Crítica: Obi-Wan Kenobi começa tímida, mas não decepciona

Obi-Wan Kenobi estreia tímida, mas logo recupera o fôlego e entrega um sólido começo. Próximos episódios devem trazer intenso confronto.

Obi-Wan Kenobi

Obi-Wan Kenobi seria um filme. A chefona da Lucas Film, Kathleen Kennedy, afirmou que o projeto estava destinado às telonas, mas que o curso foi reajustado quando Solo foi um relativo fracasso artístico e financeiro. Com este baque, inesperado para uma franquia ainda imbatível, Kenobi ficou em repouso.

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Com a chegada da plataforma de streaming, a Disney+, uma nova luz surgiu para este e outros títulos. Obi-Wan Kenobi começou a tomar forma de série. E o estúdio tem tomado gosto pela coisa: The Mandalorian abriu a porteira para O Livro de Boba Fett, Kenobi e pelo menos mais uma, Andor, que chega ainda em 2022. Além destas, animações e outras séries em live-action estão engatilhadas.

O acerto da Lucas Film até aqui tem sido a seriedade com que encara seus projetos televisivos. Tendo o mesmo cuidado que teriam com os filmes, o estúdio mantém a mesma exigência de qualidade e não encara os produtos televisivos como algo menor ou menos digno. É uma abordagem diferente daquela mostrada pela Marvel, que tem recebido duras críticas por suas últimas séries – e pelas próximas. Enquanto Star Wars ainda mira em certa relevância e qualidade, a Marvel tem pecado por sua preferência por quantidade.

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Outro ponto que eleva as produções seriadas de Star Wars é o uso de personagens e tramas importantes do cânone. Assim, vemos Luke Skywalker em Boba Fett e Darth Vader em Obi-Wan Kenobi. Assim, as séries não são um espaço para se jogar personagens insignificantes ou desenvolver narrativas inofensivas. Desta forma, o novo projeto estrelado por Ewan McGregor assusta de início justamente por parecer uma história sem razão para existir.

Minissérie começa morna, mas se recupera com segundo capítulo agitado

Com isso, é um ponto positivo que dois episódios tenham sido lançados nesta estreia ao contrário de apenas um. Os realizadores, aliás, deviam saber da irregularidade do piloto e resolveram garantir a audiência entregando pelo menos mais um capítulo.

Não que a primeira parte seja ruim, mas ela falha ao tentar empregar importância aos acontecimentos. Na estreia, embora seja divertido rever personagens queridos, sentimos falta de uma narrativa urgente e necessária. Para um bom fã de Star Wars, descobrir o paradeiro de Kenobi e ver a infância de Luke e Leia é muito válido, mas falta substância que vá além do caráter de curiosidade.

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E com o segundo capítulo, então, que Obi-Wan Kenobi cresce em escala e importância. Um dos grandes medos, aliás, era que o resgate à Leia tomasse conta de toda a temporada. Seria uma lástima, por exemplo, que toda a história dependesse apenas da busca do Jedi pela jovem princesa.

Felizmente, o roteiro resolve a problemática rapidamente e estabelece aquele que talvez seja o cerne legítimo da empreitada: a busca do Anakin Skywalkder caído por seu antigo mestre. Ao trazer Kenobi descobrindo a sobrevivência de seu ex-pupilo, a minissérie traz o primeiro momento realmente importante ao cânone. Aqui, o Jedi percebe o seu destino e parece ter um vislumbre do próprio futuro.

Ewan McGregor está excelente em série que busca por relevância

Neste sentido, vale ressaltar o talento de Ewan McGregor, que surge confortável na pele de seu personagem mais icônico. Ao longo de três filmes e a série, McGregor teve a chance de desenvolver Kenobi em três momentos distintos e importantes. Desde um jovem e inexperiente padawan até um sábio e talentoso mestre jedi, Ben Kenobi cresceu para se tornar o poderoso e calmo guerreiro de Uma Nova Esperança.

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Na minissérie, aliás, há algumas brincadeiras acerca da idade e do aspecto do sujeito, que parece cansado e perdido. Assim, o Kenobi visto aqui está muito mais próximo do Luke de Os Últimos Jedi. Isso porque ele não acredita mais no futuro dos jedi e prefere seguir uma vida de anonimato e calmaria.

O segundo episódio ainda garante um notável crescimento no escopo e no visual da série. Ambientado quase que inteiramente à noite, a segunda parte carrega no neon e traz um ambiente sujo, urbano e perigoso, como poucas vezes visto em Star Wars.

Deborah Chow, diretora dos capítulos, parece entender os ícones da saga e faz um belo uso dos sabres de luz, por exemplo. Além disso, é interessante o conceito dos jedi caídos que se tornam vilões, inquisidores do Império. É uma pena, entretanto, que um interessante personagem recém-chegado seja limado da trama tão cedo.

Estreia faz bom trabalho de antecipação e promete intenso combate

Obi-Wan Kenobi, portanto, é uma divertida e bem feita incursão no cânone de Star Wars. Com os próximos quatro episódios, a minissérie (ou série? Só o tempo dirá…) tem tudo para se tornar ainda mais relevante na saga das estrelas.

Mesmo que não conte histórias inéditas ou transformadoras, Kenobi pode seguir os mesmos caminhos de Rogue One. O filme, ainda que não alterasse os rumos das trilogias principais, investiu nos personagens e nos elementos clássicos da saga. Hoje, o longa é título indispensável nas maratonas, sendo melhor que vários dos filmes principais.

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Desta forma, é importante que Obi-Wan Kenobi seja mais Mandalorian e menos Boba Fett. Enquanto a série com Grogu investia na aventura e na emoção, Fett se perdeu em uma narrativa apática que só cresceu e envolveu quando trouxe Luke e o Mandaloriano para o centro da ação. Obi-Wan, por outro lado, tem pelo menos um momento pelo qual aguardamos e deverá fazer valer a pena: um confronto violento com o mestre jedi Darth Vader.

Nota: 4/5

Jornalista, curioso e viciado em cultura. Escreve há quase 10 anos no Mix e Six Feet Under é sua série favorita.