Crítica: Com altos e baixos, Ilha de Ferro tem bom ritmo na 1ª temporada

Imagem: Globoplay/Divulgação

A cada sexta-feira, a partir de hoje, aqui no Mix lançaremos toda semana uma crítica de produções brasileiras. Essa é uma chance de privilegiar o trabalho dos brazucas, que tem subido de qualidade a cada ano. Para começar, trazemos a crítica de Ilha de Ferro, produção da Globoplay lançada no final de 2018.

A série é uma das apostas do serviço de streaming da Globo e teve seu episódio piloto exibido na TV aberta em uma sessão especial da Tela Quente.

Uma história em duas realidades

Toda a trama de Ilha de Ferro parte de uma premissa bem interessante: como mudamos nossa vida em ambientes completamente distintos? A série acompanha um grupo de petroleiros da plataforma PLT-137, dividindo-se entre a vida embarcado e em terra firme.

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Por sinal, esse é o grande charme da série. Por um lado, nas cenas da plataforma temos um tom mais de ação, com interações mais cruas entre as personagens. Por outro, na terra, a série explora muito bem os dramas pessoais e as questões políticas.

O núcleo central explora a vida de Dante (Cauã Reymond) e Júlia (Maria Casadevall). A princípio, os dois protagonistas são apresentados de forma plana. Enquanto Dante é o típico machão durão, Júlia é a mulher durona em busca de conquistar seu espaço num setor dominado por homens.

Entretanto, ao longo dos episódios, a interação entre terra e mar vai dando aos personagens mais camadas, sobretudo, pela participação do elenco de apoio.

Atuações com altos e baixos

Apesar de contar com um bom elenco de apoio, as atuações na série sofrem com altos e baixos. A encarnação do machão por Cauã Reymond chega a cansar na metade final da temporada, tirando um pouco do vínculo do espectador com seu personagem.

Paralelamente, Júlia demora muito a mostrar outras camadas além da mulher durona. Quando o faz, ainda cai em lugares comuns das construções de personagens femininas.

Além disso, alguns personagens secundários acabam ficando muito planos e dependendo dos protagonistas. É o caso de Leona (Sophie Charlotte), sempre doidona e carente. Todavia, alguns personagens impõem ótimas atuações, caso de João Bravo (Osmar Prado).

Por outro lado, os personagens encarnados na plataforma são uma promessa de bom enredo, pois colecionam problemas e angústias. Entretanto, a série explora pouco seus dilemas, preocupando-se em encher a trama de acontecimentos, o que dificulta as construções de personagens.

Elevado valor de produção

Algo que chama a atenção na série é sua qualidade de produção. De saída, a representação da plataforma é bem detalhada, o que permite uma experiência imersiva no cotidiano dos petroleiros. A sensação de imersão é ainda mais impressionante se levarmos em conta que não houve filmagens em plataforma de verdade.

No entanto, se a personagem de Sophie Charlotte pareceu muito plana, é inegável que rendeu cenas esteticamente maravilhosas. O uso de recursos de luz e cores para dar uma ar lisérgico à personagem rendeu momentos muito bonitos ao longo da temporada.

Além disso, as cenas de ação são bem coreografadas e trazem um senso de realismo interessante, principalmente na plataforma. O risco constante em alto mar traz uma boa sensação para quem está assistindo e é um ponto alto da temporada.

Globoplay/Divulgação

Possibilidades para o futuro

Devido à grande quantidade de personagens e à dificuldade em explorar bem todos eles, Ilha de Ferro tem uma prospecção com muitas possibilidades.

Além da trama envolvendo os dois protagonistas, poderemos acompanhar uma intensificação da temática política, o que casará bem com o contexto da vida real. Igualmente, pode ser um caminho para aproveitar melhor os coadjuvantes com maior qualidade de atuação.

Outra possibilidade, decerto, é a criação de um enredo mais enxuto. Por se tratar de uma série não tão longa, a sobreposição de subtramas tende a cair em resoluções mais rasteiras e dificultando a criação de vínculos com os personagens. Apostando na dualidade terra/mar e centrando mais o enredo, a série tem tudo para se manter por mais temporadas.

Por fim, com uma produção bastante decente e uma proposta interessante e conectada à realidade brasileira, Ilha de Ferro é uma boa produção nacional.

Por mais que busque uma aproximação maior ao padrão norte-americano, a série mantém aspectos originais da cultura brasileira e entrega uma experiência singular.

Na próxima semana, voltaremos para falar de Sob Pressão, outra série brasileira de qualidade.

Luiz Alves

Luiz Alves

Historiador, fã de histórias em quadrinhos e jogador de RPG de longa data. Tem interesse por séries de suspense, como Hannibal, The Killing, Luther etc., de fantasia, como Penny Dreadful; e de todas as séries baseadas em HQs.

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