Crítica: Max é confrontado pela mortalidade em 1×15 de New Amsterdam

“O diagnóstico de câncer muda tudo…”

New Amsterdam tem mostrado habilidade para vincular temas sociais relevantes às tramas de seus personagens. Em “Croaklahoma“, de maneira idêntica, a série lidou com o medo da morte a forma como isso afeta a experiência de vida das pessoas.

Primeiramente, o roteiro apresentou a face mais impactante do episódio: Max, o sempre bem-humorado e pronto para ajudar, está claramente incomodado com algo. Decerto, o estranhamento frente ao mau-humor do protagonista salta aos olhos pelo contraste com seus colegas de quimioterapia.

Em paralelo, as tramas paralelas lidaram com os diferentes efeitos do medo da morte sobre as pessoas, sintam-se elas mais próximas de seu fim ou não. Houve, ainda, a pontual participação de Bloom, que ajudou a avançar um pouco sua trama.

“Você precisa estar pronta para o caso de eu não estar lá”

Primeiramente, o comportamento diferente de Max em relação aos seus colegas pacientes e profissionais aparenta ser um efeito do tratamento quimioterápico. Durante mais uma sessão, todos estão fazendo trocadilhos engraçados com seus sintomas e efeitos colaterais. Max, por sua vez, parece deslocado, sem encontrar sentido naquilo.

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Do mesmo modo, sua interação com os demais médicos indicou o incômodo do diretor do hospital. Sem piadas, sem trocadilhos, e sem aquele bem disposto “como posso ajudar?”. Todavia, é numa sessão de preparação pré-natal com Georgia (finalmente ela voltou!) que vemos o porquê do incômodo de Max.

Embora pareça uma quebra abrupta na abordagem do personagem, não é surpreendente. Ora, o personagem está lidando com, pelo menos, três grandes fenômenos em sua vida: a experiência do adoecimento por câncer, a paternidade, e a administração de um grande hospital. Entre os três, porém, até agora pouco havia aparecido a conexão entre o câncer e a paternidade. Existe a possibilidade de que Max morra antes do nascimento do bebê, embora seja pouquíssimo provável.

Acima de tudo, é importante que New Amsterdam explore o duro caminho de quem lida com o adoecimento, principalmente por doenças com a marca da morte fortemente vinculadas a elas. Acho, porém, que falta ainda à série mostrar mais de Georgia, cabendo um episódio inteiro sob a ótica dela (aprofundando a abordagem do 1×10). Afinal, como deve ser toda a situação para ela?

Sobreviver muito ou viver pouco?

Em paralelo, Helen Sharpe lidou no episódio com um paciente idoso diagnosticado com câncer avançado e com o desejo de interromper o tratamento para aproveitar o tempo com seu novo amor. Desde que a reconstrução de Sharpe foi iniciada, a personagem tem participado de boas histórias envolvendo um lado mais humano do cuidado à saúde.

Neste episódio, a oncologista tenta conciliar as preocupações do guardião legal às de seu paciente, argumentando exatamente que não basta curar (to cure), mas também é preciso curar (to heal). Essa diferença pode ser confusa no português, mas na língua inglesa é profunda. O primeiro sentido se refere à resolução biológica do problema; o segundo, por outro lado, se refere à experiência do doente, a melhoria de sua condição de vida.

E esse ponto, por analogia, aparece na trama de Max, afinal, seu colegas pacientes estão buscando conviver com a doença. A filosofa Susan Sontag disse certa vez que a doença é “uma cidadania mais onerosa”, mas isso não significa que não é possível vivê-la com outras pessoas, em outros parâmetros.

Em uma audiência judicial, Helen argumenta que o “diagnóstico de câncer muda tudo”, e que, para seu paciente, o importante era aproveitar seu tempo com quem ama, a despeito das debilitações da doença. Essa questão é complicada; por certo, em uma série de TV há um limite para discussão do tema. Porém, a resolução colocada por Sharpe pareceu satisfatória para o andamento da trama.

Entre o sagrado e o profano em New Amsterdam

Pelo contrário, “Croaklahoma” pareceu explorar de maneira muito fraca o tema da religião. No episódio, um casal de trabalhadores precisa de alguma solução para que seu filho possa receber medicamentos caros do governo. A solução de Max e Reynolds: o divórcio, para integração do casal ao Medicaid americano.

No entanto, a religiosidade católica do casal e do filho colocaram empecilhos para a solução “brilhante” da dupla de médicos. O garoto, com medo de que os pais sofressem uma vida de danação pelo pecado do divórcio, não queria aceitar o sacrifício. A solução “muleta” foi pedir a um cardeal papal convenientemente presente na cidade confortar a criança.

Por certo, o ponto da crítica não reside no aspecto religioso da questão. O valor de crenças é mensurado individualmente, e todas as experiências precisam ser respeitadas. O ponto é a construção do roteiro para o problema e para as soluções. Além disso, tem virado uma recorrência essas soluções mirabolantes para problemas referentes ao sistema de saúde americano.

Embora a crítica ao sistema seja válida, é preciso maior cuidado na busca pelas soluções. Talvez uma discussão sobre um novo sistema pudesse ser colocada pela série, afinal, existem muitos outros modelos de cuidado à saúde pelo mundo.

Kappur, Frome e Bloom

Em um episódio dedicado mais a determinados personagens, é normal que os demais não tenham recebido tanto espaço como de costume. Todavia, as participações pontuais ajudaram a acrescentar mais alguns pontos importantes na trajetória dos personagens.

Kappur, suspeito do serviço secreto americano por atentado ao papa, protagonizou algumas cenas cômicas com um agente. Seu esquecimento da senha do e-mail, em certo ponto, trouxe de volta o coração de sua trama pessoal: o filho Rohan.

Frome, por sua vez, lidou rapidamente com um problema familiar, envolvendo a sua necessidade de ser um pai mais atento às preocupações de sua filha. Certamente, já é preciso um episódio mais centrado em Frome, seu marido e suas filhas, o que pode testar a capacidade dramática de Terry Lebine.

Bloom, finalmente, tem duas participações no episódio. Na primeira, se recusa a falar sobre a visita de Floyd (sobre a qual não sabemos quase nada). Porém, na segunda, ela expressa sua gratidão pela visita do amigo. Espero que uma jornada de recuperação seja bem construída para Bloom, certamente envolvendo seu amigo e possível par romântico.

“Essa foi boa, Max”

Como em quase todos os episódios, ao final de “Croaklahoma“, temos soluções parciais para quase todos problemas apresentados. Max parece encarar melhor a mortalidade e retoma um pouco de seu humor.

Em suma, New Amsterdam vai caminhando para um final de temporada positivo, apesar de alguns deslizes e quedas de qualidade em pequenas partes da temporada. Também pudera, são muitas histórias e episódios para construir uma boa narrativa.

Luiz Alves

Luiz Alves

Historiador, fã de histórias em quadrinhos e jogador de RPG de longa data. Tem interesse por séries de suspense, como Hannibal, The Killing, Luther etc., de fantasia, como Penny Dreadful; e de todas as séries baseadas em HQs.

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