Crítica: After Life, nova série da Netflix, é simples e encantadora na medida certa

After Life é um tesouro raro no catálogo da Netflix!

After Life estreou sem muitos alardes na Netflix. Sendo um dos lançamentos de março de 2019, a série não ganhou tanto investimento em sua divulgação. E isso é uma pena! Sem dúvidas, a série já é uma das melhores tramas da plataforma, conseguindo cativar o espectador por coisas simples.

Produzida, escrita, dirigida e estrelada por Ricky Gervais, After Life conta a história de um homem lidando com o luto. Ele perdeu sua esposa para o câncer, há pouco mais de um ano, e ainda não conseguiu “seguir em frente”. Ele fica preso a vídeos gravados por ela, além de ainda sentir falta de sua presença constantemente. Dessa forma, ele chegou a um estágio em que nada na vida lhe importa a ponto de querer se cuidar.

É incrível como Gervais conseguiu produzir um texto extremamente sutil, simples, mas que ao mesmo tempo fala tanto. É o sentido da vida, que se faz refletido na forma como essa trama é conduzida.

Depressão, suicídio e vontade de viver…

Esses contrapontos conduzem os dilemas de Tony, um jornalista que se vê completamente desacreditado da vida após a morte de sua esposa.

Sua vontade de viver é zero. E de ser gentil com as pessoas, menos ainda. Ele se vê cético no esforço das pessoas ao seu redor para tentar lhe animar. Ele não vê qualquer sentido em se ver alegre, uma vez que a grande alegria de sua vida se foi.

Entretanto, After Life apresenta pequenas reflexões que tocam diretamente na vida do espectador. Será que as vezes não damos valor para as pequenas coisas? Será que estamos sempre focando no pior da situação? Esse seria o maior causador dos nossos reais problemas?

O mais incrível disso tudo é que ele utiliza esses questionamentos sérios e importantes para serem pano de fundo de um texto engraçado na medida certa. Gervais é um velho conhecido do público, principalmente por ter criado The Office e Derek, trabalhos que caracterizam sua linguagem irreverente e sem pudores. Entretanto, quanto mais ele é provocativo, mais ele ressalta suas qualidades em frente da câmera. O resultado, assim, é deslumbrante – ao mesmo tempo, simplório.

Mais nada para viver

Em apenas seis episódios, After Life consegue contar uma história com início, meio e fim. Algo que muitas séries, com várias temporadas, não consegue.

De cara, percebemos que a real intenção do texto da série é destacar como que uma pessoa pode chegar a um fundo do poço, sem mesmo se importar com mais nada. Em determinado momento, Tony xinga uma criança em uma escola primária, briga com um cara que quase come suas batatas, reage a dois assaltos em qualquer excitação, e chega a recusar doações para ONGs. Ele realmente acha que não tem mais nada a perder.

E não é como se ele não tivesse coragem para se matar. Ele quase chega a fazer isso, mas é quando ele vê a cadela que compartilhou com sua esposa lhe olhando, que ele começa a enxergar a situação de forma deferente. Tony se importa com a cadela e com seu pai, mas ele menos se importa consigo mesmo. Portanto, ele decide viver, mas sem se preocupar. É como que se, aos poucos, ele se matasse.

Assim, ele começa a descontar nas pessoas ao seu redor. O carteiro que lê sua correspondência, a mulher que ele topa ter um encontro e as pessoas que trabalham no seu escritório. Aliás, a redação deste jornal é um prato cheio para as piadas de mal gosto realizadas por Tony.

Ambições que surgem no caminho…

Um pouco da falta de “credibilidade” do jornal em que Tony trabalha é a ligação ideal para um teste de “moralidade” na série. No começo, por exemplo, ele não se incomoda em fazer as matérias bizarras que são mostradas no episódios. Porém, quando Tony fica chateado porque um sujeito escolheu chamar o jornal para falar de uma mancha de água que se parece com Kenneth Branagh, ao invés de sua esposa que foi atacada por uma gangue de motociclistas, ele se revolta. Quando chega ao ato afinal, começa a enxergar as coisas por uma ótica diferente, principalmente com a ajuda de algumas pessoas que estão ao seu redor.

O drogado e a prostituta com quem faz amizade tornam-se pessoas essenciais na recuperação de Tony. Assim como seu ex-cunhado e chefe, além das pessoas com quem ele sacaneia no trabalho. Mas uma pessoa que chama atenção é a mulher com quem ele conversa sempre quando vai ao cemitério visitar a esposa. Ela também realiza a mesma tarefa e, ali, naquele banco, eles discutem algumas reflexões essenciais.

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Idas ao cemitério proporcionam os melhores momentos de After Life. Imagem: Netflix/Divulgação

Em determinado ponto, eles debatem sobre arrependimentos da vida. Ou de momentos ruins que queremos esquecer. É quando destaca-se que não devemos pensar em mudar nossos erros. Afinal, é graças a eles – e aos momentos ruins – que vivemos todos os nossos acertos e momentos bons da vida. Não podemos ficar amargurados por querer mudar que tenha sido ruim nas nossas vidas, uma vez que isso poderia implicar em mudar os bons. Essa é a grande lição da trama.

Significado da vida

Ao final, Tony volta a enxergar as coisas boas da vida em pequenos momentos. Ele se empenha a querer ajudar a jornalista novata que entra na redação. Ele valoriza os momentos que passou com o pai e até se vê disposto a convidar a enfermeira da instituição que seu pai está internado para sair.

Algo lhe é dito, que soa como um estalo. Tudo o que temos é um ao outro. Temos que nos ajudar mutuamente a lutar até morrermos e depois terminamos. Não adianta sentir pena de si mesmo e deixar todos os outros infelizes também.”. Assim, Tony completa a transição de luto, sendo este o grande foco da série.

After Life é uma produção que se torna um tesouro raro no catálogo da Netflix, principalmente por em apenas seis episódios conseguir conquistar o coração do espectador de uma forma belíssima. Ao final, você mesmo faz uma reflexão da sua vida e começa a se policiar para valorizar as pequenas proezas que a vida lhe proporciona. Um belíssimo trabalho de Gervais, que vale a pena conferir.

 

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Roteiro9
Atuação9
Trilha Sonora8
Crítica da primeira temporada de After Life.
8.7

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Anderson Narciso

Anderson Narciso

Mestre em História, apaixonado por mídias, é o editor responsável e idealizador do Mix de Séries. Eterno órfão de Friends, One Tree Hill e ER, acompanha séries desde que se entende por gente. No Mix é editor de colunas e de notícias, escreve a coluna 5 Razões e resenha a série Gotham.