Daredevil – 1×01 – Into the Ring

Daredevil

Imagem: Arquivo pessoal

Vamos deixar algo claro desde o início: Daredevil, nova série da Netflix, é sensacional. Ponto. O piloto, escrito por Drew Goddard e dirigido por Phil Abraham, é uma aula de como introduzir uma trama nova e, mais importante, um personagem icônico. Depois de um breve flashback que revela como o pequeno Matt Murdock ficou cego, Daredevil não demora em ir direto ao ponto. Nada de dramas baratos ou chavões de histórias de origem, envolvendo treinamentos e amadurecimento; o primeiro capítulo vai direto ao que importa e já revela, nos minutos iniciais, Murdock lutando contra o crime em seu uniforme inteiramente negro, ainda primário.

E se tem algo que o piloto faz bem é isso: fisgar a atenção do espectador com rapidez e facilidade. Para começar, Ben Affleck é facilmente esquecido e Charlie Cox assume a identidade de Murdock com louvor logo na primeira cena, em um breve monólogo onde o personagem expõe o seu passado em um confessionário. É uma bela cena por diversos motivos: primeiro ao escancarar a realidade irrefutável de que Murdock é humano, e não um super-herói de poderes sobre-humanos; segundo por trazer o personagem solitário mergulhado em sombras e se abrindo a um padre, um desconhecido que substitui a família e os amigos que Matt não tem; e, finalmente, por revelar o quão talentoso é Charlie Cox. Qualquer receio em relação à competência do ator morre já na primeira cena. Além disso, o episódio não demora em mostrar o “projeto” de Demolidor em ação, o que nos leva a outra qualidade inquestionável da série: as cenas de ação.

Coreografadas com precisão, as lutas vistas neste primeiro episódio são empolgantes e muitíssimo bem filmadas. É raro hoje em dia, tanto na TV quanto no Cinema, vermos lutas tão bem ensaiadas e dirigidas. Enquanto a maioria dos combates não convence devido à artificialidade, as brigas em Daredevil são cruas e violentas. Além disso, grande parte dos diretores insiste em dirigir as cenas de ação de modo caótico, com câmera inquieta e edição repleta de cortes rápidos, que impedem o espectador de entender completamente o que está acontecendo. Abraham (um dos principais diretores de Mad Men), por outro lado, mantém sua câmera bem posicionada e sem muitos cortes, permitindo que possamos assistir tudo com clareza, e a luta sob a chuva vista no piloto prova a qualidade de direção, edição e fotografia da série.

Fotografia, aliás, garante um visual impecável a Daredevil: como um bom noir, a série aposta em sombras, luz difusa e belos enquadramentos que lembram os quadrinhos das HQs. Um dos melhores exemplos dessas referenciais visuais às HQs é quando Karen Page (Deborah Ann Woll) é refletida nas lentes dos óculos de Murdock. Outras cenas interessantes são aquelas onde vemos Foggy e Murdock separados por algum elemento cênico, o que pode sugerir uma eventual fissura e término da parceria entre os dois. Pode ser que nada aconteça e a dupla siga firme e forte, mas não deixa de ser curioso que essa “separação” seja sugerida mais de uma vez durante o episódio.

Daredevil colagem mix de série

Imagem: Arquivo pessoal

Page refletida na lente dos óculos, em um belo enquadramento, e os amigos Foggy e Matt constantemente separados.

Ao fim, Daredevil funciona tão bem em todas as suas propostas e abordagens que fica difícil não se viciar instantaneamente pela história de Matt Murdock. O elenco é de primeira: Cox, como já comentado, conquista a confiança do espectador logo na primeira cena; Deborah Ann Woll, além da beleza, confere uma mistura de doçura, determinação e mistério em sua Karen Page. Outro que se sai muito bem é Elden Henson, como Foggy Nelson. Funcionando como alívio cômico e principal conexão de Matt com a sociedade, Foggy é uma boa ferramenta narrativa, já que várias vezes surge contestando Murdock e fazendo com que o amigo exponha seus pontos de vista; Nelson seria, portanto, o elemento que liga o público ao complexo personagem de Matt Murdock. Para não dizer que tudo é perfeito, porém, as piadas e gags visuais não funcionam sempre, soando por vezes forçadas ou fora de contexto. Ainda assim, é um pecadilho mínimo e perdoável ante à qualidade indubitável do piloto de Daredevil.

Constatação 1: Qual será o rumo de Karen Page na trama? A moça parece esconder bastante coisa dos novos amigos Matt e Foggy. De qualquer forma, parece claro que a série seguirá as HQs e unirá Matt e Karen como casal.

Constatação 2: Qual será a fase das HQs que a série irá seguir? A clássica de Frank Miller, crua, urbana e com Elektra? O arco Diabo de Guarda, de Kevin Smith e Joe Quesada, ou a fase de Brian Bendis e Alex Maleev? Parece que o programa une as melhores características de cada uma: a pegada urbana e violenta de Miller, o contexto religioso de uma, o lado humano do herói de outra, etc. O que é certo que é que a última fase, colorida e feliz demais, criada por Mark Waid, deve ficar de fora.

Daredevil colagem easter

Imagem: Arquivo pessoal

“Incidente, é como chamamos?”, pergunta Matt sobre a Batalha de NY. A corretora responde: “É melhor do que morte e destruição caindo do céu…”. À direita, Matt treina enquanto vislumbramos o antigo cartaz que anunciava a luta de seu pai.

Constatação 3: Os produtores já afirmaram que a série tem vários easter eggs. Alguns dos mais claros são: a referência à Batalha de Nova York, vista em Os Vingadores e o antigo cartaz que anuncia uma luta entre Jack Murdock (pai de Matt) e Carl Creel. Creel, pra quem não sabe, é o Homem-Absorvente, visto na série Agents of S.H.I.E.L.D. E você, o que achou escondido?

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Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.