Crítica: 9-1-1: Lone Star estreia com dois episódios apresentáveis, mas inconsistentes

Personagens dominam narrativa de 911: Lone Star sobre traumas e humanidade 

911 Lone Star chegou a TV e desperta um sentimento de repetição que toma conta da indústria de entretenimento há um bom tempo.

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Hollywood vive uma era de repetições, e isso não é novidade alguma. No cinema, na televisão e nos serviços de streaming, existe um modelo capitalista categórico: se tal produto tem audiência, gera debates, repercute entre o público, ele pode ser destrinchado, dividir-se em dois, três, quatro. Às vezes, inclusive, ele é revivido. É nessa onda, no entanto, que dois aspectos importantes, na maioria das vezes, são deixados de lado: a qualidade e a substância. 

Isso é uma jogada segura. Se existe um grupo fiel aquilo que já foi criado, por que não continuar o alimentando com as mesmas histórias, com os mesmos assuntos, com as mesmas fórmulas? É aí, infelizmente, que nos deparamos com um modelo de consumo conhecido como enlatado. Produtos fechados, que não se arriscam e preferem se manter na zona de conforto, onde, certamente, alguém os consumirá. Caso contrário, o cancelamento está logo ali. 

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911: Lone Star nasceu exatamente nesta era. Momento em que os procedurais voltaram com força total e que os spin-offs – conhecidos como séries derivadas – são uma aposta certeira. Não que tenha razão para existir, mas será preciso culhões para que continue existindo. 

Criada por Ryan Murphy, Brad Falchuck e Tim Minear, os mesmos por trás da produção originária (9-1-1), Lone Star se ambienta longe de onde os bombeiros liderados por Bobby Nash (Peter Krause) se encontram. Agora, as emergências são de Austin, no Texas. 

Conflitos, emergências e diversidade 

Com a morte de vários de seus colegas depois do ataque terrorista às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, o capitão Owen Strand (Rob Lowe) teve que reconstruir toda a sua estação de bombeiros em Nova York, o que o transformou em uma referência de liderança. Anos depois, sob circunstâncias diferentes, um acidente em Austin, no Texas, mata quase todos os bombeiros da cidade. Não por coincidência, as semelhanças nessas histórias é o que constrói a premissa do seriado. Desta forma Owen, junto ao seu filho também bombeiro, T.K. Strand (Ronen Rubinstein),  é convidado a trabalhar para repetir o seu feito notório em um lugar completamente diferente ao que estava acostumado. 

Bem como em todas as narrativas ficcionais, o que move a história é o conflito. Por isso, o percurso de Owen é acompanhado de poréns. O maior deles, talvez, seja o fato de que ele acaba de receber um diagnóstico de câncer no pulmão, fato que ele deve esconder do filho durante um bom tempo da história. 

Após receber o chamado para reconstruir a estação de bombeiros em Austin, o capitão também precisa cumprir um propósito estabelecido pelo ministério público: a sua nova equipe deve ser diversa. Mulheres, negros, pessoas LGBT serão incluídas. De novo, não por coincidência, e sim por uma aposta inteligente do roteiro, o filho de Owen é gay. 

Ao chegar na cidade e realizar um divertido processo seletivo, as carinhas que vão completar o time aparecem. Com isso, entram no jogo Mateo Chavez (Julian Works), um homem com transtorno de aprendizagem; Marjan Marwani (Natacha Karam), uma mulher muçulmana que já levou várias advertências em seus trabalhos prévios; Paul Strickland (Brian Michael Smith), um homem negro e trans que tem muito a acrescentar com sua trajetória de vida; e Judd Ryder (Jim Parrack), o único sobrevivente do acidente que matou seus colegas bombeiros em Austin – o que o coloca em um posto desafiador de profissional com transtorno pós-traumático. 

A partir daí, as peças desse grande jogo de profissionais da emergência estão quase prontas. O que completa é a capitã dos paramédicos da cidade, Michelle Blake (Liv Tyler), a que muito provavelmente será o par romântico de Owen, e o policial Carlos Reyes (Rafael Silva), quem muito rapidamente já começa a se envolver emocionalmente com TK. 

Humanização dos personagens é o que dá gás à narrativa de 911: Lone Star

O discurso de Lone Star é bastante direto. Cada personagem ali carrega um trauma, alguns relacionados a um momento muito específico de suas vidas, como os dilemas do protagonista, e outros ligados à própria existência daquele indivíduo, como é o caso de Paul Strickland. E é justamente aí em que a série faz o seu maior acerto, porque 9-1-1 é, acima de tudo, uma narrativa sobre humanidade. 

Se na produção originária o texto já rompia com os aspectos tradicionais da televisão americana, aquele em que um elenco branco hétero cis dominava a tela quase que completamente, aqui tudo é elevado. A composição da história é assentada por uma visão muito dinâmica e inclusiva que seus roteiristas sabem muito bem como defender, algo que não é novidade se tratando do Ryan Murphy. 

Apesar dessa visão super importante impressa logo de cara, a série esbarra, inevitavelmente, no que já era esperado, pois, ainda assim, não consegue fornecer motivos o suficiente para sua existência, haja vista que não consegue reproduzir o carisma da produção que a originou. 9-1-1 não foi pioneira. Chicago Fire está no ar desde 2012. O que o seriado fez foi mostrar outra perspectiva. Era sobre o que a nomeava: o serviço de emergência dos Estados Unidos.

Agora, sem essa novidade, o que poderá ser feito para que 911: Lone Star não seja esquecível? Se eu pudesse dar um palpite, diria que a maior força da série está em seus personagens. Por isso, um investimento robusto em seus percursos é o que manterá de pé a narrativa. 

Qual é a sua emergência?

Ainda que não seja tão carismática e não tenha um elenco tão chamativo quanto 9-1-1, Lone Star chega com dois episódios ousados e provocativos. Mas, se os dilemas pessoais de seus personagens sobrepujam tanto as questões processuais do seriado, que seus autores saibam investir no que parece ser o seu trunfo. E se é pra ser diversa, que isso não fique apenas no discurso. Que se transforme em métrica para um drama muito mais promissor, formidável e envolvente. 

Notas

1: ainda que seja uma música forte, colocar Old Town Road ao final do primeiro episódio foi uma decisão brega e estereotipada. 

2: ao que tudo indica, a narrativa sobre a irmã de Michelle será o ponto principal da temporada. Que seja surpreendente!

3: a referência à Caixa de Pássaros no segundo episódio foi uma genialidade à parte. 

4: os romances, até então, são muito promissores. 

5: as emergências dos episódios precisam melhorar muito. 

 

Nota dos Episódios7
Crítica dos dois primeiros episódios da série 9-1-1: Lone Star, criada por Ryan Murphy, Brad Falchuck e Tim Minear, exibida pelo canal Fox.
7
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Lucas Wilker

Estudante de Jornalismo e grande admirador do Ryan Murphy e suas fábulas. Apaixonado pelo universo audiovisual desde que os X-Men o convidaram para adentrar em suas aventuras. Chora facinho com This Is Us e é extremamente afeiçoado aos personagens das séries, dos filmes e dos livros que consome. Eterno aprendiz da escrita.

2 comments

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  1. Crítica: 1x05 de 9-1-1: Lone Star prova que a série tem um bom discurso - Mix de Séries 17 fevereiro, 2020 at 17:00 Responder

    […] somente uma aposta mercadológica que tentaria beber da fonte do programa que a originou. Já no episódio piloto, as ideias foram postas na mesa e um discurso afiado sobre minorias encontrou o seu lugar. Afinal, […]

  2. Crítica: 9-1-1: Lone Star terminou sua 1ª temporada de forma emocionante - Mix de Séries 18 março, 2020 at 11:15 Responder

    […] minha primeira review deste seriado, mencionei o quanto os procedurais são utilizados como válvulas de um sistema que […]

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