Crisis in Six Scenes e a migração para a TV

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Woody Allen está na TV. Quem diria? Um dos maiores diretores e roteiristas da história do cinema americano lançou sua primeira série. Tão prolífico (ele tem 80 e faz um filme por ano), não é de se espantar que ele tenha experimentado uma nova forma de se contar uma história. Ver nomes do cinema tentando a sorte na TV é sempre interessante, e a tendência é que o número de cineastas migrando para a tela pequena seja cada vez maior. Às vezes a empreitada dá certo, outras não. Alfonso Cuarón é um dos mais interessantes diretores da atualidade, mas sua incursão no universo das séries não foi bacana e Believe foi um pequeno fiasco. Rupert Wyatt surpreendeu muita gente com sua estreia em Planeta dos Macacos: A Origem, depois dirigiu o piloto de Turn e recentemente surpreendeu novamente com o excelente capítulo inicial de The Exorcist. Neil Marshall, que fez ótimo exemplares no cinema, tem desenvolvido uma bela carreira na TV, tendo dirigido ótimos episódios de Game of Thrones. Alejandro Iñárritu, vencedor do Oscar nos últimos dois anos, produz, escreve e dirige uma nova série que deve chegar em 2017.

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E a lista segue com vários gigantes do cinema emprestando seus talentos à TV, novo seara da liberdade artística. Woody Allen é apenas mais um, e apesar de sua série ser boa, uma sensação fica clara: nem todos funcionam na televisão. Não em entenda mal: sou grande fã de Allen e Crisis in Six Scenes é realmente interessante, mas não funciona como série. O roteirista, embora talentosíssimo na criação de tramas, personagens e diálogos, não entende o formato seriado. Prova disso é o ritmo e a estrutura adotada para o programa. É visível o despreparo de Allen para construir uma história legitimamente interessante que suporte vários capítulos. Neste caso nem são tantos episódios, já que o show se resume a seis partes de vinte minutos.

O fato é que Allen, inconscientemente ou sem se importar, fez uma série como se fosse um filme. Está aí o primeiro e mais comum erro. Assistindo o piloto, por exemplo, é possível perceber que o texto é próprio para um longa-metragem. A apresentação dos personagens, as ideias, tudo parece encaixado para a estrutura de um filme de Woody Allen como outro qualquer. O problema é que uma série, como todos sabem, é dividida em várias partes e cada uma deve ter, em si, um início, meio e fim, funcionando isoladamente e em conjunto. Por mais que seja produzida e lançada por uma plataforma de streaming, que permite e incentiva o público a assistir as produções sem intervalos, Crisis carece de planejamento. O próprio Allen deu a entender em entrevistas que ele simplesmente pegou uma ideia de um filme, aumentou e editou para que se transformasse em série. E é isso mesmo: Crisis in Six Scenes é basicamente um filme grosseiramente dividido.

Não entender a linguagem da mídia trabalhada é o grande problema de diversos profissionais. Um roteirista de TV que vai para o cinema deve compreender a enorme diferença entre as plataformas. O mesmo ocorre no caminho inverso. Isso vale tanto para o roteiro quanto para a abordagem visual: filmar TV é completamente diferente de trabalhar com cinema. Veja as produções brasileiras, por exemplo: Kleber Mendonça Filho, cineasta, filma um longa-metragem como se deve, com uma abordagem visual cinematográfica. Jayme Monjardim, por outro lado, é uma cria da TV e ele faz seus filmes com a mesma técnica que dedica às novelas e séries. Seus filmes parecem novelas exibidas em tela grande.

Vale citar, também, Stephen King. Mestre da literatura, o escritor já tentou a sorte como roteirista de cinema e TV mais de uma vez, e a maioria não funcionou. Ainda que Rose Red e A Tempestade do Séculos sejam ótimas minisséries, King escreveu seus roteiros como se estes fossem romances. Todo o ritmo e desenvolvimento é parecido com aqueles empregados em seus livros. As produções são boas, mas decepcionam porque o público não tem o prazer de ver o que um gênio como King pode fazer no formato.

No fim, não importa a sua genialidade; ou você estuda o formato e tenta se adaptar ou deve ficar no lugar que domina. Crisis in Six Scenes não é ruim, mas poderia ser muito melhor se Allen tivesse se dedicado mais. A série é engraçada e tem uma história bacana; além disso, ver Woody como ator sempre é ótimo. De todo modo, é um projeto menor do roteirista e diretor, uma investida que empalidece principalmente se comparada a outra produção de Allen lançada em 2016, o ótimo Café Society.

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