De volta ao piloto: Lost

Imagem: ABC

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Os olhos de um homem se abrem. Deitado em meio a um bambuzal, o sujeito vê um cão se aproximar e se esforça para se levantar. Enquanto isso, a música espetacular de Michael Giacchino ressoa, tensa e assustadora. Os primeiros minutos do episódio piloto de Lost resumem com precisão a impressionante temporada que se estenderia por mais 23 capítulos. Misteriosa, a série já começa em meio ao caos e ao cenário desconhecido. Assim como o homem – Jack, como somos apresentados à frente –, o espectador não sabe onde está, nem o que está acontecendo.

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Jack, então, corre. Um tênis branco aparece pendurado em um bambu. O protagonista então chega a uma praia. Água límpida, céu azul. Mas algo está errado. Alguns gritos começam a surgir e a quebrar a momentânea surdez do homem. Ao dar mais uns passos, o choque toma conta: o avião em que Jack estava caiu. Pessoas pedem socorro, outras parecem mortas, penduradas em suas poltronas. O caos está instalado e Lost acabara de conquistar a atenção e audiência de milhares. Nascia ali, no piloto dirigido com brilhantismo por J.J. Abrams, um dos maiores fenômenos que a televisão presenciou.

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Lost Colagem 1

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Goste ou não, é preciso assumir: Lost é um marco inegável na história recente da TV. A famosa Era de Ouro que a televisão está vivendo, por exemplo, germinou e se intensificou com a série. Sim, séries como 24 foram importantíssimas para o crescimento da produção televisiva em TV aberta, mas nada foi tão gigantesco como Lost. O único programa que pode ser comparado é Arquivo X, que foi sucesso absoluto em um era que antecedeu a internet. A web, aliás, foi fator decisivo no sucesso de ambas as séries. Enquanto o show de Mulder e Scully pegou a “rede” nos primeiros passos, Lost se beneficiou com a popularização da internet em diversos países ao redor do globo. A tão famosa “globalização” foi um catalisador no sucesso do programa que ultrapassou as barreiras norte-americanas. A série não era exclusiva dos ianques, já que vários fãs em diversos países tinham acesso aos episódios.

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Claro que não com a velocidade que temos hoje. Atualmente, um episódio vai ao ar nos EUA e poucas horas depois já está na rede, pronta para download. Esperando mais um pouco, você terá legendas perfeitas para uso. Na época, que parece distante, mas não é tanto assim, Lost começava a desfrutar dessas “vantagens”. Os episódios chegavam à internet e permitiam que inúmeros fãs debatessem teorias e cenas inteiras. As próprias legendas “amadoras”, feitas por fãs e disponibilizadas em sites especializados, sucesso hoje em dia, começaram basicamente com Lost, já que ninguém poderia esperar pela legenda oficial em DVD ou na TV. A série era viciante, e os fãs tinham que dar um jeito de assistir tudo o quanto antes.

Lost, então, foi a precursora de muito do que vemos hoje. Muitos seriadores começaram suas carreiras – leia-se: obsessão por séries – com Lost. Eu, por exemplo, comecei a assistir séries de TV com afinco depois dela. Tudo começou quando aluguei a primeira temporada em DVD e assisti tudo em dois ou três dias. Depois dali, mais e mais séries vieram, mas Lost sempre foi e sempre será a primeira de todas. O primeiro amor, digamos. Com todos os seus pontos positivos e seus inegáveis defeitos.

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Analisando o Piloto

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A construção de tensão e a apresentação de personagens no Piloto é impecável. J.J. Abrams, além de ser um mestre na direção de cenas de ação, sabe muito bem conduzir seus atores e levar o texto às telas. Jack, por exemplo, não demora a se destacar como líder do grupo e pessoa racional, não só ao salvar passageiros, mas ao dar ordens e dicas para alguns desesperados. Kate, em seus primeiros minutos em cena, surge esfregando os pulsos, dando uma dica sobre quem ela é: prisioneira, a morena viajava algemada, o que a machucou. Além disso, vemos Charlie andando desnorteado e procurando alguma coisa (drogas?), Jim gritando o nome da esposa e Michael procurando pelo filho Walt. São inserções sutis e certeiras que nos apresentam elementos básicos: o fato de Kate ser um detenta a persegue durante toda a temporada, Charlie tem problemas com drogas, Jim é possessivo e não pode ficar longe da esposa e Michael passa o tempo todo procurando por Walt e tentando ficar perto do filho.

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Lost Colagem 2
Indícios do que aconteceria dali para frente: Jim procura a esposa, Charlie anda desnorteado, Michael procura pelo filho, Kate tem dores nos pulsos e Sawyer caminha solitário pelos destroços do avião.

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Assim, o primeiro episódio de Lost é fantástico por estabelecer diversos fatores importantes para o transcorrer de toda a trama, provando que os roteiristas sabiam o que estavam fazendo e tinham praticamente tudo planejado. É interessante, por exemplo, os simbolismos claros em algumas cenas: Kate conhece Jack quando este está ferido. O sujeito, que é médico, pede para a estranha que lhe costure um ferimento nas costas. A mensagem é óbvia: Kate é a cura de Jack, a pessoa que irá curar suas feridas e ampará-lo em momentos de fraqueza. Vemos também Sawyer caminhar sozinho pelos destroços do avião e Locke sentado na beira do mar, contemplando o horizonte. Além disso, temos Hurley, o gordinho simpático que, apesar de atrapalhado, tenta ajudar sempre, o que já antecipa o seu destino com “guardião” da Ilha.

O piloto, então, funciona incrivelmente bem ao apresentar os personagens gradativamente, bem como o cenário: a Ilha. Lost começa, portanto, como uma história de sobrevivência em um ambiente desconhecido. Não demora, porém, para o programa mostrar sua real faceta: este é um drama sobre pessoas perdidas (literal e metaforicamente falando) e suas relações interpessoais. O primeiro flashback da série – algo que se tornaria uma das marcas do show – mostra Jack no avião enquanto conversa com Rose, outra passageira. De repente o avião passa por uma turbulência, se parte em duas metades e cai em direção ao oceano. A sequência – brilhante, diga-se – não nos conta muito sobre o protagonista, mas já nos apresenta a ideia de que teremos sempre um personagem central em cada episódio e que veremos alguns flashbacks que nos mostrarão como as coisas eram antes do acidente.

Estão lá, firmes no piloto, a trilha sonora cheia de tensão, a abertura que traz o nome da série em letras brancas emergindo da escuridão, o início da relação entre os personagens, alguns indícios do que veríamos adiante e os mistérios. O que era aquilo que derrubava as árvores e fazia um barulho ameaçador? Onde estava a outra parte do avião? Que ilha era aquela? Outros elementos fortes que já surgem no primeiro capítulo são: os números (principalmente 4, 8, 15, 16, 23, 42), o conceito de branco e preto (bem versus mal, referenciados nas pedras de Locke) e os olhos. Sim, os olhos. O episódio começa com o olho aberto de Jack, e vários episódios no decorrer do programa começam com os olhos de algum personagem em primeiro plano. Uma curiosidade é que a Ilha é chamada de Eyeland pelos roteiristas e há a famosa fala de Locke: “Eu olhei dentro dos olhos desta ilha. E o que eu vi era lindo”.

Pois eu olhei nos olhos destes vários e inesquecíveis personagens, e o que vi, no transcorrer de seis anos, foi lindo.

Alguns apontamentos finais:

#1 – Os Números aparecem em alguns momentos: Jack diz que ao menos 48 pessoas sobreviveram. Jack estava na poltrona 23 do avião. A menina da história triste de Jack tinha 16 anos. 8 é o número de vezes que Jack bate na porta da cabine para ela abrir. Haviam se passado 16 horas desde que o acidente aconteceu até o piloto acordar semi-consciente.

#2 – O único ferimento de Locke é uma cicatriz em seu rosto, no lado direito, na região do olho. É comum que vilões sejam misteriosos e possuam uma cicatriz ou marca no rosto. Pois quem assistiu toda a série sabe os caminhos tomados por John.

#3 – O nome do episódio não se dá apenas por ser o primeiro, mas também tem relação ao piloto do avião, que é a primeira vítima conhecida do monstro de fumaça.

#4 – Orçado em quase 12 milhões, é um dos pilotos mais caros da história.

#5 – Jack deveria morrer no início da série, mas os roteiristas desistiram da ideia e o transformaram no protagonista definitivo.

#6 – O episódio Piloto, sozinho, venceu os Emmy de Melhor Direção, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Edição e Melhores Efeitos Especiais.

#7 Lost estreou no dia 22 de setembro de 2004. Exatamente dez anos após a estreia de ER – Plantão Médico, que deveria estrear, oficialmente, no dia 22 de setembro de 1994, mas chegou às telinhas no dia 19 do mesmo mês. Por que isso é muito curioso? Bem, além de ser uma curiosidade numérica – e os números são importantes –, esta coluna, De Volta ao Piloto, teve sua estreia com um texto sobre… ER – Plantão Médico!!! O texto “piloto” da coluna, escrito pelo Narciso, você pode ler aqui.