Crítica, Bird Box: Misturando horror e aventura, filme da Netflix surpreende

Imagem: Netflix/Divulgação

“Não tire a venda!”

Entre as inclusões para o fim do ano, a Netflix trouxe o filme Bird Box, baseado em livro homônimo. Além de possuir uma história intrigante, o longa conta com ótimo elenco, liderado por Sandra Bullock.

A trama é rapidamente apresentada no primeiro ato. Uma (ou várias?) entidade aparece entre nós, levando quem a veja à loucura, ao ponto de cometer o suicídio. O clima de caos apocalíptico logo é sucedido por um típico enredo de sobrevivência em cenário pós-crise. E a regra é clara: não pode olhar para a entidade.

A onda do horror

Dito isso, vamos retirar o elefante branco da sala: Bird Box possui sim muitas semelhanças com A Quiet Place (2018), porém, as diferenças entre as duas produções são importantes. Ambas bebem de uma fonte que tem sido apropriada por Hollywood bastante ultimamente: o horror cósmico.

De modo geral, essa vertente do horror lida com a ideia de que existem coisas desconhecidas muito maiores do que a humanidade e que, infelizmente, não estão em missão de paz. A ideia de que o desconhecido, ou melhor, o incompreensível à mente humana, é mortal e maligno gera um senso de impotência e angústia fortíssimo.

Esse gênero é bem representado por H. P. Lovecraft, e ultimamente muitos filmes inspirados em seus textos e conceitos têm aparecido por aí. Por exemplo, no começo do ano a Netflix lançou Aniquilação, que possui claras referências ao conto “A cor vinda do espaço”.

Entretanto, Bird Box A Quiet Place não se enquadram no gênero no horror (ou mesmo do terror). De forma contrária, utilizam de elementos dele para subvertê-lo, criando histórias de aventura com enredo familiar. Em Bird Box, vemos isso de forma clara no arco de Malorie (Sandra Bullock). De início, a personagem tem dificuldade de se conectar ao conceito de família, porém, ao longo do filme, desenvolve os laços.

Narrativas paralelas dão bom ritmo à história

O recurso de storytelling do filme consiste em apresentar dois tempos distintos. Primeiramente, vemos o início dos problemas envolvendo a Entidade, com a implantação de um verdadeiro caos logo seguido por um cenário de sobrevivência.

Em paralelo, temos a trama de Malorie levando uma menina e um menino para uma viagem de barco por um longo rio, em busca de um refúgio. Nesse núcleo, a personagem já apresenta maiores conhecimentos para sobreviver à entidade.

Além disso, os núcleos narrativos também possuem funções distintas. O primeiro tem caráter mais explicativo, colocando as regras da história e as consequências para quem quebra-las. O segundo, por sua vez, é mais ativo, adotando um tom mais de aventura pela sobrevivência.

Elenco de apoio funciona bem

Além de Sandra Bullock, o elenco de Bird Box conta com nomes fortes como John Malkovich e Sarah Paulson. Na lógica de explicação da situação, embora possam não ter tanto destaque, esses coadjuvantes têm papel central para não tornar a história expositiva demais.

A maior parte do elenco fica confinada na casa de Greg (BD Wong), e encarnam em si diversos arquétipos de histórias desse tipo. Um bom paralelo pode ser feito com Ensaio Sobre a Cegueira. Por serem arquétipos, os nomes dos personagens pouco importam; e sim, suas personalidades.

Apesar disso, há problemas na composição do elenco de apoio. Alguns personagens são completamente descartáveis, e só estão lá para que vejamos a capacidade da entidade. O problema é que já sabemos disso, e as subtramas deles não agregam em nada.

Novamente, Lil Rel Howery (Corra!) interpreta um alívio cômico, mas, desta vez, não funciona bem. Além de não aliviar tanto, ele possui uma função expositiva que não cola. O segredo para esse tipo de trama funcionar é exatamente o desconhecimento das razões e causas por trás de tudo.

John Malkovich, sem dúvida, é o grande coadjuvante da história. Rapidamente, conseguimos odiar seu personagem, e isso cria uma conexão afetiva surpreendente. A interação do ator com Sandra Bullock também rende momentos de atuações em bom nível.

Por que horror e aventura?

Apesar de toda a construção de mundo a partir de elementos do horror, Bird Box não se qualifica bem no gênero, ou mesmo no terror. Isso pois os aspectos de horror trazidos para o filme são subvertidos ao longo da trama, com metáforas e reflexões sobre o papel da família.

A trama individual de Malorie ganha foco na metade final do filme, e ela não é de horror. O tom de aventura de sobrevivência agrega o valor à metáfora familiar, pois permite que acreditemos na criação dos laços.

Personagem de Sandra Bullock luta pela sobrevivência contra entidade sobrenatural. Imagem: Netflix/Divulgação.

Para isso, a atuação das crianças também é fundamental. Mesmo discretas, elas transmitem bem o quão difícil deve ser atravessar um rio por várias horas com duas crianças pequenas, tendo que controla-las para não tirar a %*%&* da venda!

Isso não significa que não há angústia e medo na experiência do filme. Pelo contrário, essas sensações são sutis, e se relacionam mais às nossas conexões com as personagens do que à narrativa em si.

Com boas atuações e uma história envolvente, Bird Box é uma grata surpresa de fim de ano da Netflix. É revigorante ver as leituras diversas feitas nos gêneros do horror e do terror nos últimos anos, e o filme vem se juntar a uma boa leva de companheiros.

Apesar de alguns furos de roteiro, Bird Box entrega uma experiência envolvente, angustiante e divertida (sim, isso mesmo). Vale a pena ser conferido.

Leia também: Teoria que depressão ao filme Bird Box está fazendo sucesso na internet

Luiz Alves

Luiz Alves

Historiador, fã de histórias em quadrinhos e jogador de RPG de longa data. Tem interesse por séries de suspense, como Hannibal, The Killing, Luther etc., de fantasia, como Penny Dreadful; e de todas as séries baseadas em HQs.

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