De Volta ao Piloto: Gilmore Girls

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Um riff de guitarra, uma rua de movimento considerável no que parece ser uma cidadezinha do interior norte-americano, o dia está nublado e faz frio. Estamos em Stars Hollow, fundada em 1779. A câmera acompanha uma mulher, que vinha lá do fundo do plano, atravessar a rua, enquanto a letra da música sobe. “There she goes/ there she goes again / racing through my brain”. Ela entra no que parece ser uma lanchonete. A música continua. Um cara carrancudo está no balcão servindo café. Ele e a mulher se olham. Ela se aproxima do balcão e implora “Please, Luke. Please, please, please”. Foram as primeiras falas de Gilmore Girls, uma série que se tornaria um fenômeno cultural, arrastando uma legião de fãs, sob efeito de quantidades enormes de café e junky food, para o mundo da cultura pop.

Drama familiar criado por Amy Sherman-Palladino, em parceria com o marido Daniel Palladino, a série foi originalmente exibida entre 2000 e 2007, totalizando 153 episódios e muitas, muitas, mas muitas páginas de roteiro. Isso porque Gilmore também se popularizou pelo tamanho de seus roteiros que tinham em média de 15 a 20 páginas a mais do que os roteiros dos shows em sua mesma faixa. Não à toa todos os personagens são conhecidos pela acelerada velocidade das falas.

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E que personagens! Stars Hollow e redondezas conseguiam reunir a maior quantidade de excentricidades por m² entre Friday Night Dinners, festivais, town meetings e pelo dia a dia mesmo, com um elenco que foi da novata Alexis Bledel aos veteranos Kelly Bishop e Edward Herrmann (saudade, Richard!).

Outras marcas de Gilmore são sua trilha sonora – e seus incontáveis “La la la’s” – e a massiva quantidade de referências à cultura pop e aos mais variados temas em seu texto, dos mais obscuros aos mais politizados. Quem nunca deu um pause em um episódio para procurar quem é Flo-Jo ou qual é o plural de cul-de-sac? Até na rainha Xuxa Meneghel já falaram!

Gilmore não é só um show. “It’s a lifestyle. It’s a religion.”

Por isso o Mix vem relembrar o piloto dessa série que marcou e continua marcando gerações, sobretudo agora que todas as temporadas estão disponíveis na Netflix e quatros episódios inéditos estão a caminho (Não me canso de te agradecer, Netflix! Para quem não sabe, a série foi abruptamente cancelada na sétima temporada e deixou um rombo gigante em nossos corações). E antes que levantem os estigmas: Não. Não é série de “mulherzinha”. É série de mulherão! Mulherões, na verdade. É para todo mundo!

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Imagem: Banco de Séries

Analisando o piloto

Não diferente de um piloto de qualquer série, o primeiro episódio da jornada das garotas Gilmore se encarregou de apresentar enredo, personagens e seus traços estilísticos. Apesar de serem elementos básicos na construção de uma narrativa seriada, foram tão bem executados que se tornaram a marca da série. Falar em Gilmore é falar em relações familiares, em longos diálogos, em plano sequência e em muita música. E todos esses elementos foram apresentados no piloto, estabelecendo as premissas das séries. Falemos de cada um deles.

Gilmore Girls tem por base de seu enredo relações familiares, não apenas o núcleo Gilmore, mas toda aquela cidade. Caímos de paraquedas em Stars Hollow e nós, espectadores, éramos os forasteiros. Nós e Dean Forester, . Aquela comunidade é uma família, quem vive ali vive quase que a vida inteira. É uma cidadezinha do interior de Connecticut onde todos se conhecem. Desta forma, um grande destaque do episódio é a apresentação dos personagens. Antes mesmo de sabermos seus nomes, somos colocados diante de suas personalidades e características mais latentes. Luke, Michel, Sookie, Lane, Ms. Kim, Babbete, Morey e a própria Stars Hollow são personagens cujas histórias pregressas não são a princípio muito estabelecidas, de modo que ao longo do episódio vamos percebendo o papel de cada um naquela comunidade e na vida de nossas garotas.

Adentrando no núcleo da família Gilmore, Lorelai e Rory vivem uma vida simples, sem grandes luxos, e demonstram ter uma sintonia invejável em qualquer relação de mãe e filha (e até entre atores). É uma cumplicidade que beira o irreal! Em contrapartida, Lorelai e seus pais, os pomposos Richard e Emily, pouco participam da vida um do outro e a relação entre eles é recheada de rancor e mágoa, especialmente entre Lorelai e Emily. Está aí a grande dinâmica da série: as relações familiares geracionais e seus antagonismos. A adolescente que engravidou, não casou e decidiu criar a filha sozinha, longe do luxo dos pais. Não fosse o problema financeiro de Lorelai, e a impossibilidade de realizar os sonhos de Rory, aliada à perspicácia de Emily não teríamos a chance de nos deliciarmos com os Friday Night Dinners, e o primeiro é magistral! Sejam quais forem as feridas, aquela família fala por muitas.

O que nos leva a falar sobre o texto de Gilmore, pois toda essa carga das relações tortuosas da família Gilmore e toda a excentricidade de Stars Hollow e seus habitantes está posta no rápido, sagaz e inteligente texto. Sem contar as já citadas incontáveis referências à cultura pop e ao cotidiano para além da série.

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Imagem: Banco de Séries

Interessante notar também a quantidade de planos sequências e planos mais abertos observados no episódio, seja nas cenas externas ou até mesmo dentro das residências e estabelecimentos, dando um maior espaço para o espectador digerir as palavras que vão sendo ditas. Uma opção de linguagem engenhosa e bem aplicada diante do volume de texto. Obviamente que não só de plano sequência foi feita a decupagem do piloto e há muitas alternâncias de planos, sobretudo, durante as refeições. Afinal, a comida é o que une e atiça aquela família. Durante o episódio há grandes momentos à mesa: quando conhecemos  Rory e Lorelai,  a primeira (para nós) briga entre elas, o primeiro Friday Night Dinner e uma reconciliação das meninas. Fora que elas passam tanto tempo em casa quanto no Luke’s.

E não se podia falar no piloto de Gilmore sem falar em sua trilha sonora, outra personagem da série. Fora a paixão declarada por música de Lorelai, Rory e Lane, é canção do início ao fim embalando aquela cidade, aquele cotidiano. E a opção por uma pegada mais folk casou bem com a atmosfera bucólica de Stars Hollow. Apesar de os silêncios serem raros em Gilmore, pois ou há fala ou há música, esse é um fator que não incomoda tanto. Uma vez entregue àquele universo, você nunca mais ouvirá um “la- la-la” do mesmo jeito.

Melina Galante

Melina Galante

Produtora e realizadora audiovisual, no momento em processo acadêmico. 99% seriadora com aquele 1% noveleira. Divide as fases da vida em Buffy, a Caça-Vampiros, Gilmore Girls e Grey's Anatomy. Sua menina dos olhos, porém, é Penny Dreadful. No Mix de Séries escreve as reviews de Modern Family, Orange is the New Black, Scandal e o que vier.

1 comment

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    lucas_santtos 7 julho, 2016 at 16:12 Responder

    Sempre ouvi falar da série, mas nunca tinha parado pra ver, até que ontem finalmente assisti o piloto. Só sei que me apaixonei por Lorelai no primeiro momento e já estou vendo que será uma das maratonas mais deliciosas que farei.

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