Dizendo Adeus… ou o problema de conclusão da ficção

Imagem/Montagem: Arquivo Pessoal

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Uma das maiores constantes que é enfrentada pelo seriador, leitor, cinéfilo… enfim, por todos os muitos componentes da imensa cultura pop é o momento em que uma das partes, um dos muitos universos pelos quais nos apaixonamos nesta dita cultura acaba.

Seja uma “morte” anunciada (como a de Game of Thrones será) ou uma que chegue inteiramente de surpresa (como foi com Penny Dreadful), a TV (mais ainda agora, em que a Summer/Mid Season dá seus últimos suspiros) é cheia desses momentos, onde somos confrontados com um final. E é sobre eles – ou, mas precisamente, sobre os problemas que surgem da existência deles – que vamos falar hoje.

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A conclusão, por si só, é uma premissa tremendamente cruel. Porque, ao mesmo tempo em que a conclusão é inegavelmente – visto que a finitude é a maior, e talvez única verdade inerente à condição humana – ela também é, em muito, extremamente passível de problemas.

Seja por sua origem, que assim como a da ficção e de toda estória (Histórias também), em algum ponto, a narrativa transcende o ponto – tautológico, eu sei – em que ela pode se sustentar. E embora este momento não seja uma constante, já que uma narrativa pode ser (obviamente em detrimento da qualidade dela) arrastada indefinidamente – Sobrenatural vem provando isso desde 2011 – na grande maioria das vezes, o final chega, implacável para todos, e problemático para todos.

Quando se fala em finais, especialmente no que toca a TV, há sempre muita nostalgia – e muita revolta/negatividade – associada a essa ideia. Quem entre os leitores não teve esta ou aquela série favorita cancelada, e viu neste cancelamento injustiça, além de receber um final mal feito como recompensa pela fidelidade à série? Quem também, mesmo que a série não tenha sido cancelada, recebeu mal o final da mesma, especialmente os finais anunciados como “divisores”, ou “polêmicos” – vide Lost e, mais recentemente, The Good Wife? Este é, em si, outro problema. O final, antes moderada e devidamente temido por ser o último encontro com aquele universo tão amado, um construto sagrado e profano, passou a ser um joguete para os escritores criarem ainda mais confusão, na tentativa deles de manterem, de se manterem por mais alguns segundos.

O grande “porém” é que a narrativa – seja ela estória, História, ou qualquer outra coisa – há muito ela se esqueceu de sua verdadeira natureza, e por isso, fez de nós, seus consumidores, acomodados. A ficção existe de devorar a si mesma e de devorar também aqueles que a fazem, para que ela possa ressurgir, numa nova forma. Em muito os Modernos podem ter se enganado, mas a antropofagia é parte inegável da cruzada travada pelo espectador para ressignificar aquilo que consome, porque se isso não for feito, a própria necessidade da ficção se desfaz, e o peso esmagador da banalidade oriunda da realidade nos sufoca.

E no que tange aos finais, os fatos são os mesmos. Sejam eles banalizados ou não, cruéis ou não, sejam eles tão malditos ou tão benditos quanto eles possam ser, eles são algo que não pode ser negado. Mesmo que a nossa condição humana não nos permita aceitar nem começo nem fim com facilidade ou contentamento, eles são pontos fixos que não podem ser negados, só adiados. E é claro, feitos em ficção. Transformados em algo a que possamos dar o tom.

Afinal, embora não nos seja permitido dar a primeira ou a última palavra, podemos influenciar, exigir… podemos atribuir a cor de pensamente imaginativo a ficção, para talvez conseguir causar a onda de emoções intensas (e poderosas) que Wordsworth tanto primava para sua poesia. Ao aceitar que começos e fins são uma eterna constante, uma eterna fênix, a existir plenamente e então se consumir em suas próprias chamas, para poder renascer para toda uma nova jornada, fazemos ficção. Ou melhor, ditamos o tom do imaginário de possibilidades desta ficção. E é assim que deve ser com a ficção: livre da crueza considerável e cruel dos epílogos (tentativas vãs e falhas da humanidade de ter controle de algo tão naturalmente indomável como todo o resto), produzida com qualidade e buscando a plenitude, independendo do tamanho de sua existência ou da frieza dos pontos finais… eles são só uma formalidade.

Tags Editorial
Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.

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