Kevin Spacey e a cultura do assédio sexual: as vozes das vítimas precisam ser ouvidas

Imagem: Netflix

Nas últimas semanas, estamos vendo um enxame de alegações de abuso sexual e assédios do mais variados tipos em Hollywood. Casos como o de Harvey Weinstein e, mais recente, de Kevin Spacey, refletem que a cultura do abuso e do assédio está impregnada em nossa sociedade como algo comum. O resultado disso tudo, infelizmente, é que casos como estes estão longe de terminar.

Kevin Spacey viu sua carreira ir por água baixo em apenas sete dias. Desde o último domingo, quando a entrevista de Anthony Rapp foi publicada com as alegações de assédio sexual, até o surgimento de novas acusações por parte de integrantes da série House of Cards, e até mesmo a sua “desculpa” pública, quando colocou a culpa na bebida e na sua orientação sexual… Graças à normalização dessa prática, é que homens como Kevin Spacey e Harvey Wenstein passaram anos praticando abusos e assédios sexuais. E claro, não me refiro apenas a homens poderosos como eles, que ainda possuem essa vantagem e a usam de todas as formas, mas a cultura do assédio está enraizada em qualquer classe e isso é um triste sinal.

Mesmo com toda a força que essas exposições estão ganhando, ainda não as vejo como um “ultimato” para tais práticas. Em Hollywood, nos Estados Unidos, no Brasil, na nossa rua… Em qualquer lugar, ainda existirão seres humanos que realizarão a prática do assédio e do estupro porque ainda é algo banalizado. Ainda é muito tênue a linha que divide aquilo que é consensual e a ofensa, a permissão e a forçação, pelo menos na perspectiva destas pessoas. E a ameaça, o medo e a falta de coragem de que as pessoas não acreditem são as grandes aliadas destes opressores.

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Kevin Spacey viu sua carreira jogada no lixo em apenas alguns dias, mas diria que isso é apenas reflexo de atos que ele vem acumulando ao longo de mais de vinte anos (ou, se bobear, até mais). Teria ele pensado nos danos que ele causou para as pessoas das quais ele abusou? Fisicamente e psicologicamente? Para ele, claro, estava tudo bem. Mas para as vítimas não. Traumas como o de Rapp, que carregou por mais de 20 anos o dia em que Kevin Spacey o assediou, é que devem ser impedidos.

O que me envergonha, enoja, ou mesmo me deixa triste, é ver um ator que admirei por tantos anos, pelas obras, conquistas e trabalhos, ter sua figura manchada por um ato como este. Saber que tudo isso que ele conquistara, incluindo prêmios e prestígio, foi a base deste tipo de prática. E cada vez que ele mais ganhava prestígio, respeito e admiração nossa, mais ele ganhava força para praticar tais atos. E aí, vinha a questão: se Kevin Spacey praticava tais atos, ele usava sua fama e seu poder para oprimir suas vítimas. “Ninguém vai acreditar se você disser“, ou “Eu posso mandarem te demitir“, são frases cotidianas para tais eventos. E isso é vergonhoso.

A cultura do estupro, do abuso e do assédio precisa ser discutida e principalmente ouvida. Deixarmos de pensar a versão do “mas será que é mesmo verdade?”, e defender mais o “ele não pode fazer isso, você precisa denunciá-lo”.

O que aconteceu com Kevin Spacey, em minha opinião, é pouco e nada mais que justo. É o reflexo que o mundo precisava ver de que tais práticas precisam enfrentar suas consequências. Mas apesar de empresários se demitirem, ou da Netflix alegar que não vai mais trabalhar com ele, precisamos nos atentar que só isso não basta. Precisamos lutar, precisamos ouvir, precisamos impedir. Que tudo o que vem acontecendo com Spacey sirva de lição para que estejamos alertas e prontos para despertamos essas vozes, que não podem ser banalizadas em qualquer circunstância.

Ao fim da cultura do estupro e do assédio. À prática da denúncia e das consequências para estes praticantes.

Anderson Narciso

Anderson Narciso

Criador, editor e redator do site Mix de Séries, é apaixonado por séries desde sempre. Fã incondicional de One Tree Hill, ER, Friends, e não perde um episódio da Franquia Chicago.

2 comments

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    • Anderson Narciso
      Anderson Narciso 6 novembro, 2017 at 15:08 Responder

      Não Amorim. Então quer dizer que se ele fizesse isso à uma mulher estaria tudo bem? Dispenso pensamentos homofóbicos como o seu!

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