Dissociação | História real por trás da série Netflix traz massacre insano

A história real por trás de Dissociação: o massacre que chocou a Colômbia e inspirou a série da Netflix

A Netflix revive um dos episódios mais sombrios da história colombiana em Dissociação (Fugue State 1986), série dirigida por Carlos Moreno e Claudia Pedraza. A produção ficcionaliza — mas não suaviza — o horror do Massacre de Pozzetto, cometido por Campo Elias Delgado em 4 de dezembro de 1986, em Bogotá. À época, o caso marcou a memória coletiva do país e até hoje provoca debates sobre saúde mental, violência urbana e responsabilidade social.

No centro da narrativa está Jeremias Salgado, a versão ficcional do assassino, cuja trajetória de trauma, descontrole e violência serve como espinha dorsal da série. Mas o que, afinal, é verdade? E o que foi criado apenas para aprofundar o drama?

A seguir, destrinchamos o caso real e suas principais diferenças em relação à adaptação da Netflix.

Quem foi Campo Elias Delgado e como ocorreu o Massacre de Pozzetto?

Na vida real, Campo Elias Delgado era ex-militar, tinha histórico de instabilidade emocional e uma relação profundamente conflituosa com a mãe. No dia 4 de dezembro de 1986, ele iniciou um itinerário de violência que começou dentro da própria casa.

Após discutir com a mãe, Delgado a esfaqueou até a morte, cobriu o corpo com jornais e tentou incendiá-lo para destruir evidências. A tragédia não parou por aí: ao sair do apartamento, matou três vizinhas que tentaram pedir ajuda ao perceber o fogo.

Horas depois, Delgado seguiu para o restaurante Pozzetto, local que frequentava com certa regularidade. Lá, sentado em um ponto estratégico, observou os clientes antes de se dirigir ao banheiro — e, ao retornar, abriu fogo contra todos ao alcance. Dezenove pessoas morreram, e pelo menos outras doze ficaram gravemente feridas.

A polícia cercou o local, e relatos da época divergem sobre como Delgado morreu: alguns afirmam que foi baleado; outros, que tirou a própria vida ao perceber que não escaparia.

Dissociacao cena da serie
Imagem: Divulgação.

Camilo existiu? O amigo misterioso criado pela série

Em Dissociação, Jeremias mantém contato próximo com Camilo León, um jovem traumatizado e diagnosticado com amnésia dissociativa. A relação entre eles funciona como um espelho psicológico — quase uma lente para que o público observe, por dentro, a mente fragmentada do assassino.

Camilo, porém, não existiu na vida real.



Ele foi criado pelos roteiristas para representar um tipo de “testemunha emocional” dos gatilhos, comportamentos e manipulações de Delgado — algo impossível de acessar historicamente, já que muito da vida mental do assassino permanece desconhecida.

Embora Delgado tenha sido aluno da Universidad Javeriana, não há registros de que tenha formado laços significativos ali ou tentado manipular colegas.

O assassinato da mãe e das vizinhas: o que a série manteve fiel

Grande parte da violência doméstica mostrada em Dissociação é, infelizmente, real. Delgado mantinha relação extremamente abusiva com a mãe, Rita (renomeada Carmenza na série). Vizinhos relatavam gritos, agressões e medo constante.

Quando a matou, não havia motivação clara além do ódio profundo e acumulado. As vizinhas mortas em seguida tampouco foram escolhidas por qualquer razão específica: eram, essencialmente, obstáculos no caminho.

Essa falta de lógica reforçou teses de que Delgado poderia alimentar misoginia intensa ou apresentar quadro grave de psicopatia, embora nada disso tenha sido clinicamente confirmado.

O assassinato da estudante e da mãe dela: coincidência ou premeditação?

Assim como retratado na série, Delgado também matou sua aluna Claudia Rincón e a mãe dela, Nora Becerra Rincón.

A ficção sugere que o crime ocorreu porque Carmenza teria pedido ajuda a Nora pouco antes de morrer — algo que Delgado teria descoberto. Na vida real, não há provas disso.

Não se sabe ao certo por que as duas foram assassinadas. Especialistas acreditam que Delgado, já em completo surto homicida, simplesmente eliminou qualquer pessoa que cruzasse seu caminho naquele dia.

Por que Delgado atacou o restaurante Pozzetto?

A motivação nunca foi totalmente esclarecida.

Sabemos, porém, que na véspera do massacre ele sacou todo o dinheiro da conta bancária, comprou um revólver e munição suficiente para um ataque de grande escala. No Pozzetto, desviou de seu lugar habitual e passou a observar os clientes — sugerindo premeditação.

Relatos indicam que ele citou o filme Taxi Driver antes de atirar, fazendo paralelos com Travis Bickle. Contudo, isso nunca foi comprovado. Pode ter sido apenas um mito alimentado pelo imaginário popular.

O que se sabe é que Delgado carregava traumas militares, histórias contraditórias sobre participação no Vietnã e sinais de transtornos psiquiátricos profundos. A combinação de delírio, paranoia e violência reprimida provavelmente culminou na tragédia.

A fronteira entre verdade e ficção

Dissociação recria o horror daquele dia, mas expande sua narrativa para abordar trauma, identidade e a fragilidade da mente humana. O uso de personagens fictícios — como Camilo — funciona como ferramenta dramática, não como distorção histórica.

A essência, porém, permanece: uma sociedade ainda marcada por um dos massacres mais brutais de sua história e um homem que, por motivos jamais totalmente compreendidos, transformou Bogotá em cenário de pesadelo.



Dissociação | História real por trás da série Netflix traz massacre insano
SOBRE O AUTOR
Matheus Pereira
Matheus Pereira é Jornalista e mora em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Escritor assíduo na época dos blogs, Matheus desenvolveu seus textos e conhecimentos em Cinema e TV numa experiência que já soma quase 15 anos. Destes, quase dez são dedicados ao Mix de Séries. Além disso, trabalha há mais de dez anos no campo da comunicação e marketing educacional, sendo assessor de imprensa e publicidade em grandes escolas e instituições de ensino.