Crítica: Carnival Row, do Amazon Prime, é uma tentativa bem-intencionada de conquistar fãs de fantasia

Séries tipo Fate A Saga Winx
Imagem: Divulgação/Amazon Prime

Bem-vindos a um novo mundo mágico!

Em um mundo pós-Game of Thrones, sente-se que as vozes dos fãs de herança tolkiana foram ouvidas. A fantasia, antes parte do gosto de grupos mais excluídos, como os antigos nerds, se tornou mainstream – algo do povão, no bom português. Portanto, consegue atrair público além do próprio nicho, como o mundo de Westeros por anos mostrou nas telas do HBO. Surfando nessa onda, diversas séries de altas e soft fantasias foram lançadas. Dentre elas, a mais recente, Carnival Row.

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Ela é a nova queridinha da Amazon Prime e convida o público a conhecer um mundo fantástico. Nada novo até aí. O elemento que diferencia Row de outras séries do gênero é sua ambientação. A série se passa em uma versão do nosso mundo, com uma Londres de estilo vitoriano. Entretanto, ela nos mostra a convivência de seres mágicos com os homens. Depois de uma guerra, acompanhamos um mundo de repressão e segregação. Dessa forma, o principal elemento em debate é o convívio com a desigualdade, na forma de uma sociedade em que homens reprimem faunos, fadas e outras diferentes espécies. Nesse contexto, conhecemos o detetive interpretado pelo protagonista, Orlando Bloom. No entanto, também descobrimos que ele tem uma história mal-acabada com a fada de Cara Delevingne.

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A série tem boa história?

Assim como a jornada de Ned Stark em Game of Thrones até Porto Real, onde serviria seu rei e grande amigo, Robert, toda série precisa de um fio condutor. No universo das telinhas, isso é uma situação na qual a série pode apresentar seus personagens e universo. Assim, o público pode conhecer o novo terreno onde está pisando e acompanhar um pequeno arco inicial. Nesse ponto, Carnival Row já marca um gol contra. Na tentativa de abraçar o mundo com as mãos, nos deixa ligados, à espera. Porém, nunca sabendo ao certo qual história devemos acompanhar.

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O mundo policial do detetive Philostrate, o Philo, personagem do conhecido Orlando Bloom, pouco faz para nos conquistar. A trama, que poderia ser o pivô da narrativa apresentada, teria que ter mais tempo para ser considerada o arco inicial. Mesmo caso tivesse, uma melhora no roteiro certamente seria necessária para atrair a atenção de qualquer ser humano – ou de outra espécie. Já a relação do detetive com a fada Vignette, de Cara Delevingne, é menosprezada durante os episódios. A relação talvez seja o foco principal das divulgações da série. Contudo, é algo pouco trabalhado e até confuso, ao ponto de ser – e não ser  – importante para o desenvolver inicial da história.

Encontro de dois mundos em série do Amazon. Imagem: Amazon/Divulgação.

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Tratar de um mundo fantástico, tendo referências como Westeros e a Terra Média, é algo difícil. Carnival Row, todavia, aposta em algo mais similar a Harry Potter, nos mostrando o nosso mundo misturado com diferentes criaturas. Para uma experiência satisfatória, se faz necessário uma imersão e envolvimento emocional no material assistido. Nisso, a série felizmente tem sucesso, em vários momentos traçando paralelos com o nosso mundo do dia-a-dia para garantir um maior apelo ao público em casa.

O espelho que nos convida a refletir

Situando o telespectador dentro daqueles dramas vividos por fadas, faunos e humanos apreensivos, Carnival Row nos mostra uma boa surpresa: os irmãos Spurnrose. Vividos por atores não tão conhecidos aos olhos do grande público. Andrew Gower e Tamzin Merchant, os dois trazem um olhar crítico e engraçado para a trama. Os irmãos, sátira de burgueses decadentes e preconceituosos, se vêem em situações tanto engraçadas como reflexivas ao baterem de frente com diversos clichês do gênero quando se propõe a debater preconceitos. Porém, embalados nesse contexto apresentado pelo drama, os clichês são positivos e nos convidam a revisitar certas situações com um olhar mais além.

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A ambientação pode ser, mesmo que imersiva, confusa – fator que talvez seja intencional. Além de narrativos, clichês do gênero de fantasia também são comum. O ser humano complexado com um estilo mais calado, muito comum ao Comissário Gordon do universo DC, se repete aqui no personagem de Bloom. As bruxas que falam coisas profundas e têm aparência estranha, também. Em certos momentos, tais elementos repetitivos parecem ser jogados e não muito bem representados. Talvez uma maior calma para apresentar os diferentes tipos encontrados nesse mundo fosse de maior bom gosto, até para a experiência do público.

Imagem: Divulgação/Amazon Prime

Tecnicamente falando

De forma geral, a série é atuada, o que é de grande conforto quando nem o roteiro ou a direção são de grande expressividade. Cara Delevingne talvez seja a maior beneficiada disso, até hoje sendo conhecida pelo grande público por trabalhos como Esquadrão Suicida. Aqui, a atriz ao menos tem chance de mostrar outros lados do se trabalho, o que é sempre positivo. O mesmo, infelizmente, não pode ser dito a Orlando Bloom. O ator nos aparece no piloto automático por boa parte do tempo. Outros bons atores estão presentes na trama, como Jared Harris, de The Crown. O personagem, inclusive, participa de uma trama política que não instiga o público mas que poderia ter muito potencial.

Algo que fez muita falta na série foram os famosos ganchos. A clássica estratégia das séries feitas para streaming, que tem como missão atrair o público a clicar para assistir o próximo episódio, está desaparecido nessa série. Assim, o seu investimento nos personagens e no mundo apresentado é extremamente importante, porque as histórias não ajudam muito para isso. Os episódios são concluídos sem despertar grande curiosidades a respeito do que os seguintes nos mostrarão.

Imagem: Divulgação/Amazon Prime

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Carnival Row faz parte de uma leva de grandes investimentos feitos por serviços de streaming, principalmente o Amazon Prime, mãe do projeto. Isso fica claro pelos efeitos muito bem feitos e por alguns nomes presentes no elenco. O projeto é convidativo para os fãs de fantasia, mas talvez encontre resistência de um público mais comum. Para esses, uma história mais seriada e interessante faria falta.

Portanto, não confiar somente no universo no qual os personagens vivem é sempre uma boa ideia. Aos mais dispostos, será uma experiência imersiva e, possivelmente, de se aproveitar.

Carnival Row estreia dia 30 de agosto, no Amazon Prime Video.