O Senhor das Moscas: legado pós-guerra para a cultura pop

lord flies

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Em um dos volumes da saga “A Torre Negra”, mais especificamente no terceiro, Stephen King cita “O Senhor das Moscas” como uma das maiores obras do séc. XX. Na verdade, o livro é citado dessa forma por uma professora ao indicar a leitura na sala de aula. Não importa se esta é a opinião do autor ou se a narrativa só precisava de um clássico estudado nas escolas para fins de contextualização. A realidade é que, assim como títulos de George Orwell e Lewis Carroll, a obra premiada de William Golding é dessas publicações que permanecem relevantes com o passar das décadas e definem muito do que vem pela frente.

Lançado em 1954, “O Senhor das Moscas” fala sobre um grupo de garotos que vão parar em uma ilha ao serem afastados da guerra. Ao que tudo indica, o avião cai matando todos os adultos a bordo, incluindo o piloto, tendo apenas as crianças como sobreviventes. Como alegoria, o enredo está aberto a interpretações, embora seja fácil perceber o foco em até onde a natureza humana pode chegar quando é forçada a lutar pela sobrevivência no isolamento. Golding trata da dualidade inerente ao homem de várias formas ao longo das páginas, como as relações que se desenvolvem entre a ordem e o caos, as consequências do medo e a necessidade de bravura.

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Adaptado duas vezes para o cinema, a primeira, do diretor Peter Brook (em 1963), permanece como a versão mais fiel. A influência da obra não parou por aí, além de ganhar nova vida cinematográfica em 1990, o livro serviu de inspiração direta até para artistas do mundo da música. A canção “Lord of the Flies”, do Iron Maiden, dá sua visão da história como se o compositor fosse personagem. Já o Nine Inch Nails tem um video clipe todo inspirado na narrativa. Esse despertar assombroso do homem também continua sendo abordado por meio da literatura juvenil. Os exemplos mais recentes vão de séries como “Maze Runner – Correr ou Morrer”, de James Dashner, passando por “Gone”, de Michael Grant, até “Sob a Redoma”, de ninguém menos que – olha ele aqui de novo – Stephen  King.

o senhor das moscasÓbvio que na TV não teria como ser diferente, embora “O Senhor das Moscas” ainda não tenha uma adaptação televisiva de fato é possível identificar alguns shows que aproveitaram livremente o debate feito por William Golding. Além de Under the Dome, outro sucesso atual que merece ser lembrado é The Walking Dead. Tanto a adaptação da obra de King como o hit do canal AMC partem do isolamento como desencadeador do lado mais obscuro do homem.

Contudo, a série que abordou a temática de Lord of Flies de forma mais direta é Lost, um dos programas mais icônicos dos últimos anos. A premissa é bem similar; avião cai em uma ilha e sobreviventes elegem seu líder, criam sua própria ordem moral e de sobrevivência. Há também a divisão de grupos, que acontece de forma inevitável, e a esperança pelo resgate – simbolizada no livro pela fogueira.

Entre várias similaridades, estão a alegoria da batalha entre o bem e o mal, que em “O Senhor das Moscas” é tão bem sugerida em vários momentos, pode ser percebida de forma mais óbvia em Lost. Teorias também trazem essa comparação, como a escolha da ilha como um Jardim do Éden, onde o primeiro homem e a primeira mulher foram corrompidos pelo primeiro sinal de maldade – o grande mote da narrativa de William Golding.

Com tanto material inspirado, claro que a obra também foi satirizada. Na nona temporada, Os Simpsons fez um episódio em que alunos da Escola Primária de Springfield vão parar em uma ilha deserta após um acidente de ônibus. O episódio intitulado “O ônibus” é o décimo quarto daquele ano e traz alguns dos motes principais do livro. Entre eles, a semelhança de Bart, Lisa e Milhouse com os personagens principais de “Moscas”. Milhouse, para citar um exemplo, é como Simon: sensível e questionador. Constantemente ridicularizado, traz um pouco a representação da fé, além de ser o elo fraco do grupo.

É interessante notar como os temas explorados em “O Senhor das Moscas” se tornaram ainda mais fortes com as possibilidades narrativas que conhecemos com o tempo. Embora não tenha sido um best-seller em sua época, ganhou o Nobel da Literatura em 1983, se tornando cultuado desde então. Cheio de significado, a fábula vai mais fundo em suas 217 páginas que qualquer série televisiva consegue fazer em anos. Não é de se espantar tamanha influência. Seja em qualquer tipo de arte, a inspiração mais forte vem sempre do que é real e, no fundo, mexe com o ser humano. Vale ler, reler, discutir e se colocar no lugar dos personagens. A reflexão é essencial.

Equipe Mix

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Perfil criado para realizar postagens produzidas pela equipe do Mix de Séries.

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