Crítica: No final da 2ª temporada, The Good Fight é o melhor que a televisão tem a oferecer

Day 492, The Good Fight, CBS All Access, The Good Fight 2x13
Day 492, The Good Fight, CBS All Access, The Good Fight 2x13

Imagem: CBS All Access/Divulgação

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Um Emmy, ou melhor, vários Emmys, por favor!

Durante esses treze episódios desta segunda temporada, The Good Fight discutiu muitos assuntos extremamente relevantes. Desde assédio sexual, passando por violações de direitos civis até chegar no mais importante deles, discutido com mais clareza nesta Season Finale. Qual seria? Precisamos falar, com muita seriedade e maturidade, sobre o Presidente Trump. Nada engraçado envolvendo porcos ou cabras, mas sim sobre os poderes do chefe da nação mais poderosa do mundo. Estaria ele abusando desses poderes? Certamente, mas a qualidade do texto é tão boa que a discussão vai além e sugere uma crítica a todo o sistema partidário. Nenhum discurso doido e anarquista, mas sim coerente e extremamente pontual.

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Imagem: CBS All Access/Divulgação

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Com Kurt convidado pelo FBI para se um novo analista em virtude do seu vasto conhecimento com armas, a polícia federal precisa investigar. Não só o postulante da vaga, mas sim todas as suas conexões. Inclusive Diane. Nada de extraordinário, procedimento que toda pessoa tem que passar antes de começar a trabalhar para o governo federal. Desde o Departamento de Agricultura até mesmo a Casa Branca. Com o passado de ambos virado do avesso, algumas aventuras de Diane vem à tona, inclusive seu breve relacionamento com Tully Nelson. Uma figura que cresceu, mas não amadureceu e adora brincar com a ideia de matar o Presidente. Não demora para que Diane seja arrolada para testemunhar em frente a um grand jury.

Círculo completo!

Day 492 mostra ao telespectador que tudo estava conectado desde o princípio. Seja em relação ao Partido Democrata buscando da melhor tese para propor impeachment ou a crise no casamento de Kurt e Diane. Os percalços que a nossa protagonista enfrenta são obstáculos criados por um presidente vingativo, focado em destruir seus inimigos e disposto a usar todo seu poder, aquele dado pelo povo, para atingir tal finalidade. A ma notícia é que The Good Fight retrata algo que já está acontecendo, nada do que vimos nesse episódio parece “coisa de ficção”. O problema é que a banalização dessa destruição contínua e diária dos princípios e valores deixou-nos dormentes.

Não é normal que o presidente peça a demissão Samantha Bee pelo Twitter, mesmo que a apresentadora tenha falado demais. Não é normal que o presidente use seu poder para destruir Kathy Griffin, apesar da comediante ter feito uma piada sem graça. Não é normal que o presidente advogue em favor de Roseanne Barr, mesmo após uma postagem explicitamente racista, só porque ela é uma das suas únicas aliadas em Hollywood. Assim como não é normal ver Diane flertando com o fim da carreira de advogada, pelo simples fato de ser democrata e crítica do presidente. Essa postura é normal na Rússia, na Turquia, na Venezuela e nas Filipinas. Não é normal nos Estados Unidos.

Guerra é Guerra!

Para transmitir essa ideia, vale lembrar, o roteiro usa uma referência deliciosa ao clássico Todos os Homens do Presidente onde Diane escuta de uma fonte num estacionamento escuro. Foi perfeito, ainda mais com os toques cômicos no seu desenvolvimento. Melhor do que isso? A mensagem final. Nossa protagonista decide usar fogo contra fogo ao buscar a sujeira do passado dos seus algozes. Mais precisamente mulheres. Que surpresa, não é mesmo? Porém, pergunto ao leitor: qual seria a importância de tal dossiê se ele não causar estrago? Nenhum a menos que mídia parcial ao presidente dê atenção. Por isso os roteiristas acertam mais uma vez ao trabalhar, de forma irônica e bem humorada, o quão problemática é a realidade americana no momento.

Essa crítica à mídia conservadora, mais precisamente aos horários de opinião da Fox News, também é invocada na trama de Boseman. Deparando-se com figuras caricatas, ridículas e folclóricas, o advogado brada aos céus: onde estão os republicanos inteligentes? E novamente informo ao leitor que nada disso é ficção, apenas um triste e pontual retrato da realidade. Qual a qualificação que um juiz que sequer sabe a definição de Miranda v. Arizona tem para discutir violência urbana? Ou um apresentador de televisão que é respeitado não pela sua formação e inteligência, mas sim pela sua audiência grandiosa.

O segredo é balancear!

Nem tudo em The Good Fight são pedras, obscuridade e escárnio. Há luz e celebração. É claro que me refiro ao nascimento do bebê de Lucca. Não só pelo simbolismo que uma nova vida traz no momento que a série olha para seu próximo ano, mas também pelas diversas gargalhadas que dei nos momentos que antecederam o nascimento. Quem diria que Judith Light e Andrea Martin formariam uma dupla tão deliciosa? Ou que falaríamos sobre o racismo de todos os dias num momento tão….curioso? Seja como for, a mensagem foi enviada e recebida com sucesso.

The Good Fight dá adeus de forma única. Madura, sagaz e compromissada em falar de assuntos difíceis sem ser piegas ou óbvia. Nesses treze episódios vimos uma série corajosa em tempos difíceis de usar esse adjetivo. Foi um enorme prazer e espero vê-los em 2019. Até lá não esqueça de ler bastante e se informar, afinal de contas como disse o matemático Claude Shannon, “informação é a resolução da incerteza”.

Dicionário do Mix:

Grand Jury – Quando se trabalha com política ou com leis é comum ser chamado para testemunhar perante um grande júri. Na verdade, eles são necessários para que todo processo judicial possa prosperar. Desde o estuprador em série no interior de Oklahoma, até mesmo o presidente do país. É a única parte inquisitiva do processo, isto é não há oportunidade de defesa, onde os 23 jurados decidem, por maioria, indiciar ou não o acusado a partir de provas apresentadas pelo Estado (esteja este representado da forma que for). Caso as denúncias sejam aceitas, o (a) indiciado (a) vai a julgamento.

Garganta Profunda/Deep Throat – Para quem não entendeu a referência e ficou apavorado quando foi informado pelo Google sobre a proeza de Linda Lovelace na década de 1970, respire fundo. Apesar de serem homônimas, a expressão foi usada pelo roteiro para homenagear uma figura extremamente conhecida do escândalo do Watergate, Mark Felt. Vice-presidente do FBI que vazou as mais diversas informações sobre a investigação do milênio contra Richard Nixon para os jornalistas do The Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein.

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Bernardo Vieira

Catarinense e estudante de direito. Escrevo sobre entretenimento desde 2010, mas comecei com política internacional depois da campanha americana de 2016. Adoro uma premiação e um debate político, mas sempre estou lendo ou assistindo algo interessante. Quer saber mais? Me pague um café e vamos conversar.

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