Crítica: Estrada Sem Lei vale como passatempo, mas se perde no ritmo

Estrada Sem Lei conta o outro lado da famosa história de Bonnie e Clyde

A história cria personagens que não saem do imaginário coletivo. Por mais que os anos passem, certos nomes permanecem firmes e são regularmente lembrados através de conversas, textos ou produções artísticas. Não há alguém que não tenha sequer ouvido falar nos nomes de Bonnie e Clyde, por exemplo. O casal, que alcançou fama descabida, aterrorizou a lei nos anos 30 enquanto ganhava o carinho e admiração dos civis. A reverência é tanta, que a dupla é frequentemente tratada como revolucionária e heroica por livros e filmes.

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Tratar de Bonnie e Clyde, portante, é tarefa complicada. O casal é um dos símbolos de uma era complicada na história norte-americana. Perdida no período entre guerras, a nação ainda tropeçava nos próprios pés depois de uma violenta crise (a Grande Depressão de 1929). No início dos anos 30, então, surge um casal de criminosos que remetiam aos grande feitos de Robin Hood. Eram os ídolos da classe trabalhadora e os inimigos mortais dos líderes de governo e da nata com maior poder aquisitivo.

O prolema é que isso não transforma a dupla em mocinhos. Ainda que sejam produtos do contexto no qual estão inseridos, Bonnie e Clyde não devem ser vistos como ideais de revolução e progresso. A trajetória dos amantes foi sangrenta, deixando uma porção de mortos e feridos para trás. E é neste viés que Estrada Sem Lei se debruça. Focando nos dois sujeitos contratados pelo governo para caçar o temível casal, o novo filme original da Netflix revela o outro lado da história amplamente divulgada pela mídia desde a década de 1930.

Costner e Harrelson são os mocinhos em abordagem maniqueísta

Protagonizada por Kevin Costner e Woody Harrelson, é inegável que Estrada sem Lei tem uma pegada conservadora. Sua abordagem moral e social pode ser facilmente questionada, já que sua visão, por mais que tente não ser maniqueísta, acaba dividindo um cenário complexo em dois: o bom e o mau. Pois Bonnie e Clyde são retratados como monstros sanguinários por John Lee Hancock, que sequer mostra os rostos da dupla. Na visão de Estrada sem Lei, o casa é um monstro sem identidade, uma máquina de matar sem alma que apenas causa destruição e dor.

É uma visão errada? Depende do ponto de vista. E cabe a cada um interpretar o que é mostrado na tela. Sob o ponto de vista técnico, The Highwaymen (Os Patrulheiros, em tradução literal) é correto. Hancock, que comandou longas como Um Sonho Possível, Fome de Poder O Álamo, não é um cineasta muito inventivo. Trata-se de um diretor que sabe posicionar a câmera e extrair boas performances de seu elenco. Mas só. Há pouco, sob o ponto de vista visual, para se elogiar.

Roteiro não arrisca e, apesar de contar uma boa história, tropeça do ritmo e no discurso

O roteiro segue a mesma linha segura, sem grandes apostas. A estrutura é simples, mas envolve por ser uma história bem contada. É uma pena, contudo, que a trama seja alonga demais. A impressão é de que o filme poderia ter trinta ou quarenta minutos a menos. O terceiro ato, em especial, se perde em idas e vindas gratuitas que apenas atrasam o violento clímax. O desfecho, aliás, quando chega, é rápido e carece de impacto, o que decepciona, já que ambas as histórias, dos patrulheiros e dos criminosos, caminham separadas até chegar em um ponto final em comum.

Tendo acelerado o ritmo, cortado arestas e evitado o discurso quadrado e conservador, Estrada sem Lei poderia ser um dos projetos mais interessantes da Netflix. Kevin Costner é sempre garantia de trabalho bem feito, enquanto Woody Harrelson injeta humor e leveza no processo. Juntos, ambos carregam o filme nas costas e garantem os melhores pontos da obra. Em resumo, trata-se de um longa correto, quase inofensivo, que serve como passatempo e fonte de curiosidades. Vale uma sessão dupla com o clássico Bonnie & Clyde, de 1967, ou com o telefilme de mesmo nome, também disponível na Netflix.

Nota do filme7
Estrada Sem Lei tem duas atuações excelentes e um roteiro correto. Funciona como passatempo, mas tropeça no ritmo arrastado e no discurso quadrado e conservador.
7
Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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