Daredevil – 1×02 – Cut Man

Demolidor cut man

Imagem: Arquivo pessoal

Como praticamente todas as séries de TV em suas primeiras temporadas, Daredevil desacelera no segundo episódio para tomar um ar e ir arrumando as peças do tabuleiro. Passado o frenesi do excelente piloto, é chegada a hora de ir desenhando o futuro, enquanto desenvolve os personagens já apresentados e apresenta outros novos. Em Cut Man, Drew Goddard, criador e roteirista, demonstra ter total controle sobre a história que quer contar. Não à toa, por exemplo, o Rei do Crime ainda não surgiu. Afinal, como todo bom vilão, Wilson Fisk precisa de um bom suspense antes de aparecer. Além disso, Goddard segura as pontas e não joga o Demolidor direto em cenas de ação; ao contrário, busca humanizar o herói depois que este aparece jogado e ferido em uma caçamba de lixo.

Realismo e humanidade, aliás, parecem palavras de ordem em Daredevil. Peguemos a sequência final como exemplo: em um belíssimo plano sem cortes, o diretor Phil Abraham encena um excelente combate corporal. Buscando realismo e crueza, Abraham mostra Matt/Demolidor enfraquecido e ainda ferido. A cada golpe, uma cambaleada. Chega a ser engraçado ver o herói desferir um golpe e cair em seguida, tamanha a fragilidade em que se encontra. O plano sequência, inclusive, inteiramente filmado em um estreito corredor, é impressionante. Ainda que esconda cortes visíveis (cada vez que a câmera se aproxima da escuridão, há um corte), a cena da pancadaria é excelente. É um momento tecnicamente impecável que não deve em nada para filmes como Capitão América ou qualquer outro do universo Marvel.

Por falar em Marvel, em Cut Man temos um dos elementos mais interessantes deste universo. Diferente da DC Comics, onde os heróis fazem de tudo para esconder suas identidades secretas, a Marvel tem heróis cujas identidades são reveladas a diversas pessoas a todo o tempo. Nos filmes, por exemplo, todos sabem quem é o Homem de Ferro, desde o primeiro longa metragem. O mesmo serve para o Capitão América. Existe, claro, a preocupação de preservar a real identidade (vide Homem-Aranha), mas há um desprendimento, neste quesito, nos heróis do universo Marvel. É o que começa a acontecer em Cut Man; o sujeito que tira Matt do lixo viu seu rosto, assim como Claire e Page. Em um dos arcos de Daredevil, nos quadrinhos, há essa banalização da identidade do herói, o que pode ser usado na série.

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demolidor cut man 2

Imagem: Arquivo pessoal

Quanto ao desenvolvimento dos personagens, o destaque ficou em Matt e seu e pai e Claire, a enfermeira que ajuda Matt a se recuperar. Nelson e Page aparecem relativamente pouco, mas algumas especulações já surgem: será que a série investirá em algum triângulo amoroso? Seria um tanto desnecessário, já que os dois parecem dar muito certo como amigos. Ainda assim, Karen pode ser mais um elemento que deixa Foggy e Matt em lados diferentes em uma eventual separação (como já comentado na review anterior). Durante os flashbacks, conhecemos um pouco sobre o que aconteceu com o pai de Matt, incluindo, aqui, a famosa luta contra Creel, o Homem-Absorvente. Já no presente, Matt conhece Claire (Rosario Dawson), que o ajuda a se recuperar e a arrancar informações de um sujeito à base de tortura.

Claire, inclusive, é conhecida, nos quadrinhos, como Night Nurse. Ela é enfermeira dos heróis de Nova York, ajudando-os a se recuperar e, então, voltar à ativa. Nas HQs, também, Claire tem um relacionamento com Luke Cage, que em breve também terá uma série exclusiva na Netflix. É pouco provável que haja um romance entre Matt e Claire, e espero que isso realmente não aconteça. Seria muito romance para uma série cujo foco é outro.

Assim, Demolidor dá uma desacelerada, mas mantém-se ótima. Cut Man é um ótimo capítulo por desenvolver significantemente o protagonista, além de trazer ótimos momentos (como as já citadas cenas de tortura e a de pancadaria em um corredor). E Hell’s Kitchen continua linda em sua mistura de neon e sombras. A aventura urbana, crua e realista de Daredevil continua e só melhora.

Constatação 1: Em alguns momentos, série e filme (sim, aquele com o Affleck) se encontram em pontos semelhantes. Ainda assim, o show da Netflix se sai melhor em todos os aspectos, inclusive na relação entre os Murdock.

Constatação 2: Outro elemento que é muitíssimo melhor trabalhado na série do que no filme é a sensibilidade que Matt desenvolve em outros sentidos. A série não fica repetindo e martelando o fato de que Matt é cego e tem audição aguçada, por exemplo. E a cena em que ele para e escuta os sinais vitais de uma vítima a metros de distância é excelente.

Constatação 3:O bom do vermelho é não poderem ver o sangue”.

Matheus Pereira

Matheus Pereira

Gaúcho, estudante de jornalismo e viciado em séries. Tem séries pra assistir de mais e tempo de menos. Séries favoritas? Six Feet Under e Breaking Bad.

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