Class, ou como o universo Whovian ainda tem muito a oferecer

Imagem: BBC Three/Divulgação

Imagem: BBC Three/Divulgação

Que Doctor Who é um símbolo da cultura inglesa e da cultura pop, isso ninguém pode negar. E como era esperado de uma série com mais de 50 anos de bagagem, houveram alguns spin-offs, todos construídos ao redor de um personagem ou trama considerável. Talvez por isso Class, a mais nova componente do universo Whovian, tenha chegado cravando inquestionavelmente seu lugar nas nossas grades nesta Fall Season, por se apropriar daquilo que já deu certo e transformar isso em algo novo (não tão original para os fãs, mas novo mesmo assim), dinâmico e sexy, tudo isso sem muito esforço.

Criada e dirigida por Patrick Ness, produzida por Steven Moffat e Brian Minchin, Class junta toda a turma da série-mãe e parte da turma que já esteve em outros spin-offs, como Torchwood e The Sarah Jane Adventures. A mais nova traquinagem da BBC Three chega mostrando a que veio, definindo um tom para estas novas aventuras e deixando cada whovian na plateia um pouquinho menos órfão neste ano em que Doctor Who não nos entregou uma nova temporada.

Continua após a publicidade

Mas não me entendam mal! O meu lado fanboy e as similaridades de Class com Doctor Who podem não parar por aqui, mas a série se sustenta muito bem como material original, com independência suficiente para inserir novas raças, reutilizar tramas e brincar com tudo aquilo que já sabemos sobre o tom de sci-fi da série original, tudo isso com influências não do original, mas de outras produções cuja representatividade na cultura pop rivalizam até mesmo com o próprio Doctor.

Tendo a Coal Hill Academy – presente desde o primeiro dia do universo Whovian (era a escola em que Susan, a neta do primeiro Doctor estudava e também foi onde Clara Oswald e Danny Pink começaram seu conto) – como cenário base e juntando o tom mais sombrio já testado em Torchwood e em partes da Era Moffat, Class já chega mostrando ser uma série estrelada por teens, mas com um roteiro cuja qualidade não está restrita a essa faixa de público – e nem deixa a desejar.

Imagem: BBC Three/Divulgação

Imagem: BBC Three/Divulgação

As regras são simples – e não são uma premissa inteiramente nova. Devido ao excesso de energia artrônica, deixada pelas constantes visitas do Doctor a Coal Hill, o lugar se tornou um “farol” para o espaço-tempo, onde as paredes da realidade se afinaram tanto que o lugar agora é cheio de rachaduras pelas quais toda sorte de coisas pode passar. E como já sabemos, o Doctor não pode estar em todos os lugares, o que significa que dois aliens, disfarçados de humanos, acabam combinando esforços com alguns dos mais variados teens, preenchendo todos os tipos de arquétipos (da geek que pulou várias séries até ao capitão do time de futebol) e não decepcionando. Afinal, esta é uma série de young adults; todos os “adultos” propriamente ditos não são vistos e, com exceção do Doctor, são todos vilões, ácidos e cruéis ou raramente tomam parte em qualquer ação.

E o fã mais tradicional já espera o complemento dessa receita. Caberia as crianças da tão deificada raça humana salvarem o dia, com sua inabalável coragem e bravura e com uma ajuda do mad man in a box. E é aqui que Class surpreende e realmente mostra seu potencial. Tomando os últimos membros de uma raça que acabam se conectando a Terra – mesma situação do Doctor em si – e sem nenhuma nobreza (embora teoricamente um deles seja um príncipe), mas sim com todos os problemas, dilemas e defeitos que se podem esperar dos millenials, Class é sim derivativa, mas não tenta negar ou esconder isso; a série abraça a si mesmo e o resultado é impressionante. Como o próprio Moffat disse, a série é uma “Buffy britânica”. Mas o que o Moffat esqueceu de mencionar é que a série caminha com suas próprias pernas e vai bem além de copiar e repetir.

Imagem: Arquivo Pessoal

Imagem: Arquivo Pessoal

O elenco não deixa a desejar, e Katherine Kelly conseguiu condensar aquela professora tão evil que todos já tivemos (e em quem alguns de nós nos transformamos), uma salada de sarcasmo ácido, brilhantismo e impulsos assassinos de uma rebelde que agora se vê controlada por um parasita telepático implantado no seu cérebro, tudo isso com um loiro fatale e no topo de saltos stiletto, sendo exatamente tão impactante quanto parece. Greg Austin também vai muito bem em seu papel de príncipe e último de sua raça; o segredo que ele esconde é bem grande, e mal posso esperar para ver como a série lidará com isso. E até Fady Elsayed está bem, sendo o típico capitão de time que tem uma amizade (linda) com a perfeita geek, que Vivian Oparah está encenando tão bem.

Em quesitos técnicos, a série é uma verdadeira surpresa para quem conheceu os “anos sombrios” de Doctor Who, com os aliens de plástico e Christopher Eccleston. Aqui não há espaço para falhas e os Sombrios – mesmo que falte a eles o “grosso” da motivação no texto – causam impacto do primeiro ao último segundo. Há sim qualidade visual, há sim qualidade musical – a trilha sonora está em perfeita sintonia com as cenas, e não nos faltam riffs de guitarra em momentos de ação ou ecos do som da TARDIS quando as crianças se aproximam dos mistérios –  e o texto supera as melhores expectativas, até dos fãs que não são muito inclinados a séries “derivadas”.

Imagem: Arquivo Pessoal

Imagem: Arquivo Pessoal

Class tem protagonistas fáceis de conhecer e quase impossíveis de esquecer – depois daquele “Now leave us! We are decorating!”, Katherine Kelly não sairá da minha memória por um tempo – usando dos arquétipos teen, apropriando-se dos problemas desses arquétipos sem copiá-los a risca. A série é rápida, é sexy e o que lhe falta em monstros – já que esta não é uma série sobre monstros – é compensado com excitação e suficiente de gore para nos lembrar que este não é só mais um extra de Doctor Who ou uma cópia das Aventuras de Sarah Jane e K-9. Embalada numa trilha sonora impecável, Class cumpre muito bem os requisitos para uma nova série situada na atualidade, apesar do místico/sci-fi que a cerca.

Class chegou para ficar, e nos vendeu seus protagonistas, a começar pela Miss Quill – minha nova favorita da TV, sorry Cersei – e jogando com todo o tecido apropriado para se fazer TV de qualidade,  não só para o público young adult, dando uma verdadeira aula sobre o potencial do entretenimento quando o mesmo decide abraçar seu poder de impacto social. Afinal, entretenimento também é um lugar de representatividade, e Class já marca positivamente ao abraçar um masculino emocional, o que não é uma fraqueza, e um feminino com um brilhantismo, mas que não foge a luta, que de frágil não tem nada, mas que não deixa de ser feminina – o que não é e nunca será um defeito – e por combinar os desajustados sem que o fato deles serem desajustados seja mais do que uma formalidade textual, e não a razão em volta do que a trama é construída.

A primeira temporada contará com oito episódios, sendo “For Tonight We Might Die” e “The Coach with the Dragon Tattoo” a premiere dupla da série, onde conhecemos o nosso bando, temos uma aparição do Capaldi, enfrentamos criaturas dignas de pesadelos e navegamos por referências e dilemas que atendem e agradam a todos os públicos, tudo isso enquanto o texto tenta (e consegue) nos situar na dinâmica da série. Class promete entregar um humor sexy num sci-fi de qualidade liderado por um rag-tag bunch de adolescentes e uma anti-heroína feita de sarcasmo e comportamento duvidoso… tudo isso já é mais do que garantia de uma temporada boa, e espero ver vocês nas reviews. See ya!

Tags Class
Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

1 comment

Add yours

Post a new comment