Vou ser direto: Dele & Dela é aquele tipo de série que a Netflix vinha devendo há um bom tempo. Não porque falte produção, elenco ou dinheiro, mas porque faltava coragem narrativa. Coragem de incomodar, de dividir opiniões e, principalmente, de não tratar o público como alguém que precisa de tudo mastigado. Em 2026, finalmente, a plataforma começa o ano acertando em cheio.
Baseada no livro de Alice Feeney e adaptada por William Oldroyd, Dele & Dela até pode parecer, à primeira vista, mais um thriller de prestígio sobre assassinato, segredos e mentiras. Mas isso dura pouco. Muito pouco. A série rapidamente mostra que está interessada em algo bem mais desconfortável: culpa, luto, raiva feminina e o quanto a sociedade prefere ignorar certos tipos de dor.
Um thriller que não quer agradar todo mundo
A história parte de um crime aparentemente clássico: Rachel é encontrada morta em uma cidade pequena da Geórgia. O caso cai nas mãos do detetive Jack Harper, enquanto Anna Andrews, sua ex-mulher, decide usar o assassinato como porta de entrada para reconstruir a própria carreira no jornalismo. O detalhe é que ambos desconfiam um do outro. E essa desconfiança nunca é gratuita.
O grande mérito de Dele & Dela está em não escolher um tom confortável. A série oscila entre o melodrama, o suspense psicológico e momentos quase perversos de ironia. E sim, isso incomoda. Mas incomoda porque é intencional. William Oldroyd não quer que você se sinta seguro em nenhum momento. Ele quer que você questione suas próprias certezas, inclusive morais.

Tessa Thompson está absurda de boa
É impossível falar da série sem destacar Tessa Thompson. Anna é uma personagem difícil de gostar, e isso é um elogio. Ela é contraditória, autocentrada, ferida e, muitas vezes, cruel. Thompson entende isso perfeitamente e nunca tenta suavizar a personagem para torná-la “palatável”. Pelo contrário: ela encara cada silêncio, cada olhar torto e cada decisão questionável com uma entrega impressionante.
Ao lado dela, Jon Bernthal constrói um Jack instável, impulsivo e longe do arquétipo do policial confiável. A dinâmica entre os dois é sufocante, carregada de ressentimentos mal resolvidos e de uma dor que nunca foi realmente elaborada. É um duelo emocional constante, e a série cresce justamente nesses embates.
O verdadeiro tema não é o crime
Quem entra em Dele & Dela esperando apenas um “quem matou?” vai sair frustrado. E ainda bem. O assassinato é só o ponto de partida. O que a série quer discutir é o que fazemos com traumas que nunca cicatrizam. Como algumas pessoas seguem em frente e outras transformam a dor em algo corrosivo, silencioso e perigoso.
A série fala sobre mulheres que foram ignoradas, desacreditadas ou descartadas. Fala sobre a facilidade com que a sociedade subestima quem parece frágil, doente ou irrelevante. E faz isso sem discursos fáceis, sem trilha emocional empurrando sentimento goela abaixo. Quando o choque final chega, ele funciona justamente porque a série confia na inteligência do espectador.
Dele & Dela tem um final que não pede aplauso, pede silêncio
O desfecho de Dele & Dela é daqueles que fazem você ficar parado, olhando para a tela, tentando reorganizar tudo o que acabou de ver. Não é um final “satisfatório” no sentido tradicional. É perturbador. E é exatamente por isso que funciona tão bem.
Em um catálogo cada vez mais inflado de séries esquecíveis, Dele & Dela se destaca por ter identidade, risco e personalidade. Pode não ser perfeita. Pode dividir opiniões. Mas é viva, inquieta e, acima de tudo, memorável.
Se 2026 começou assim para a Netflix, dá para dizer sem medo: Dele & Dela é o primeiro grande acerto do ano. E daqueles que ficam na cabeça muito depois do último episódio.