Crítica: Mare of Easttown é o imperdível mistério da HBO

Mare of Easttown

O grande diferencial das histórias de mistério é a humanização dos personagens, principalmente daqueles que investigam os crimes. Embora Sherlock e tantos outros investigadores tenham se consagrado pela frieza e objetividade, são os detetives alquebrados que ditam as regras ultimamente. Com o sucesso absoluto de True Detective, cresceu na cultura pop o anseio de se construir tramas e personagens que dão mais atenção às pessoas e ao desenvolvimento humano do que aos mistérios em si. Mare of Easttown, da HBO, bebe nessa fonte e não decepciona.

Com Kate Winslet na linha de frente, a minissérie acompanha Mare, uma detetive de uma pequena cidade abalada pelo assassinato de uma jovem. Em um lugar onde todos sabem os segredos de todos, mas ninguém realmente se conhece, a morte da moça surge como a derrocada de uma sociedade. Explorando os mais excêntricos personagens, Mare of Easttown nunca falha em trazer as minúcias mais interessantes de cada morador. Há o pároco com passado sombrio, o casal de idosos que briga e tem problemas com tecnologia, as crianças, os forasteiros.

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Personagens enriquecem trama bem escrita e envolvente

Sem apelar para diálogos expositivos, o show entrega diversas informações importantes através de elementos visuais ou situações orgânicas. Logo no primeiro capítulo, por exemplo, sabemos inúmeros detalhes sobre as vidas de Mare e sua família, como a dura situação envolvendo um filho e uma complicada relação com o ex-marido que é, também, seu vizinho. Neste sentido, ao longo de sete episódios, Mare of Easttown costura uma elogiável tapeçaria de personagens complexos e interessantes. Com isso, a narrativa é daquelas sem mocinhos ou vilões, mas pessoas difícil que são as duas coisas na mesma medida.

Não que o mistério fique de lado para que os personagens cresçam. O fato é que a investigação funciona e segura a atenção do público com segurança. Enquanto Mare e Zabel perseguem um suspeito invisível, a curiosidade aumenta e todos podem ter cometido o crime. Mare of Easttown, porém, felizmente não cai na armadilha de esticar um mistério ou continuá-lo em novas temporadas (como Broadchurch, por exemplo). As respostas chegam ao final e a trama é completamente encerrada ao final do sétimo episódio. Isso não impede que o roteirista e Winslet retornem para uma nova temporada. O criador afirmou que basta ter uma nova ideia para voltar a Easttown.

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Kate Winslet está impecável como protagonista

Ainda que o roteiro faça um belíssimo trabalho, a força motriz é realmente Kate Winslet. Habituada às produções caprichadas da HBO (ela protagonizou a premiada Mildred Pierce), a atriz tem um de seus melhores momentos dos últimos anos. E estamos falando de uma das maiores atrizes da Hollywood moderna. Como Mare, Winslet se despe de qualquer glamour, algo que já havia experimentado em vários outros papéis, como em O Leitor. Aqui, ela é uma mãe de família (avó!) que, por se dedicar demais ao trabalho e aos familiares, não tem tempo para si. Dona de uma beleza e de uma personalidade forte, Mare sabe que é bonita e livre, mas também reconhece suas limitações.

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Assim, é interessante vê-la deslocada em um encontro ou desconfortável em um vestido. Mare está habituada a armas e coletes, a costumes práticos e pessoas simples. É por isso que sua relação com o jovem investigador interpretado por Evan Peters é tão interessante. Ela gosta e admira o rapaz, mas é muito dura para reconhecer isso. Neste sentido, Mare é uma das personagens mais interessantes e simpáticas dos últimos anos. Apesar de difícil, é uma pessoa consciente, que sabe amar e tem um caráter irretocável.

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Mistério é bem desenvolvido e tem ótimo final

E é aí que chegamos ao excelente desfecho da trama. É por ser esta personagem bem construída que o final funciona. Ao se ver de frente a um conflito moral, Mare toma a decisão mais acertada, mas também a mais difícil. Com isso, temos não só o encerramento de um mistério, mas um desdobramento complicado e interessantíssimo. Além disso, a costura final revela a qualidade total do enredo, que entregara pistas desde o início. O responsável pelo crime aparece aqui e ali, dando indícios de sua persona. A revelação de sua identidade, porém, não deixa de ser surpreendente. Pelo contrário, torna-se lógica e bem construída se analisada em retrospecto.

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Com excelente trilha sonora e fotografia que capricha nos cenários outonais do local, Mare of Easttown ainda foi sucesso de público. Sendo a série mais assistida da HBO Max, Mare já ascendeu a luz de alerta, indicando ao estúdio que uma nova temporada é mais do que bem vinda. Caso continue com a mesma firmeza e qualidade, a HBO pode ter descoberto outro sucesso de público, crítica e prêmios. Depois de conquistar a audiência, espere para ver a série fazendo bonito no Emmy. E com todo o merecimento.

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