Diretor de Bates Motel explica como foi refazer clássica cena de Psicose

Imagem: Radio Times

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Vencedor do Emmy de Melhor Fotografia pelo episódio piloto de Mad Men, o diretor Phil Abraham, que vale destacar, foi responsável pela épica cena de luta de Demolidor feita em apenas um take, isto é, sem intervalos, é um dos diretores desta última temporada de Bates Motel. Às vésperas do início da produção da nova série militar do NetGeo, The Long Road Home, onde ele é produtor executivo e diretor de cinco dos oito episódios da primeira temporada, Phil Abraham conversou com o The Hollywood Reporter sobre como foi recriar a icônica cena do chuveiro de Psicose, trabalhar com a cantora Rihanna e entre outras curiosidades.

The Hollywood Reporter Você já trabalhou em Bates antes, então sabe como que as coisas funcionam, mas qual foi a sua reação quando recebeu o convite para dirigir não apenas uma, mas duas cenas de chuveiro?

Phil Abraham | Eu amei! Você está brincando? Foi a principal tarefa do ano passado pra mim. Foi muito bom e eu fiquei muito grato por Carton [Cuse] e Kerry [Ehrin] por terem me chamado para esse episódio. Foi muito divertido, mas também estressante porque você está pensando, “Como que eu vou fazer isso e o que eu farei?” Eu não queria simplesmente copiar, mas ainda sim é uma peça única de história que você tem que tomar muito cuidado. No minuto que as pessoas escutam sobre uma personagem chamada de Marion Crane e ela está fazendo uma reserva no hotel, todos dizem, “OK, aí vamos nós!” É de propósito que Bates tenha se jogado com tanta força nessa narrativa, sendo uma prequel de todas as formas. Nós finalmente estamos chegando onde o filme estava, mas então nós desviámos novamente, indo além porque é muito bom termos uma semelhança com Psicose, mas também ter uma identidade separada.

The Hollywood Reporter | E isso, com toda a certeza, faz uma total inversão da cena original do chuveiro, que foi feita para que os telespectadores não pudessem antecipar o que iria acontecer.

Phil Abraham | Com toda a certeza. É uma completa inversão daquilo, porque você apenas sabe o essencial. No momento que ela dá entrada no hotel, o telespectador já está sorrindo por imaginar o que está perto de acontecer. Eu acredito que a “surpresa” não é que Marion encontrará o seu fim, mas sim o que faremos até chegar lá.

The Hollywood Reporter Ao invés disso a primeira cena acontece como uma piada. Você está construindo uma certa narrativa cômica, diferentemente de horror de assassinato. Como que esse fator entra na construção?

Phil Abraham | Eu penso que mata-la teria sido simplesmente uma “Pálida imitação de Hitchcock,” o que eu acredito que ninguém queria fazer. Recriar aquilo com ela? Isso me parece a ideia equivocada. Então você está jogando com as expectativas e estamos mudando algumas coisas. Enquanto a série colide com o filme, nós também queremos dar a nossa visão dos fatos. É muito melhor fazer dessa forma ao meu ver. Se eles tivessem dito, “OK, agora Norman aparece e brutalmente assassina Marion no chuveiro,” aí eu pensaria, “Meu Deus, o que eu faço agora?” Porque estaríamos simplesmente recriando essa cena. Ao invés, nós recriamos e elevamos o nível para que pudéssemos brincar com essa história de expectativas.

The Hollywood Reporter | A sensação é que Hitchcock era o único que conseguia fazer aquelas coisas e mesmo assim não ter nenhum problema, pois era tudo em preto e branco e o sangue não ficou tão aparente. Qual foi a sua abordagem quanto ao banho de sangue, particularmente sob o aspecto de como vocês queriam que Norman se recuperasse?

Phil Abraham | Eu queria espalhar sangue para todos os lados. Se Norman chegou ao ponto que chegou com Sam portando uma arma daquele tamanho, bastante similar àquela que o personagem tinha no filme, então teríamos sangue em todo o lugar, então porque deixar de lado? Porque pretender que não aconteceu? Sinceramente, respigar Freddie daquela forma não foi algo que eu inicialmente planejei, mas no decorrer do processo, seria muito mais interessante realizar daquela forma. Foi muito divertido para mim, porque eu estava do lado do balde de “sangue” que usaríamos na cena.

Nós também tínhamos essa ótimas lentes que nosso assistente de câmera, Dean Friss, conseguiu da Panavision [empresa de tecnologia que fornece para Hollywood] que eram lentes de 40mm T1, então eu tinha os melhores materiais à disposição também. Os enquadramentos de Freddie têm um plano de foco tão tênue que criou uma certa abstração no processo de fotografia, o que eu realmente gostei muito.

The Hollywood Reporter Falando em Freddieele fez sua própria aula de atuação enquanto estava olhando para Marion na construção da primeira cena do chuveiro?

Phil Abraham | Absolutamente, Freddie estava lá em todos os momento. Não há necessidade para chamarmos outra pessoa além dele. Ele tem uma capacidade para fazer tudo, sempre esteve lá em todos os momentos, a cada chamada. Nós não realizamos isso como uma forma de introdução, filmamos aquilo pra valer e há partes onde você consegue ver todas as expressões de Freddie. Ele é muito bom nisso.

The Hollywood Reporter | Sabe-se que Hitchcock gravou a cena do banheiro durante sete dias. Quanto tempo vocês levaram? 

Phil Abraham | (Risos). Ah, eu odeio ter que lhe falar isso. É assim que as coisas acontecem. Primeiramente, estamos numa série de TV, aí conseguimos a Rihanna, para ambos os episódios, por apenas cinco dias. Tínhamos mais de 38 páginas de roteiro para trabalhar com ela. Foi um trabalho de organização sensacional, desde Nestor Carbonell [diretor do quinto episódio da temporada] até eu em como usá-la e maximizá-la em todas as suas cenas e aí eu penso que no dia seguinte que ela foi embora, nós terminamos com Sam no chuveiro. É assim que as coisas funcionam. Foi tudo planejado com muita antecedência e também tínhamos o template de como a cena do chuveiro funcionaria pra gente. Há um grande benefício em dizer, “Eu não estou criando algo engessado, então nós sabíamos onde ir e o que fazer.” Esse aspecto nos ajudou bastante.

The Hollywood Reporter É interessante porque quando eu assisti pela primeira vez, minha primeira reação foi de que estava muito parecido com o original, mas quando eu assisti novamente após conferir a cena do filme, fiquei com a sensação de que as coisas ficaram levemente diferentes.

Phil Abraham | Essa é a “graça” disso tudo. A verdade é que os telespectadores querem que seja igual, mas não é tão parecido assim. Você quer saber? Não tem porque ser a mesma coisa. Gus Van Sant lhe dirá isso com o exercício dele. Não pode ser igual. Nós olhamos para as coisas com lentes diferentes. Não importa o que seja, você é um produto do seu tempo. Mesmo que você queira e pensa que está recriando algo para que seja exatamente igual, é muito complicado também. É algo psicológico e histórico também. Você simplesmente não consegue fazer. Você assiste ao filme e em seguida pensa naquilo que eles pensaram à época, como que Hitchcock desenvolveu. Ela está molhada. Se você estudar de muito perto, há muito mais espaço naquele chuveiro que Jante Leigh ocupou, então você se pega perguntando qual motivo do que eu estou fazendo não estar certo.

The Hollywood Reporter | O episódio que você dirigiu teve as principais cenas da participação de Rihanna. Quais foram as suas impressões dela e qual o quão entusiasmada ela ficou em interpretar Marion Crane?

Phil Abraham | Primeiramente, eu posso afirmar é que ela é muito profissional. Eu amei trabalhar com ela. De verdade. Ela foi ótima. Ela é uma fã inegável da série. Foi muito divertido de assistir. Quando ela entrou no nosso estúdios principal, ela ficou tipo – “Oh meu Deus!” Ela não se conteve. Então quando saiu para nossa locação externa e viu a placa Bates Motel e a casa na colina, ela se tornou uma superfã. Foi muito intenso pra ela, que realmente aproveitou. Também foi bom pra mim também. Ela foi ótima. Realmente muito boa. Ela entregou tudo o que prometia. Fez um trabalho realmente pesado. Entrando para fazer dois episódios e de 38 a 42 páginas em apenas cinco dias, é uma tarefa complicada para qualquer um. Ela foi realmente sensacional.

The Hollywood Reporter As duas cenas do chuveiro ganharam toda a atenção, é claro, mas a cena da cozinha com Norman e Norma, termina com Norman abraçando o ar, o que é o ponto principal do episódio. O quão difícil foi acertar numa cena tão complicada e pesada para Freddie fazer?

Phil Abraham | É essa a situação do Freddie! Ele tem instintos para coisas assim. Tem mesmo. Foi um momento deliberativo, mas não tomou muito tempo ou energia do Freddie. Ele entregou exatamente aquilo que estávamos querendo. Estávamos cientes do que iríamos fazer, obviamente, no abraço com Vera [Farmiga], para que pudéssemos coloca-lo naquela posição. Vocês vão perceber que ele colocou os braços de uma maneira para que ela pudesse desaparecer de repente. Foi muito natural para o Freddie. Ambos trabalhando juntos é obviamente o coração e a alma da série e nunca desapontam. É uma diversão, como diretor, trabalhar com eles. Freddie trouxe exatamente aquela direção que nós desejamos desde o começo.

The Hollywood Reporter Uma última pergunta e isso vai me incomodar se eu não perguntar. Você disse que teve apenas cinco dias com a Rihanna. Então, provavelmente, ela está sã e salva. Mas após destruir o carro do Sam, ela joga sua espátula de pneu no chão e também descarta seu celular. Não deveríamos imaginar que essas coisas vão voltar para assombrá-la? Metaforicamente e literalmente falando?

Phil Abraham | (Risos). Então ela não tem celular e não vai conseguir trocar seus pneus, caso eles esvaziem.

Series Finale de Bates Motel será exibido nos Estados Unidos na segunda-feira, 24 de maio. No Brasil, a série é transmitida pelo Canal Universal, mas ainda não há previsão de estreia. O Mix de Séries entrou em contato com a emissora, mas até agora não obtivemos resposta.

Fonte: The Hollywood Reporter

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Bernardo Vieira

Catarinense e estudante de direito. Escrevo sobre entretenimento desde 2010, mas comecei com política internacional depois da campanha americana de 2016. Adoro uma premiação e um debate político, mas sempre estou lendo ou assistindo algo interessante. Quer saber mais? Me pague um café e vamos conversar.

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