e gostei que a garota tenha decidido perder um pouco desse controle que ela construiu ao seu redor para tentar ajudar a todos – mesmo que eles não mereçam. E é nesse momento que, quando toda a esperança está perdida e quando eu acho que entendi a coisa toda que Peter Capaldi, digo o Doctor entra em cena, bem a tempo de corrigir o “Well, nothing left to do, then, is there, but to die well.” de Quill.

Fazendo mais uma de suas entradas espetaculares, com seu discurso próprio, um teste de sua nova chave de fenda sônica e até mesmo um coro de “Who?”, o Doctor veio não para resolver a situação, mas para ser o instrumento que firmará a ligação entre esse grupo de desajustados e, é claro, resolver a situação, com direito a piadas sobre a Ikea.

No geral, Class teve um excelente começo. Fomos apresentados ao ritmo que devemos esperar da série e mesmo que os vilões iniciais não tenham sido muito convincentes, os protagonistas, com esse charme meio Buffy, mas com toda a cara de um episódio de Doctor Who conseguiram criar sua própria forma, fazendo e existindo além de toda e qualquer referência que possa tê-los gerado. O Doctor nos lembrou muito bem o que confrontaremos, e nesta série que parece juntar tudo aquilo que vimos em Doctor Who e seus muitos spin-offs com a plasticidade e energia de uma trama movida por teens e adensada por mistério, terror e um humor sexy, acho que nós, assim como o tempo, não seremos capazes de esquecer (nem de deixar de assistir) Class.

 

Homework 1: Com tanta gente desaparecendo e morrendo, honestamente, não sei como Coal Hill continua a funcionar.

Homework 2: Mais uma pessoa agora tem o número do Doctor. Parece que nós ficamos de fora.

Homework 3: As placas de April foram uma sacada genial para aliviar a tensão do ambiente. Humor, intelecto e muita coragem. É bom ficarmos de olho nessa mocinha.

Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

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