Crítica: Cara x Cara, série da Netflix, ressalta charme de Paul Rudd em texto envolvente

Paul Rudd dá o seu melhor em Cara x Cara

Cara x Cara (Living With Yourself), nova série da Netflix, responde a um questionamento que há tempos nos fazemos: porque nunca é demais assistir Paul Rudd?

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O ator Hollywoodiano, que ascendeu em uma carreira um tanto tímida durante a década de 1990, consegue constantemente se reinventar em notas suaves. É algo inexplicável. Ao mesmo tempo que temos a impressão de que ele sempre interpreta o mesmo tipo de papel, ele consegue entregar versatilidade somado à empatia, construindo assim diferenças notáveis. A trama da Netflix torna-se o ápice desta lógica, quando o ator dá vida a dois personagens que de fato são a mesma pessoa – mas que entregam personalidades e comportamentos extremamente distintos.

Logo, Cara x Cara não precisa ficar sendo lembrada como “a série do ator de Homem Formiga”, mas, sim, mais um trabalho certeiro na carreira de Rudd.

Um texto reflexivo

Antes de qualquer coisa, não ache que você vai se deparar com uma comédia pastelão. Cara x Cara definitivamente é um dos trabalhos mais reflexivos da carreira de Paul Rudd. E apesar da série jogar com o humor em muitos pontos, é nos momentos dramáticos que ela se destaca. O texto aqui trabalha, constantemente, com os questionamentos que fazemos no dia a dia sobre os rumos de nossas vidas. Ao mesmo tempo, dá destaque para o constante sentimento de fracasso que assola a mente de muitas pessoas. O legal é que, em determinado ponto,, o texto faz aquele espectador que se sente fracassado questionar a si próprio, “espera aí, será mesmo que eu sou?”.

A premissa da série, por si só, é desconcertante, mas ao mesmo tempo interessante. Rudd interpreta Miles Elliot, publicitário extremamente descontente com sua vida. Ele é frustrado no trabalho e está passando por uma crise de meia idade que afeta diretamente o seu relacionamento com Kate (Aisling Bea). Após ir a um spa que promete um milagroso rejuvenescimento, ele descobre que seu DNA foi modificado, e tudo a partir dali começa realmente a dar errado. Isso porque ele foi clonado, e há uma versão sua mais nova e melhorada andando por aí – a qual podemos, por conveniência, chamá-lo de Miles II. Logo, nos vemos acompanhando dois homens brigando por uma mesma vida. Pode parecer um episódio de Black Mirror, mas não é!

Com este enredo, o criador Timothy Greenberg segue um caminho interessante, em que se questiona sobre identidade e as qualidades de cada um dos indivíduos. Afinal, o que nos distingue do próximo? Além disso, à medida que Miles II supera o original em todas as áreas de sua vida, vemos um reflexo de nossa própria inércia e de nossa capacidade ridícula de auto-sabotagem. Sim, nós fazemos isso o tempo todo, assim como o protagonista de Rudd faz na série.

Paul Rudd dá vida a um homem frustrado e sua inusitada cópia. Imagem: Netflix/Divulgação

Silhuetas de comédia em Cara x Cara

O texto passa a ter um tom engraçado quando vemos as diferenças de personalidades entre Miles II e o original. E embora haja interesse em mostrar isso, quando a esposa do rapaz se depara com o homem que casou no clone, a série quer destacar que apenas o original consegue ser tudo aquilo que Kate quis. Mas o caminho é longo. Aos poucos, através de flashbacks, vamos entendendo o que aconteceu com Milles. Desde uma mudança para o subúrbio, um aborto sofrido por sua esposa, e a necessidade em sua cabeça de precisar construir uma família com filhos, a vida de Milles resume-se em uma constante cobrança da sociedade. Seja pessoal ou profissional. Isso acabou levando-o à frustração, e fazendo com que ele se tornasse uma pessoa improdutiva e infeliz.

Esse cinismo, presente em quase todas as falas dos personagens, servem de apoio para as cenas de drama, mas também as de humor. Seja com os recepcionistas do spa, ou até mesmo com as caretas que Rudd faz em muitas cenas. Também ganha destaque quando o mesmo cinismo é utilizado para criticar os meios profissionais de classe média, algo que Boneca Russa – também da Netflix – soube fazer muito bem.

Toda essa atmosfera acaba proporcionando a Rudd um espaço em que ele consegue explorar o texto, não soar brega e, ao mesmo tempo, mostrar toda sua capacidade como ator. Sem dúvidas, é um show a parte.

Cara x Cara valhe a maratona

Com episódios de 25 minutos, os oito capítulos constroem uma boa trajetória para os personagens que, com a ajuda de Rudd, tornam-se a cereja do bolo. Em muitos momentos, as brigas e mudanças de personalidades vistas em tela enchem os olhos, até dos que sempre fizeram críticas ao ator (existem mesmo essas pessoas?). E o mais legal é que a série tem uma boa equipe de montagem, colocando o original e a cópia para dividirem cenas bem feitas, e não aquelas em que você fica vendo a parte de trás de um dublê.

A trama dá uma guinada nos últimos episódios e entrega uma consolidada história para os amantes de boas séries. Claro, ela não é nada demais – o que soa normal ultimamente, para as inúmeras séries que a Netflix lança semanalmente. Mas, ao mesmo tempo, Cara x Cara consegue cravar um espaço diferencial nas produções de séries de TV, fugindo um pouco do óbvio e entregando algo original.

Todos os oito episódios de Cara x Cara estão disponíveis na Netflix.

 

Além disso, completo. Todavia, palavras. No entanto, necessárias. Bem como, verdes. Todavia, brancas. No entanto, necessárias. Bem como, verdes. Todavia, brancas.

 

Nota da Temporada9
Crítica da série Cara x Cara (Living With Yourself), estrelada por Paul Rudd na Netflix. Série estreou na plataforma de streaming no dia 18 de outubro.
9
Anderson Narciso

Anderson Narciso

Mestre em História, apaixonado por mídias, é o editor responsável e idealizador do Mix de Séries. Eterno órfão de Friends, One Tree Hill e ER, acompanha séries desde que se entende por gente. No Mix é editor de colunas e de notícias, escreve a coluna 5 Razões e resenha a série Gotham.

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