Trunfo, novo filme da Netflix, chega com uma premissa poderosa ao colocar um advogado conhecido por sua integridade diante do maior dilema de sua carreira. Misturando drama judicial, suspense e conflitos morais, a produção indiana dirigida por Siddharth P. Malhotra tenta discutir até onde alguém é capaz de ir para proteger quem ama quando o próprio sistema de Justiça parece favorecer apenas os mais poderosos.
Embora a proposta seja instigante e o elenco entregue boas atuações, o longa acaba preso às convenções do gênero e demora mais do que deveria para revelar suas melhores cartas.
Estrelado por Sunny Deol, Akshaye Khanna, Tillotama Shome e Dia Mirza, Trunfo (Ikka) acompanha Arjun Mehra (Sunny Deol), um advogado conhecido por sua reputação impecável e por jamais abrir mão de seus princípios. No entanto, sua carreira muda completamente quando ele é obrigado a defender Shauryaman Gaur (Akshaye Khanna), o filho de um poderoso político acusado de estupro e assassinato.
O que parece ser apenas mais um julgamento logo se transforma em um intenso conflito moral, colocando o protagonista diante de escolhas que podem destruir tudo aquilo que levou décadas para construir. A partir dessa premissa, o longa dirigido por Siddharth P. Malhotra discute corrupção, abuso de poder e as falhas de um sistema de Justiça que nem sempre favorece quem está do lado da verdade.
Diante disso, Trunfo tem todos os ingredientes para ser um grande thriller de tribunal. O problema é que, ao longo de quase duas horas e vinte minutos, a produção parece hesitar entre provocar reflexões profundas e apenas cumprir uma fórmula já bastante conhecida pelo público.
Um protagonista colocado diante do impossível

O grande mérito do filme está na construção de Arjun Mehra (Sunny Deol). Conhecido como um advogado incorruptível, ele construiu toda a sua reputação defendendo princípios como honestidade, ética e justiça. No entanto, tudo muda quando circunstâncias extremamente pessoais o obrigam a assumir a defesa de Shauryaman Gaur (Akshaye Khanna), filho de um influente político acusado de estupro e assassinato.
É a partir disso que Trunfo encontra sua melhor discussão.
O roteiro deixa claro que o verdadeiro conflito nunca foi descobrir se o acusado é culpado ou inocente. A questão passa a ser outra: até onde alguém estaria disposto a abrir mão de seus próprios valores para salvar quem ama?
Esse dilema acompanha praticamente toda a narrativa e transforma Arjun em um personagem cada vez mais complexo. Aos poucos, vemos um homem admirado por sua integridade começar a justificar atitudes que antes ele próprio condenaria.
O sistema de Justiça é o verdadeiro alvo
Muito mais do que contar um caso criminal, Trunfo faz uma crítica direta às falhas das instituições.
O filme mostra como dinheiro, influência política e poder conseguem manipular investigações, testemunhas e até os próprios tribunais. Não basta estar do lado da verdade quando quem controla o jogo possui recursos praticamente ilimitados.
Nesse aspecto, a promotora vivida por Tillotama Shome representa o contraponto perfeito ao protagonista. Sua personagem luta para responsabilizar Shauryaman pelo crime, mas enfrenta um adversário experiente, que conhece todas as brechas da legislação e sabe exatamente como utilizá-las.
A mensagem é clara: justiça e legalidade nem sempre caminham juntas. E essa talvez seja a ideia mais interessante desenvolvida pelo longa.

Atuações seguram boa parte da narrativa
Sunny Deol entrega uma atuação sólida e consegue transmitir o desgaste emocional de Arjun conforme suas convicções começam a desmoronar.
Em alguns momentos, porém, o ator exagera no tom dramático. Certas cenas parecem recorrer ao heroísmo típico do cinema de ação indiano, criando um contraste estranho com o perfil mais sóbrio que o personagem deveria transmitir.
Akshaye Khanna também cumpre bem seu papel como o arrogante Shauryaman. O ator consegue transmitir a sensação de alguém acostumado a acreditar que dinheiro resolve qualquer problema, embora o roteiro acabe construindo um antagonista relativamente previsível.
Já Tillotama Shome praticamente rouba todas as cenas em que aparece. Sua promotora transmite inteligência, determinação e humanidade, funcionando como o verdadeiro equilíbrio moral da história.
Dia Mirza e Sanjeeda Shaikh aparecem menos do que poderiam, mas aproveitam bem o tempo limitado em cena.
Um ótimo suspense… que demora para acontecer
Talvez o maior problema de Trunfo seja seu ritmo.
A história possui elementos suficientes para construir um thriller jurídico intenso, mas opta por alongar excessivamente situações que poderiam ser resolvidas com muito mais objetividade.
Os primeiros atos apresentam bons conflitos, porém a investigação praticamente estaciona em diversos momentos. Quando novas revelações finalmente aparecem, elas dificilmente surpreendem.
O roteiro também entrega pistas bastante evidentes sobre a identidade do verdadeiro responsável pelo crime e suas motivações. Assim, quando a grande revelação chega, o impacto acaba sendo bem menor do que deveria.
A sensação é que o filme guarda um grande segredo durante mais de duas horas para revelar algo que muitos espectadores provavelmente já terão descoberto bem antes.

Vale a pena assistir o filme Trunfo?
Mesmo com suas limitações, Trunfo não é um filme ruim. Pelo contrário.
Existe uma boa discussão sobre ética profissional, corrupção institucional e os limites da moralidade quando a vida de pessoas próximas entra em jogo. Além disso, o elenco sustenta praticamente toda a produção.
O problema é que o longa nunca consegue transformar essa ótima premissa em algo realmente memorável.
Falta urgência, faltam reviravoltas mais impactantes e, principalmente, coragem para fugir dos clichês que dominam tantos dramas de tribunal. Em vez de reinventar o gênero, Trunfo prefere seguir um caminho seguro, ainda que previsível.
No fim das contas, é um suspense competente, bem interpretado e emocionalmente honesto, mas que dificilmente ficará entre os melhores filmes judiciais disponíveis na Netflix.
Nota: 3,5/5.


