Crítica: The Underground Railroad é arrebatadora minissérie da Amazon

The Underground Railroad

Poucos closes são tão poderosos quanto os de Barry Jenkins. Raros são os diretores que sabem filmar o rosto humano. Como bom admirador e aprendiz de Jonathan Demme (O Silêncio dos Inocentes), Jeninks captura cada nuance no olhar denso de seus personagens. Depois de Moonlight, o cineasta chega à televisão com outro trabalho de impacto e alcance: The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade.

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Baseada no livro de mesmo nome, e que venceu o Pulitzer em 2017, The Underground Railroad acompanha Cora, uma jovem escrava. Nascida na escravidão, Cora nunca experimentou a liberdade e passou seus anos em uma fazenda de algodão. Sua história muda quando ouve falar de uma ferrovia subterrânea. Fugir, entretanto, requer muito mais do que coragem. 

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Imagem: Divulgação

Minissérie traz novos olhares e informações sobre a escravidão nos Estados Unidos

Cobrindo mais da metade do livro em seus dois episódios iniciais, Caminhos para a Liberdade resgata o visual e o impacto de obras como 12 Anos de Escravidão. Ao passo que choca pela violência, emociona ao escancarar a força do espírito humano. Nas mãos de um diretor menos experiente, a violência viraria diversão, numa deplorável inclinação ao torture porn. Sob o comando de Jenkins, entretanto, a dor é crua e necessária para que compreendamos o horror do período. 

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Neste sentido, Underground Railroad traz novas informações sobre a escravatura norte-americana – ou, ao menos, detalhes pouco explorados pela grande mídia. A ferrovia subterrânea, por exemplo, não existia como uma ferrovia de fato. Não se tem informações sobre trens que cortavam a terra, mas existia, de fato, uma série de caminhos secretos por onde abolicionistas levavam escravos que fugiam da escravidão. 

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Situação era insustentável mesmo em estados “livres”

Estes “caminhos da liberdade” eram tão organizados e secretos, que muitos comentavam que era como se os escravos entrassem para baixo da terra e sumissem. Outros pontos interessantes e doloridos da época são os lamentáveis experimentos realizados em estados ditos “livres”. Em claros processos de eugenia, negros eram mortos e tornados estéreis sem sequer terem escolha ou conhecimento de tais ataques. 

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Outro detalhe que a série aponta são os vergonhosos museus que traziam negros “encenando” situações do sul escravocata. Plantações falsas traziam negros que “atuavam” como se ainda estivessem presos. Tudo para agradar os brancos curiosos de estados supostamente liberais e abolicionistas. 

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Elenco é uma das grandes forças de Underground Railroad

No centro de tudo está Cora, irretocavelmente interpretada por Thuso Mbedu. A jovem atriz é uma das melhores descobertas da indústria, e sua atuação deve chegar com força ao Emmy. Joel Edgerton, como o vilão Ridgeway, é outro que se destaca. E um dos grandes acertos da série é justamente o seu vilão. O caçador de escravos de Edgerton é uma figura estranha, complexa. Ao passo que caça negros que fogem das fazendas, ele é acompanhado por uma criança negra que visivelmente tem o respeito e carinho do sujeito. 

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Além disso, Ridgeway tem um episódio dedicado ao seu passado, que conta como sua criação foi liberal. Seu pai era abolicionista e, apesar de ter negros como empregados, não os tinha como escravos. Assim, ao invés de tornar-se menos odiável, Ridgeway surge ainda mais monstruoso. Isso porque vemos que seu caráter e suas ações não são motivadas por raça, mas por pura maldade, independente de cor. 

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Penúltimo capítulo é o clímax impecável de uma ótima minissérie

Cora, por sua vez, não fica de fora no quesito complexidade. Machucada por uma vida de agressões e tristezas, Cora é fria e distante mesmo com quem lhe ama. Além disso, depois de fugir da fazenda inicial, Cora torna-se uma bomba-relógio, já que chama atenção de Ridgeway e outros brancos que a perseguem. Isso nos traz ao novo episódio, que traz o clímax de toda desventura. 

No penúltimo capítulo vemos todas as linhas se cruzarem em uma explosão de violência. Aqui, vale apontar, o total domínio técnico de Jenkins, que dirige sua câmera e seus atores com exímio talento. Os discursos na igreja, entrecortados com ações externas, são arrebatadores, e os atores merecem aplausos e prêmios só por esta sequência. No fim, apesar de algumas notas de esperança, o desfecho nunca é totalmente positivo em um mundo de puro ódio e decepção.

Minissérie, entretanto, poderia ser menor 

The Underground Railroad acaba falhando apenas ao esticar a história um pouco além do necessário. Com dez capítulos, a minissérie poderia ter seis ou sete. Isso porque alguns episódios no meio da temporada simplesmente não agregam em nada ao contexto geral, e diversas sequências poderiam ficar de fora. 

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O capítulo voltado ao passado de Ridgeway é bom, mas poderia ser apenas alguns flashbacks inseridos em outros episódios. Os dois capítulos do Tennessee, por exemplo, poderiam ser unidos em um só. Já o curto Fanny Briggs poderia ser inteiramente retirado da temporada, já que desvia totalmente do foco central e atrasa ainda mais o ato final. 

Pesada, minissérie é mais atual do que pensamos

Ainda assim, The Underground Railroad é uma experiência arrebatadora e imperdível. Com belíssima fotografia, a série é o que chamaríamos de Cinema em outros tempos. Como hoje em dia a TV é tão boa quanto – ou melhor que – a Sétima Arte, não é de se surpreender que a minissérie da Amazon Prime Video seja uma das melhores produções do ano. Logo, fique atento aos gatilhos que o programa pode despertar. É uma história pesada, mas bem feita e necessária. Isso porque os caminhos para a liberdade seguem necessários até hoje e estão cada vez mais difíceis. 

E então, você já conferiu The Underground Railroad?

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REVER GERAL
Nota da minissérie