Crítica: The Outsider, da HBO, é um suspense envolvente e cheio de mistérios

The Outsider adapta livro de Stephen King em trama que mistura investigação criminal com toques sobrenaturais

A HBO teve um ano irretocável. Emendando um sucesso atrás do outro, o canal voltou ao topo do sucesso, recuperando o prestígio, abalado com a chegada arrebatadora da Netflix. Ainda que o desfecho de Game of Thrones não tenha convencido, o retorno em número e prêmios foi mais do que positivo. Em seguida vieram Euphoria, Watchmen e outros programas em diferentes horários noturnos. Todos renderam enorme movimentação online, audiência e reconhecimento especializado.

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2020 promete seguir no mesmo ritmo, e o pontapé inicial foi dado com The Outsidermisto de thriller e horror baseado em Stephen King. Em seguida vem Westworld e o futuro no horizonte parece promissor. Essa reafirmação da HBO, em uma espécie de retorno de quem realmente nunca foi, é tudo o que você precisa para confiar em The Outsider. King é outro que vem surfando em uma onda de sucessos, e o novo show adaptado de seu trabalho é o melhor de dois mundos: a grife da HBO e a inteligência narrativa do autor.

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Atmosfera sufocante dá o tom da estreia

Em uma estreia dupla, The Outsider estabelece com rapidez os personagens centrais e faz um excelente trabalho ao propor uma atmosfera sufocante, mergulhada em sombras e desilusão. Assim como no livro, a série dá pistas sobre as respostas, mas jamais entrega explicações antes do tempo. É curioso notar, portanto, que a série firma os pés em uma ambientação realista, crua, e será interessante acompanhar como o roteiro trabalhará com os elementos sobrenaturais que já ficam claro desde o primeiro capítulo.

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Parte do sucesso dos primeiros episódios vem da direção segura de Jason Bateman, que se revela um cineasta cada vez melhor. Buscando inspirações em True Detective e outras narrativas investigativas modernas, The Outsider constrói o suspense de forma calma, sem grandes arroubos estéticos ou reviravoltas. Ainda assim, o roteiro aborda várias páginas do livro em apenas duas horas, levando ao questionamento: o que veremos nos próximos oito episódios se distanciará do material original?

O distanciamento é possível e provável, o que levanta certa preocupação: adaptações de King que se afastam do material original geralmente falham em seus objetivos. Prova disso é que as melhores adaptações dos livros do autor são aquelas fiéis, que respeitam o espírito dos romances. The Outsider parece fiel o suficiente e bem atrelado ao espírito, mas pode encontrar dificuldades no limiar entre realidade e obscurantismo, entre fidelidade e voos independentes.

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The Outsider pode ser a primeira joia da HBO em 2020

O caminho é colocar o pé no freio. Ainda que o suspense seja construído com calma e o ritmo seja relativamente lento, as primeiras horas da série avançam muito na narrativa do livro, o que resulta em um roteiro um tanto atropelado. Não sobra muito espaço para a audiência se afeiçoar ao detetive protagonista ou o acusado misterioso. The Outsider, embora não pareça, é uma das obras mais sentimentais e sensíveis de King, trazendo pessoas boas envolvidas em tragédias quase irremediáveis.

Com início sólido, The Outsider não parece um sucesso à primeira vista (como foram Euphoria e Watchmen, cada um à sua maneira). O ideal é que a narrativa se encerre em dez capítulos, sem renovação para novas temporadas. Trata-se de uma trama envolvente e misteriosa, mas que precisa de limites e foco para funcionar. Levando em conta o roteiro, a direção e o elenco fabuloso, esta tem tudo para ser a primeira joia da HBO em 2020, deixando o canal onde ele merece: no topo.

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.