Em 1988, “Vale Tudo” perguntou ao público brasileiro se realmente não existe limite para alcançar o que deseja. O país, à época, ainda não votava pra presidente, não tinha confiança na própria moeda e não conhecia os limites da própria (recém-conquistada) liberdade de expressão.
O texto de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères convidava o público a ir além de questionar sobre as ações dos carismáticos personagens e refletirem sobre as próprias atitudes.
Acima de tudo, Vale Tudo tinha cara de novela. Era uma novela raiz, com tudo que um folhetim pode oferecer. Tinha romance, tinha vilão que fazia coisas erradas. Em contrapartida, uma heroína como a Raquel de Regina Duarte que nunca duvidou que ser honesta valia a pena. Tinha também personagens que faziam-se confortáveis na zona cinzenta da moralidade, como o Ivan de Antônio Fagundes. A trama era fatalmente humana, uma das mais queridas características da novela brasileira, de forma geral.
Em 2025, recontar essa história não é só um investimento da Globo para comemorar os 60 anos da emissora. Além disso, a nova Vale Tudo encontra um horário das nove cansado de apostas que não deram certo e dividiram opinião do público. A novela sucede “Mania de Você”, certamente o maior fracasso da carreira de João Emanuel Carneiro. Por isso, depois da estreia amplamente divulgada, podemos nos perguntar: vale a pena apostar em Vale Tudo?
Vale Tudo tem recontagem com mudanças sutis

Acompanhando Raquel (Taís Araújo), o público é convidado a refletir se vale tudo para vencer na vida. Maria de Fátima (Bella Campos) acha que sim, à revelia da mãe. Para quem é apaixonado por novelas, fica claro que o texto de Manuela Dias chega pedindo licença e fazendo reverências ao material de origem. Num primeiro capítulo movimentado, quase nada é alterado.
A primeira vez que vemos os protagonistas Raquel, Maria de Fátima e Ivan (Renato Goés), por exemplo, são idênticas à 1988. O aniversário de Fátima, a conversa de Ivan sobre a situação do emprego em São Paulo. Se comparar cena a cena, não vamos encontrar muitas diferenças. Porém, Dias reafirma a aposta de que os personagens são a alma de uma boa novela e nos detalhes das cenas apresenta uma nova roupagem que, em efeito borboleta, pode apresentar mudanças importantes.
Diferente de sua versão do século XX, Raquel devolve o tapa que recebe do ex-marido, no capítulo de 2025. Conversando com uma amiga, a protagonista se mostra mais esperançosa no seu próprio futuro e almeja muito mais do que sua versão original almejou um dia. Parece pequeno, mas a protagonista de Araújo é a alma e compasso moral para a trama de “Vale Tudo”. Se ela mudou, mesmo que um pouco, significa que tudo a seu redor também muda.
Bella Campos com certeza foi a atuação mais prevista da história da internet. Antes mesmo do lançamento da novela, muitos já comentavam o desempenho da protagonista. Na prática, o que pôde ser visto foi uma boa troca com César (papel perfeito para Cauã Reymond) e um nível de falsidade nas atitudes digna de uma personagem tão dissimulada. Num capítulo tão ensaiado como o primeiro de uma novela das nove, é o máximo de análise possível. Cenas futuras irão ditar se a escolha foi acertada ou não.
Novela com cara de novela
Principal produto de entretenimento do brasileiro, vez ou outra as novelas voltam a ser questionadas. Mesmo com tantos anos de trabalho consolidado no país, o formato do folhetim não está imune às pressões na busca por um novo público, mais jovem e que não tem consumido televisão linear. Nessa jornada, as novelas já tentaram parecer filme, série, até produto pra streaming.
Com direção de Paulo Silvestrini, o texto de Manuela Dias vai ganhar vida. O diretor tem no currículo a recente (e ótima) “Vai na Fé”. Dentre outras características, a novela das sete tinha gosto por ser assumidamente folhetim e incorporar esse formato em si. No primeiro capítulo da nova “Vale Tudo”, o público enjoado das cores e câmeras de “Mania de Você” puderam agradecer aos céus: as novelas voltaram a parecer com novela!
Há de se destacar também a trilha sonora. Nela, podemos fazer um paralelo que resume as ideias por trás dessa aposta da Rede Globo. Na playlist, clássicos como “Isso Aqui O Que É”, na voz de Caetano Veloso, assim como na versão original, são destaque. Porém, as atualizações nas trilhas de Maria de Fátima e César, por exemplo, são sintomáticas. Ora, se o sentimento de brasilidade na canção de Veloso ainda é inalterado no coração brasileiro, a “malandragem” se atualizou e modernizou-se desde então. Por isso, nada mais justo que as músicas refletirem esse cenário.


Na TV ou no streaming, o importante é assistir
Uma coisa é certa: mudou-se a forma de assistir qualquer produto. Fora da dramaturgia, esse é a maior mudança entre as “Vale Tudo”. Hoje, importa se a cena da Odete Roitman (Débora Bloch) e Heleninha (Paolla Oliveira) viraliza nas redes sociais ou não. Isso é fato. Esse fato não tira mérito da obra porque, como Beleza Fatal mostrou, existe um público novo e ávido por novelas nas redes.
Eles talvez não liguem a TV toda noite num canal de televisão aberto pra acompanhar o que os personagens irão fazer. Mas, com certeza abrem o serviço de streaming de preferência e assistem vários capítulos de uma vez, de acordo com a disponibilidade.
Pela atemporalidade da discussão “vale tudo no Brasil?”, a nova versão de um clássico pode ser, a sua maneira, também um clássico do seu tempo – como fez Pantanal (2022) tão recentemente. Em termos de equipe e condições, os astros estão alinhados. O público está de olho. Para mais respostas, vamos esperar cenas dos próximos capítulos….