Dirk Gently, um detetive holístico para uma nova ficção

Imagem: BBC America/Divulgação
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Sempre imersas numa aura de soturnidade e mistério, as histórias policiais estabeleceram-se como um gênero marcante, rápido e cheio de figuras inusitadas, detetives icônicos e vilões grandiosos. E, como se em resposta, ou melhor, evolução do formato, Douglas Adams envolveu, em suas cores irônicas e ilógicas, um detetive que desafia aquilo que já vimos antes.

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Chegando mais uma vez a TV, Dirk Gently ganha forma numa parceira entre a BBC America e a Netflix, e sob o comando de Max Landis, a série chegou às telinhas combinando bom-humor – que lembra os desenhos animados – e delicadeza, enquanto narra rapidamente, nos envolvendo nos vários níveis da trama e nos fazendo desvendar/deduzir os mistérios a cada episódio que se desenrola.

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Na verdade, a sensação de desarranjo – não só por causa do elemento da viagem no tempo, mas pela maneira com que as histórias nos são apresentadas – que nos instiga a deduzir, a tentar fazer sentido do mistério da temporada (e de cada um dos outros mistérios que o compõe) é que prende o expectador à série. Depois da boa dose de bizarro cartunesco e humorístico, é impossível não querer resolver os mistérios que envolvem Lydia e Patrick Spring, Farah Black, os Rowdy 3 e Amanda Brotzman – para mencionar só alguns.

Dando vida a um personagem que Douglas Adams criou na década de oitenta – uma década marcada por grandes clássicos da ficção, como Tron (1980), Alien (1980), Predador (1987), A Mosca (1986), Blade Runner (1982), Mad Max 3: Para Além da Cúpula do Trovão (1985) e até Star Trek: The Wrath of Khan (1982) e de O Império Contra-Ataca (1980) – enquanto ele ainda escrevia episódios de Doctor Who e sendo definido pelo próprio Adams como “Um colossal épico cômico musical romântico policial de horror sobre viagens no tempo, fantasmas e detetives”, Dirk Gently é um exemplo do potencial que a TV e o streaming têm para produzir e recriar uma ficção científica que se aventure por terrenos de uma nostalgia oitentista que se mistura exitosamente com cor, humor e uma loucura organizada, com doses de punk rock e viagem no tempo.

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A série é protagonizada por Samuel Barnett, que faz um Dirk Gently cuja maior qualidade – além de irritar as pessoas – é se meter em encrencas e nos lembrar que os arranjos do universo são muito menos “ao acaso” do que acreditamos, e Elijah Wood, responsável por ser a voz do telespectador (ou, pelo menos, por parecer tão confuso, revoltado e curioso quanto nós seriamos em situação similar) enquanto faz de Todd Brotzman, um aliado improvável para o detetive e nossa jornada a esse mundo surreal.

Imagem: BBC America/Divulgação
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Contudo, os coadjuvantes roubam a cena; Bartine “Bart” Curlish (Fiona Dourif) e Ken (Mpho Koaho) vivem uma combinação de síndrome de Estocolmo e leap of faith (da parte dele), enquanto se emergem numa carnificina classe A, e a trama estrelada Hannah Marks (que vive Amanda Brotzman, irmã de Todd), Martin (Michael Eklund), Vogel (Osric Chau), Gripps (Viv Leacock) e Cross (Zak Santiago), os quatro Rowdy 3, promete desenvolvimentos intrigantes (e muito rock) no já confirmado segundo ano da série.

No geral, embora a série demande certa suspensão de descrença e uma ou duas doses de paciência em seus primeiros momentos, ela também consegue nos envolver de maneira rápida e sutil, e é muito fácil só perceber que se maratonou a série depois de ter visto os oito episódios da primeira temporada. A estrutura peculiar acaba tomando conta do espectador e a série acaba sendo sobre múltiplos outros problemas – muito mais do que aquilo que se espera da proposta inicial – deixando um gosto de “quero mais” que dispensa explicações, garantindo a série um espaço reservado entre os sucessos da cultura pop da atualidade, como um exemplo de uma ficção produzida para agradar, mas que não se descarateriza por isso.