De volta ao piloto: Heroes

Um eclipse solar é capaz de mudar tudo. De pessoa comum, você se torna uma pessoa extraordinária. Com direito a poderes que podem salvar a humanidade. Não só você, mas vários outros espalhados em diferentes partes do mundo. Todos despertam, se chocam e se indagam, mas nada impede a transição. Um redescobrimento que interliga você a um grupo não apenas pela implosão de poder. Mas pela missão que une desconhecidos e os tornam incríveis.

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Há muito o que se pensar e sentir sobre Heroes. Ainda bate uma nostalgia, sinto tudo que senti em 2007-2008, anos reais em que entrei em contato com esse universo. Para mim, foi como encontrar um livro, julgá-lo pela capa e depois de algumas folheadas não conseguir largá-lo. O vício que a série provocou nos fãs sempre será intraduzível, pois não queríamos apenas ser como os personagens. Queríamos todos ao nosso lado o tempo inteiro. Lembro-me dos dias em que saía da locadora com as temporadas embaixo do braço, like a boss! Bons tempos…

A série foi uma sensação e segurou esse status até o último suspiro graças a Tim Kring, o criador, que humanizou seu elenco de super-heróis e garantiu a experiência de assisti-la como se lêssemos quadrinhos. Heroes reacendeu a chama da NBC que não presenciava um sucesso televisivo em sua grade há muito tempo. Sem contar que foi um novo sopro para esse tipo de narrativa, pois, na maioria dos casos, o que se tinha nesse gênero era X-Men.

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O que mais amei em Heroes foi a falta de uniformes e de identidades secretas. O segredo era apenas o poder, o que chamou a atenção por ser muito semelhante ao mundo de X-Men. O famoso despertar de uma habilidade especial sinaliza perigo e força a necessidade de qualquer um nesse quadro se esconder e sentir vergonha de si mesmo.

E gosto dessa dramática. Meu Deus, como gosto!

Quando revi o piloto – pela milésima vez – para escrever este post, foi como se o visse pela primeira vez. Fui arrematada. Suspirei. Surtei. Fiquei assombrada incontáveis vezes e emocionada. A trilha, o prólogo, a introdução de cada personagem, os quadros do Isaac, os óculos icônicos de Noah Bennet… Detalhes que ainda mexem com o imaginário e que marcam uma das características principais de Heroes: tornar objetos, trejeitos, roupas as assinaturas de cada herói. É difícil desvincular, por exemplo, o uniforme de líder de torcida da Claire (save the cheerleader, save the world!).

A mitologia do piloto de Heroes é fascinante e esse primeiro olhar foi extremamente provocador. Nada estarrecedor acontece de início, o que nos deixa com água na boca sobre o que virá a seguir. Há muita expectativa com relação aos poderes e como cada um lidará dali por diante com tamanha responsabilidade. O ver para crer está enraizado do começo ao fim deste episódio, que se apoiou na confusão, no medo, na paranoia e na negação de dormir e acordar como uma pessoa detentora de superpoderes.

É tudo muito sensitivo. Você quer entender a agonia. O medo. O receio. O agridoce dessa súbita transição. Impressões e sentimentos que acompanham Heroes até a 4ª temporada.

O piloto (e a série em si) usa o mundano como ponto de partida e aprofunda o background de cada herói. Há a missão, a tramoia que move os personagens, mas, no fim de cada episódio, queremos a superação. Queremos saber como aquelas pessoas voltarão para casa cientes de que sua realidade não é igual a do vizinho ou dos amigos da escola. Como conseguirão sobreviver nessa vida dupla.

Acima de tudo: como sobreviverão com algo que não pode ser revelado.

Analisando o piloto

 

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Heroes se dividiu em volumes a cada temporada e o da primeira se chama Genesis. O piloto (de mesmo nome), de quase 1 hora de duração, nos brinda com a introdução dos personagens principais e de como lidam com a manifestação de seus poderes. É impossível não se envolver logo de cara com essas pessoas ordinárias que mal sabem o que está por vir. Queremos conhecê-las. Queremos saber como elas se tornaram poderosas.

Além da sacada dos volumes, a série viajou o mundo e trouxe vários recortes da vida pessoal daqueles que fariam parte desse grupo. Porém, o que finca a mitologia de Heroes é a energia de um evento que se revela como o símbolo desse universo: o eclipse solar.

Cena a cena, assistimos o despertar desses personagens. Nos primeiros minutos, temos um prólogo que logo ganha a voz de Mohinder que se entrelaça na dramática de Peter Petrelli. Uma lentidão que foca no conflito de um herói que sonha com algo que está prestes a se tornar realidade. Vemos o tímido enfermeiro no topo de um prédio, deixando no ar se seria uma tentativa de suicídio, abrindo os braços, prestes a saltar.

O despertar de Peter lá em New York logo nos leva a conhecer Mohinder, o narrador, na Índia. Ele é um professor apaixonado por tudo que envolve genética e acredita que a humanidade está prestes a testemunhar a evolução do genoma humano em um parâmetro deslumbrante. Sério, me debato toda vez com essa cena – de amor profundo.

Mohinder é aquele que acredita piamente nas pesquisas do pai que aborda um tal gene especial que explica a capacidade de um humano ter superpoderes. No caso, teletransporte, regeneração celular, voo, controle do tempo, etc.. Assim, logo se revela que ele é uma fonte de atrito por salvaguardar arquivos que compõe esse estudo. Um prato cheio para o vilão que estremece a série antes de Sylar dar uma cafungada na nossa nuca: Noah Bennet.

O mistério em torno de Noah é controlado com maestria no piloto. Um deleite. Uma tortura já que ele é entregue aos poucos. Os icônicos óculos e a voz maliciosa são os detalhes que precisamos guardar até o momento em que o personagem se revela por completo. Ele age na penumbra, se esconde nas sombras. Um cara que dá medo só pela silhueta.

Heroes também não economizou no bom humor. Obviamente que a referência é para Hiro e Ando, e pergunto quem não passou anos gritando Yatta! quando alguma coisa dava certo. Perdi as contas de quantas vezes paguei esse micão, me achando a melhor pessoa do universo.

 

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Ao contrário de Peter, que se mostra ao longo do piloto o mais sensitivo com relação às mudanças que não estão muito claras (mas são inquietantes), Hiro traz a convicção de que é especial e que tem poderes. Esse personagem reconhece sua habilidade de parar o tempo e de se teletransportar, e passa o episódio tentando se provar para o melhor amigo. Nesse núcleo, se firmou outra preocupação da série: respeitar a cultura de cada herói.

O piloto de Heroes trabalha muito as impressões sobre o que acontece, o que fortalece a dramática da transição. Enquanto um personagem só sentia e outro tinha certeza, ter espaço para a paranoia era praticamente uma obrigação. Quem trouxe isso foi Niki Sanders, minha heroína favorita e rainha com todas as suas personalidades.

Ela surge com uma realidade diferente dos que virão a ser seus companheiros de jornada, batalhando para manter o filho de uma forma que não acha digna. Seu lifestyle nos golpeia por causa da vida dupla de uma mãe prestes a ter um colapso nervoso. Não só isso: de ter uma personalidade rachada em várias facetas.

Bastou uma espiada no espelho para sacarmos que Niki é mais do que especial. Seus sentimentos oscilam em momentos de pressão e ela tem a facilidade de se desprender de si mesma quando é consternada. Da mãe protetora, ela sabe ser uma mulher visceral para se proteger e proteger Micah. Um tremeluzir que começa com brigas contra o próprio reflexo, o chamariz que poderia apenas resultar em um problema de saúde mental.

Em contraste, temos Claire Bennet, o coração de Heroes. A líder de torcida simbolizou o inconformismo das mudanças e aclamou inúmeras vezes o adjetivo típico de uma descoberta dessas: aberração. Enquanto Peter acha que pode voar, Hiro insiste que para o tempo e Niki dribla a paranoia, a adolescente conflita com a negação. Impossível esquecer das filmagens que sinalizariam não só início da sua história, como seu término lá na 4ª temporada.

Claire é a única que sente o drama dos seus poderes na prática. Enquanto os demais personagens parecem confusos, interessados ou amedrontados, a líder de torcida passa o piloto duelando com o que já é palpável: sua regeneração. Para piorar, descobrimos que a personagem quer saber quem são seus pais verdadeiros, o que planta a dúvida do como foi parar na aba do não confiável Noah, o cara que, à primeira vista, não curte essa ladainha de pessoas especiais.

 

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O episódio conclui do jeito que começou: Peter salta do prédio. Porém, quem brilha antes desse acontecimento são as pinturas proféticas de Isaac, outro herói que acha que está maluco, mas prevê o futuro. A imagem de Petrelli vem entoada com um “temos que impedir”, uma mensagem que será compreendida quando Sylar entrar em cena – e que tem sua menção honrosa por meio de uma fita no escritório do pai de Mohinder.

Enquanto Nathan dispara no ar, ficamos na dúvida se todas as pinturas de Isaac realmente podem ser levadas a sério. Uma ponta frouxa que nos faz retornar para o 2º episódio.

O que mais gosto em séries como Heroes é o embate dentro do tema aceitação. Além disso, valorizo escritores que humanizam personagens, independente de ser gênero sobrenatural ou ficção científica. Dependendo da ambientação, essa proximidade com o real é necessária, pois dificilmente caracterizações robóticas, que tudo podem, vingam.

Tenho uma ligação muito forte com pessoas comuns que se tornam extraordinárias. São esses tipos de super-heróis que me identifico. Há algo alucinante em vê-los sair da zona de conforto rumo a algo maior que eles mesmos. É incrível ver como todos sentem e vivem a aflição de serem quem são e duelam, a cada tranco, com o que se transformam.

E o piloto de Heroes é sobre isso: transformação. O que se segue são altos e baixos que fomentam vários tipos de caráter, desde a criança que descobre sua afinidade com máquinas até o adulto que é capaz de destruir um gene da evolução que seria muito bem-vindo em salvar a humanidade. No fim, queremos saber como todos se encontrarão e se de fato chegarão a proteger o mundo em que vivemos.

Ainda bem que essa saudade será aniquilada com Heroes Reborn. Corram para saber o que rolará aqui e não deixem de acompanhar as resenhas no Mix.