Do humor a gente manja!

Imagem: Artistas Variados/Reprodução (detalhes no fim do post)
Imagem: Artistas Variados/Reprodução (detalhes no fim do post)

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E agora, para algo completamente diferente…

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Muitas coisas são no mínimo curiosas sobre esses Editoriais. Alguns deles tentam e falham ser engraçados, alguns deles começam bem e terminam mal, alguns são densos demais e alguns… alguns são simplesmente confusos. Contudo, há alguns, e este é um desses, que são estranhos.

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Não digo isso pela proposta inicial. Afinal, nada mais apropriado do que, nessa hora sombria, recorrer ao humor – como uma larga parcela da internet fez essa semana – para tentar deixar as coisas mais críveis. Mas sou forçado a admitir que o caminho até a versão final desse texto levou uma senhora estranheza. Até porque, aqui entre nós, é a normalidade que está em falta.

E eis aí o primeiro dilema. Normalidade é uma coisa tão sem graça, tão inútil e tão opressora que fugir dela parece ser um caminho bem aceitável, recomendável até. Mas, e não me atrevo a dizer que falo por mais ninguém além de mim, chega uma hora em que a cacofonia, a confusão e a pura natureza caótica que nos cerca e envolve fica muito cansativa.

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Quem não está cansado dessa absurda troca de acusações – das quais não estou discutindo o mérito, até porque esse ping-pong do sujo falando do mal lavado já cansou há muito tempo – e “vazamento” e delações e todo esse espetáculo de alegadas morais, culpas e inocências? Atrevo-me a dizer mais: quem não riu, apesar da gravidade da situação e de suas implicações, em algum momento dessa sketch que o país tem sido?

É claro que não é necessariamente sobre a tragicomédia que é o Brasil que escrevo essas linhas. Isso seria muito denso, muito boring e, confesso, muito sem sentido na situação atual. Certo e errado sempre foram duas coisas muito discutíveis, mais o Brasil levou essa natureza dúbia a níveis extremos.

Mesmo assim, somando a situação atual com os problemas de cada dia e as particularidades da vida de cada um, com toda certeza o riso tem feito jus ao ditado popular e sido um excelente remédio, e a indústria de memes parece ter encontrado mais fôlego do que nunca. E se vamos falar de um humor – sim, tudo isso foi uma introdução estranha e confusa – que consegue olhar para o absurdo da realidade e fazer de passado, presente, futuro, mito, herança e tudo o mais numa verdadeira aula de humor e comédia, temos que falar da trupe do Monty Python.

A famosa trupe britânica imortalizou vários sketchs e transformou o humor situacional, o humor negro e o humor de repetição, além de um anarquismo surreal pautado, em uma coisa popular, garantindo para Eric Idle, Graham Chapman, John Cleese, Michael Palin, Terry Jones e as ilustrações e animações de Terry Gilliam um lugar de honra na seara Cult e no imaginário coletivo.

Claro que, a essa altura, o leitor pode se perguntar qual o motivo para que eu não pegue uma das sitcom favoritas da maioria – e minha também – como exemplo, já que quero falar de humor. Young Sheldon, spin-off de uma favorita pessoal (The Big Bang Theory) acaba de ganhar trailer, a própria The Big Bang Theory chegou a season finale de sua décima temporada com um plot twist gigantesco e já está renovada para mais duas temporadas, material mais que suficiente para um Editorial só sobre a série. Ou ainda, porque não falar sobre Friends, That ‘70s Show, Scrubs ou até – julguem – How I Met Your Mother, que movem uma verdadeira legião de fãs mundo afora. Por que então falar sobre um nicho tão específico?

O humor do Monty Python é sim específico, e surge no fim dos anos ’60 para durar a eternidade. E já do título atribuído a si mesmo, a trupe inglesa justifica, ou melhor, dispensa qualquer necessidade de defesa para a minha valorização de que mais humor seja feito no puro nonsense. “Monty Python” é um termo sem explicação, e mesmo as tentativas de explicá-lo falham. Como o humor produzido por eles, é uma homenagem ao absurdo vertido em comédia, algo que precisamos desesperadamente nos dias atuais.

Sozinhos, e vindos de uma nação imersa em imperialismo e costumes fortes de uma tradição cheia de não-me-toques, o grupo causou uma revolução que tomou e modificou permanentemente a forma de fazer humor na TV, no teatro e no cinema, satirizando costumes, valores, figuras históricas e não perdoando nem mesmo o imaginário inglês. A primeira traquinagem do grupo foi o programa televisivo Monty Python’s Flying Circus (1969-1974), cujas sketchs são verdadeiros tesouros – vide a Inquisição Espanhola, a Piada Mortal, o ministry of silly walking e claro, o Papagaio Morto – que estão atualmente no YouTube. Mas não parou por aí. O Rei Arthur, por exemplo, viu o modelo monárquico, a fé exacerbada e até um pouquinho do nacionalismo e orgulho nacional serem colocados em xeque com Em Busca do Cálice Sagrado (1975) – inteiramente disponível no YouTube, tanto em inglês quanto em sua dublagem original, caso alguém queira conferir. Não satisfeito com isso, o grupo ainda chegou ao ponto de ser acusado de heresia e blasfêmia ao parodiar a bíblia com A Vida de Brian (1979), filme que precisou da ajuda de um Beatle (George Harrison) para ser produzido, porque o filme foi considerado “demais” pelas produtoras.

E mesmo que a trupe tenha se separado depois de duas outras grandes produções – Ao Vivo no Hollywood Bowl (1982) e O Sentido da Vida (1983) – que foram mais focadas no estilo desconexo de sketchs do Flying Cyrcus, o humor subversivo do grupo já havia se disseminado, deixando os Saturday Night Lives da vida em eterna dívida com esses ingleses que levaram a irritação ao extremo e a repetição para a feitura de uma nova comédia.

Mas, depois de tudo isso, direciono essa traquinagem meio estranha para um final. A lição da trupe do Monty Python fala volumes muito mais altos do que qualquer coisa que eu possa dizer. Fazer humor é uma necessidade da humanidade e cada dia mais precisamos de todo e qualquer humor, principalmente se for um humor que consiga rir de si mesmo e admitir a estupidez de todas as coisas, inclusive das próprias piadas. No meio a esse estado de warfare de honestidades alegadas que nos bombardeia, talvez admitir a pura estupidez e poder rir dela – algo que os memes dos últimos dias provaram ser viável – talvez seja uma alternativa interessante. Afinal, a seriedade da realidade é sim gritante e não podemos nem devemos esquecer ou ficar passivos frente a todas essas questões, mas é preciso que haja um espaço em que podemos todos não nos digladiar sobre esta ou aquela opinião. E claro, aceitar o humor, inclusive e principalmente esse humor traz as valiosas lições da trupe para o nosso cotidiano, ou para terminar da maneira correta, “always look on the bright side of life”.

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P.S.: Ah, um pequeno disclaimer. As imagens utilizadas na montagem que encabeça o post são, da esquerda para a direita, de cima para baixo: Arquivo da BBC (Box Comemorativo 40 anos do Em Busca do Cálice Sagrado)/Reprodução, Silliest Interview We’ve Ever Done (Monty Python’s Flying Circus)/Reprodução do YouTube, None Shall Pass cut-scene/Reprodução do YouTube, Monty Python’s Flying Circus opening/Reprodução do YouTube, A Trupe do Monty Python (Arquivo da BBC/Box Comemorativo 40 anos do Em Busca do Cálice Sagrado)/Reprodução.

Professor de Língua e Literatura, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em café, bons livros, boas animações e ocasionais guilty pleasures (além de conversas sem começo, meio nem fim). De gosto extremamente duvidoso, um Reviewer ocasional aqui no Mix de Séries e Colunista no Mix de Filmes.