Crítica: No 2×20, Designated Survivor finalmente aprende a arte da crítica inteligente

Designated Survivor 2x20, Designated Survivor Bad Reception
Designated Survivor 2x19, Designated Survivor Bad Reception

Imagem: ABC/Divulgação

Três frentes. Dois acertos.

Minha preocupação com Designated Survivor sempre foi a organização, ou a falta dela, em relação ao futuro. A impressão é que os roteiristas não fazem qualquer planejamento. Cada episódio é uma aventura nova, sem que haja preocupação com continuidade, com desenvolvimento de personagens, construção de clímax ou problemáticas sociais importantes ao showrunner, Keith Eisner. Embora Bad Reception tenha funcionado de forma surpreendente, tais dificuldades persistem e atrapalharam (e muito) a narrativa principal.

Designated Survivor 2x19, Designated Survivor Bad Reception

Imagem: ABC/Divulgação

Durante uma gala na Casa Branca, o presidente Kirkman encontra o embaixador do Butão (Keone Young) para discutir diplomacia. A discussão não é à toa. O país da Ásia está mantendo um americano na prisão por motivo fútil e sem o devido processo legal. Foram quinze dias entre sua prisão e a condenação. “É um sistema rápido e eficiente,” diz o diplomata. Ao mesmo tempo que tal problema cresce, a conselheira legal do presidente, Kendra, está em busca de um novo juiz para uma importante corte de apelações no âmbito federal. Enquanto isso, Hannah continua em busca da “verdade” sobre a Dra. Andrea Frost.

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Adorei a proposta de colocar o Butão como destaque. É um sopro de frescor quando saímos do óbvio, como Rússia e China, para um país pouco conhecido tanto no entretenimento quanto no noticiário. Todavia, a abordagem não poderia ser menos tediosa.  O imbróglio diplomático foi tão carente de criatividade que a disputa poderia ser travada com qualquer outra nação avessa a valores diplomáticos. Há cidadãos americanos presos por motivo duvidoso em todo mundo. Por isso acredito ser uma oportunidade perdida de apresentar ao telespectador uma cultura nova. Qual forma de governo? Qual é a língua oficial? Há conflitos étnicos ou religiosos no país?

Acertando umas e errando outras.

Felizmente vimos que das três narrativas apresentadas, apenas a diplomática não funcionou como deveria. Isso porque o roteiro foi corajoso em falar sobre assédio sexual e o impacto na vida pública tanto do assediador quanto da assediada. Serei honesto com o leitor em dizer que a abordagem não é nem de longe a desejada. Na verdade, apenas The Good Fight desenvolveu o tema com primor nesta temporada de televisão. Todavia, é sempre bom ressaltar que estamos na TV aberta e ainda há muitas áreas cinzentas quando o tema é discutido.

A proposta não trouxe consigo muitas novidades ou conceitos inovadores. Entretanto, gostei de terem colocado Kendra no centro desse problema. Ela lida com intimações, FOIAs (Freedom of Information Act) e outros percalços legais de uma administração caótica. Entretanto, desta fez foi diferente. A personagem teve que lidar com o fato de que o seu grande amigo, excelente jurista e alguém que se preocupa com os direitos das mulheres é, na verdade, um predador sexual. É uma situação complicada, real e extremamente difícil de ser resolvida. Os democratas sacrificaram o ex-senador Al Franken (Minnesota) numa conjuntura parecida.

Por isso volto a ressaltar que mesmo a abordagem arranhando a superfície, estamos discutindo-a neste momento. Entende o porquê é importante? Muito bem, isso nos leva para a terceira e última narrativa: Dra. Andrea Frost. O leitor deve lembrar que no último episódio, o presidente Kirman demitiu a agente Hannah Wells por insubordinação e má conduta. Mesmo assim ela decide fazer o trabalho por conta própria e arma um plano, com a ajuda de Dax Minter (Chris Butler), para descobrir a verdade sobre a deusa da tecnologia.

E o grande finale…

Apesar de uma sequência extremamente mal feita com um diretor preguiçoso e confortável em utilizar técnicas antigas para filmar cenas de ação, Maggie Q é a responsável por fazer funcionar. Habilidade que ela desenvolve desde os piores momentos de Nikita, é verdade. Com as informações capturadas e uma investigação em andamento, o telespectador logo entende o rumo da história. Com uma reviravolta deliciosa e um tanto extraordinária, vimos o roteiro fazer uma crítica feroz, porém sublime ao estado do país.

Nos minutos finais do episódio vimos um empresário ser exposto como um traidor da nação e disposto a colocar toda segurança nacional em risco pelo que? Sim, corte de regulações e de impostos, incentivos fiscais para os empresários e maior atenção aos pequenos empresários.Reivindicações presentes em qualquer plataforma presidencial do partido republicano desde Abraham Lincoln. O que nos leva ao mundo real. Onde um partido que um dia pregou moral, família, bons costumes e respeito à constituição deixar tudo de lado por um pacote fiscal que supostamente ajudaria a classe média.

Ou foi uma excelente ideia ou este que vos escreve tem assistido muito o programa da Rachel Maddow.

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Bernardo Vieira

Catarinense e estudante de direito. Escrevo sobre entretenimento desde 2010, mas comecei com política internacional depois da campanha americana de 2016. Adoro uma premiação e um debate político, mas sempre estou lendo ou assistindo algo interessante. Quer saber mais? Me pague um café e vamos conversar.

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