Crítica: “Chernobyl”, da HBO, acerta ao abordar com detalhes o famoso incidente nuclear

“Está tudo sob controle”

Chernobyl estreou na HBO e nos deixa alguns questionamentos. Quais os detalhes por trás de um dos maiores incidentes da história da humanidade? Quais decisões guiaram o destino de milhares de pessoas de forma fatal? Quais pessoas estiveram envolvidas no desastre de Chernobyl? Com um olhar detalhista de Johan Renck, a minissérie da HBO expõe aspectos interessantes dessa história.

O foco

Iniciando com uma cena narrada pelo protagonista, Valery Legasov, interpretado pelo ótimo Jared Harris, o primeiro episódio da minissérie se constrói de forma retrospectiva, focado no incidente em si, em seus pormenores, e nas reações de diferentes grupos ao que acontecia.

De saída, a cena protagonizada por Harris coloca no espectador um ponto de interrogação quanto à responsabilidade do ocorrido. Também, principalmente ao mencionar o nome de Anatoly Dyatlov (Paul Ritter), responsável pelo centro de controle da usina no momento do incidente, e personagem com maior tempo de tela no episódio.

O incidente de dentro para fora

Primeiramente, o episódio nos mostra a reação da equipe de controle a algum transtorno na usina de Chernobyl. As discussões dos integrantes, entretanto, gira em torno da impossibilidade de qualquer dano ao núcleo do reator, devendo ser um problema em outras estruturas.

Com efeito, esse primeiro núcleo do episódio coloca em confronto o desespero dos técnicos ao verem um incidente claro e perigoso ocorrendo em sua frente. Bem como, a tranquilidade do operador responsável, Dyatlov, afirmando repetidamente que “está tudo sob controle”.

Em paralelo, diversos personagens de outros núcleos, apresentados como espectadores do espetáculo/desastre, também são colocados nessa dualidade, entre o pânico e o senso de segurança. No detalhe da narrativa bem dirigida por Renck, essa discussão transparece uma contraposição entre a obediência ao Estado e o questionamento da normas impostas.

Não obstante, esse é o mote principal de uma ótima cena envolvendo um comitê executivo municipal em torno do que acontecia na usina. A fala de um veterano de partido comunista, talvez mesmo um antigo camarada de Lênin, soa até como uma ironia do roteiro à centralidade estatal no regime soviético.

Como tornar um desastre em algo belo

Certamente, um dos maiores trunfos do episódio de abertura da minissérie é sua fotografia e direção de arte. Renck acerta muito em diversas cenas. E tanto no uso de planos mais abertos, para mostrar certa beleza na explosão da usina, quanto no uso dos famosos planos holandeses para mostrar a desorientação dos funcionários do lado de dentro.

Algumas cenas, acima de tudo, utilizam de tomadas mais lentas. Essas, são usadas para detalhar as cinzas radioativas voando pelas faces das pessoas que viam um espetáculo naquilo que as sentenciou à morte. Essa qualidade se repete no episódio todo. Assim, consegue ser bem entrecortada com cenas mais cruas, mostrando pessoas sofrendo os efeitos da radiação.

Além disso, a atuação expressiva de alguns personagens, com olhares desesperados, contemplativos, desesperançosos, também auxiliam na composição de cenas que dão beleza ao desastre em questão, mostrando como é possível tornar belo algo horrível, mas sem romantiza-lo.

Uma trama política

Evidentemente, uma minissérie sobre o desastre de Chernobyl não poderia se furtar de discussões políticas. É visível, de saída, o posicionamento do criador da série e do diretor quanto ao regime soviético. Há uma severa crítica interessante da visão centralizadora do Estado.

Somado a isso, alguns recursos de direção enfatizam a simbologia do regime soviético, como a própria figura de Lênin, em situações que beiram ao absurdo da obediência cega ao Estado.

Porém, é preciso ficar atento ao desenvolvimento dessa face da trama nos próximos episódios. Certamente, a história envolvendo o incidente de Chernobyl é cheia de meandros. De tal modo, merecerá ser apresentada com uma discussão política mais refinada. Imagino que caberá ao personagem do próprio Jared Harris, junto ao de Stellan Skarsgard, mostrar esse lado mais complexo da trama.

Com um primeiro episódio primoroso esteticamente (salvo o último CGI), e com bons ganchos para explorar o pós-incidente, Chernobyl chega ao Brasil pela HBO com uma promessa de grande produção, típica do canal, abordando um tema relevante sob diversos pontos de vista.

Sem dúvidas, é uma produção que merece nossa atenção.

Além disso, completo. Todavia, palavras. Entretanto, necessárias. Bem como, verdes. Todavia, brancas. Sendo assim, necessárias. Além disso, completo. Todavia, palavras. Entretanto, necessárias. Bem como, verdes. Todavia, brancas.

 

Nota do episódio9
Crítica do primeiro episódio de Chernobyl, minissérie da HBO em seis episódios.
9
Luiz Alves

Luiz Alves

Historiador, fã de histórias em quadrinhos e jogador de RPG de longa data. Tem interesse por séries de suspense, como Hannibal, The Killing, Luther etc., de fantasia, como Penny Dreadful; e de todas as séries baseadas em HQs.

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