Da Estante Para a TV – Dexter: Corte Final

Dexter DEPAT

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Atenção: spoilers sobre livros e série Dexter

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Dexter é uma das séries mais polêmicas dos últimos anos. Não pela temática ou pela violência, mas por ter começado como um dos melhores dramas/suspenses da televisão e terminado como um dos programas mais decepcionantes. Trilhando um caminho exemplar da primeira à quarta (e melhor) temporada, a série começou a perder o rumo no quinto ano, virando uma completa bagunça nas duas temporadas finais. Ainda assim, Dexter merece respeito, afinal, era uma das séries mais empolgantes em seus pontos altos. Além disso, o show sabia, como poucos, criar personagens complexos no decorrer de uma temporada. Grandes vilões foram criados, desenvolvidos e desconstruídos em pouco mais de dez episódios, o que prova o domínio narrativo que os roteiristas tinham sob o programa.

As primeiras temporadas de Dexter eram tão boas que inúmeros leitores e espectadores afirmaram que a adaptação televisiva era melhor que os livros originais escritos por Jeff Lindsey. Tudo começou em 2004 com o lançamento de Dexter – A Mão Esquerda de Deus, primeiro romance. Passaram-se apenas dois anos até a série ser oficializada e estrear. A primeira temporada revelou-se fiel aos personagens e aos acontecimentos descritos no livro, realizando, claro, algumas mudanças. O sucesso de público e crítica da série catapultou o autor e os livros (o segundo exemplar, Querido e Devotado Dexter, saiu em 2005). Nascia ali um dos maiores sucessos do canal Showtime e uma série de livros bem sucedida que viria a apresentar tramas completamente diferentes daquelas vistas na TV.

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A partir da segunda temporada, Dexter passou a criar e desenvolver histórias originais e independentes dos livros. Prova disso é que os personagens fixos, criados no primeiro romance, permanecem, mas todas as outras figuras importantes são criações exclusivas da TV. Lila no segundo ano, Miguel Prado no terceiro e Arthur Mitchell no quarto, por exemplo, são criações dos roteiristas da série. Jordan Chase e o “Grupo” da quinta temporada supostamente são baseados em personagens do quinto livro, mas nada fiel ou comprovado.

Algumas diferenças entre os livros e a série saltam aos olhos: para começar, Dexter é um sujeito muito mais galanteador e “social” nos romances. Na série, por outro lado, Dexter parece mais inseguro, não tendo completo tato social e não tendo a mesma facilidade com mulheres como nos livros. O personagem das páginas, por exemplo, consegue o que quer muitas vezes pela lábia afiada e pelo charme, na série as coisas não são tão fáceis e o serial killer tem que se desdobrar para conseguir certas coisas. Outra diferença está em Deb: nos livros, Deb é Deborah, enquanto na série é Debra. Ela também não se envolve em tantos problemas e relacionamentos nos romances como na série. Outra diferença considerável é que Deb descobre o hobby de Dexter logo no primeiro livro, aceitando o lado assassino do irmão. Já na série, Deb demora a descobrir a verdade, e quando descobre, já nas temporadas finais, tem dificuldades para aceitar.

Outras diferenças se estendem por personagens secundárias: Laguerta é ainda mais insuportável nos livros. Rita, amada de Dexter, permanece viva na literatura, mas seu romance com Dexter recebe muito mais atenção e espaço na TV. Na televisão o serial killer tem um filho, Harrison, mas nas páginas é uma filha, Lilly Ann. Cody e Astor, enteados de Dexter, existem em ambos os meios, mas há uma interessante diferença entre os personagens: nos livros, Cody e Astor demonstram possuir um “Passageiro Sombrio”, assim como Dex, que tenta passar aos dois o “código de Henry”.

 

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Volto a repetir: caso você não queira descobrir o final da série ou o que acontece no – suposto – último livro de Lindsey, não leia o restante deste texto.

Criticado até pelo mais devotado e otimista dos fãs de Dexter, o final da série realmente decepcionou. Em um encerramento preguiçoso e tolo, o programa não soube amarrar todas as pontas e ainda bateu o martelo com uma cena final em aberto e completamente desnecessária (tivesse encerrado minutos antes, o público ficaria com a deliciosa pergunta: será que ele sobreviveu?). Ao responder a questão, a série acabou de forma anticlimática, como se mais temporadas viessem a seguir.

Algo semelhante acontece com os livros. Com o passar do tempo, os romances de Lindsey também foram perdendo o brilho e angariando cada vez mais críticas negativas. O último livros, Final Cut, ainda inédito no Brasil, vem sendo duramente criticado pela trama tola e pelo desfecho decepcionante. Assim como a série, o livro termina em aberto; ninguém sabe se Lindsey escreverá mais livros ou se pretende encerrar a história de outra forma. Deixar a trama aberta é um artifício corriqueiro: caso Lindsey sinta saudades ou esteja atolado em dívidas, pode retornar ao personagem e escrever outro livro. Ao final de Final Cut, Dexter descobre tudo o que precisa acerca de um caso e se vê atolado em problemas e decisões equivocadas, o que o torna suspeito número um em alguns crimes. Depois de perder uma pessoa especial e se ver sem saída, Dexter aparentemente espera pela polícia que irá prendê-lo.

E assim um dos personagens mais interessantes dos últimos anos infelizmente não teve o final merecido em nenhuma de suas versões. Resta a cada fã criar para si o desfecho ideal.