Dark: viajar no tempo nunca foi tão sombrio quanto na primeira série alemã da Netflix

Imagem: Netflix/Divulgação

A primeira série de origem alemã da Netflix entrega no título a sua maior característica. Dark, criada pela dupla Baran bo Odar e Jantje Friese, é sombria e obscura do começo ao fim. Seja pela paleta de cores fria ou pelo clima claustrofóbico característico do estilo europeu de contar histórias. Aqueles que não costumam assistir produções europeias, sobretudo alemãs, certamente estranharão o ritmo lento, a construção dos diálogos, a bela fotografia ou a trilha sonora exagerada que nos guia entre a tensão e o medo, mas fica a dica: continue.

Logo nos primeiros minutos, através de uma citação de Albert Einstein, somos apresentados ao que é, de fato, o tema chave da série, a viagem no tempo: “A diferença entre passado, presente e futuro é somente uma persistente ilusão”, diz a frase do teórico físico alemão. Esse conceito de tempo e sua (não)linearidade são refletidos nos diálogos de diversos personagens ao longo da temporada. E é exatamente o “tempo” quem sustenta o principal questionamento que a série faz sobre os acontecimentos estranhos que afetam os moradores: “a pergunta não é onde, mas quando”, alerta o material promocional de Dark.

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Ambientada em Winden, uma pequena cidade alemã rodeada por florestas e que abriga uma usina nuclear, a trama que inicialmente se passa em 2019, mostra a vida de quatro famílias sendo transformadas após o desaparecimento de duas crianças. Vivendo à sombra de duas gigantes torres nucleares da usina que emprega metade da cidade, os personagens principais ostentam um ar melancólico, triste, pesado. Sensação reforçada pelo tom sempre escuro das cenas, ora noturnas, ora chuvosas. Mesmo pela manhã, o sol permanece escondido. Um lembrete de que ali todos guardam segredos: violência, traição, medo e outros dos sentimentos mais humanos.

Esses segredos e mistérios são aos poucos revelados quando a trama avança e nós somos transportados para o ano de 1986, através de um “portal” escondido nas misteriosas cavernas da cidade. Ao voltar 33 anos no passado, nós conhecemos um pouco mais sobre as angústia dos pais de 2019, conhecemos seus segredos e as escolhas que os fizeram ser quem são. É somente a partir da metade dos episódios, que nós também começamos a criar alguma afinidade com os personagens, que são muitos. Gradualmente, a história vai conectando suas pontas soltas e nós começamos a identificar os personagens de 2019 e suas versões do passado através de detalhes. O quebra-cabeça criado pelo sci-fi alemão fica ainda mais complicado, quando outro ponto da linha do tempo é revelado. Estamos agora conhecendo a mesma cidade em 1953 e a premissa da série se confirma: tudo está conectado.

Imagem: Netflix/Divulgação

Talvez o maior defeito da primeira temporada de Dark seja o de não aprofundar a história de seus interessantes personagens, o que nos faz demorar para sentir alguma conexão ou empatia por seus dramas pessoais. É preciso se sentir atraído pela temática geral da série, para continuar acompanhando os desdobramentos. O que não é uma tarefa difícil, diante da construção do clima de suspense.

Ao longo dos 10 episódios, a sensação é de que estamos sempre um passo atrás. Há sempre uma reviravolta à espreita e um segredo prestes a ser revelado. Mesmo tentando prever as consequências que uma ação acarretará no futuro, somos levados de volta à estaca zero pela forma singular com que a série trata o tema. Um dos personagens, ao falar sobre a máquina do tempo construída na história, parece mandar uma indireta ao espectador: “isso não é uma DeLorean”, referindo-se ao lendário carro criado por Dr. Brown no clássico De Volta Para o Futuro.

Comprada à sua irmã mais velha, o sucesso da Netflix, Stranger Things, Dark pode apresentar alguns aspectos deveras semelhantes à produção que já exibiu duas temporadas, seja por acompanhar um grupo de jovens crianças correndo pela floresta, ou por possuir cavernas ocultas que levam à outras dimensões, mas mantém sua identidade própria ao entregar um enredo sem espaço para alívios cômicos ou hits musicais dos anos 80. Em termos de comparações, Dark se aproxima muito mais da francesa Les Revenants, de Twin Peaks. Eu, particularmente, tive, em muitos momentos, a sensação de estar assistindo ao filme sueco Deixe Ela Entrar, de Tomas Alfredson.

Dark pode até não ser uma série para maratonar em um dia, mas você provavelmente não irá demorar para devorar a primeira temporada desse suspense original, que encerra seu primeiro ano com um cliffhinger surpreendente que lança a trama, pela primeira vez, para o futuro. Mais precisamente 33 anos à frente de 2019.

Nos resta agora torcer por um desempenho da série na plataforma da Netflix e pela confirmação de uma segunda temporada.

https://www.youtube.com/watch?v=zy0b9e40tK8

Tags Dark
Italo Marciel

Italo Marciel

Cearense, 28 anos. Jornalista especialista em Assessoria de Comunicação. Viciado em séries desde que se entende por gente e apaixonado por cinema. O cara que fica feliz em indicar uma boa série ou um bom filme para os amigos.

2 comments

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    Bruno D Rangel 21 março, 2018 at 14:56 Responder

    A série é complexa, mas excelente. Destaco como principal ponto positivo o fato de insistirem em sempre mostrar os rostos dos personagens nas diversas linhas do tempo, que ajuda demais a entender quem é quem.

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