A nova versão de Dona Beja, lançada pela HBO Max, reacende uma velha curiosidade do público: afinal, quanto da trama é baseada em fatos reais e o que foi dramatizado pela ficção? A produção protagonizada por Grazi Massafera revisita a história de Ana Jacinta de São José, personagem histórica que se tornou um mito em Minas Gerais, especialmente na região de Araxá.
Embora a novela assuma liberdades narrativas, a trajetória real de Dona Beja é, por si só, marcada por violência, resistência e uma impressionante capacidade de sobrevivência em um Brasil do século XIX profundamente patriarcal.
A história real por trás do mito de Dona Beja

Ana Jacinta de São José nasceu em 1800, na cidade de Formiga (MG), e ainda criança se mudou para Araxá. O apelido “Beja” surgiu de forma afetiva, dado pelo avô, que comparava sua doçura à flor conhecida como beijo. O ponto de ruptura de sua vida aconteceu em 1815, quando, aos 15 anos, chamou a atenção de Joaquim Inácio Silveira da Motta, ouvidor do rei.
Ao contrário do que versões romantizadas sugerem, não houve consentimento nem romance. Historiadores apontam que Beja foi sequestrada, e seu avô foi assassinado para que ela fosse levada à força para Paracatu, onde permaneceu por cerca de dois anos como amante do ouvidor. Esse episódio traumático é central para entender a transformação de Ana Jacinta em Dona Beja.
Após o retorno a Araxá, Beja encontrou uma sociedade que a rejeitava moralmente. Sem espaço para reintegração social e rejeitada por Antônio Sampaio, seu grande amor na ficção e figura inspirada em personagens reais, ela decidiu usar os recursos que tinha para conquistar poder. Com a fortuna acumulada, fundou a Chácara do Jatobá, um bordel de luxo onde controlava seus próprios clientes e negócios.
Diferente da lenda puramente sensual, documentos históricos indicam que Dona Beja foi uma estrategista política, usando seu salão como espaço de influência regional, inclusive em articulações ligadas à incorporação do Triângulo Mineiro a Minas Gerais.
O que a novela muda na versão da HBO Max

A releitura da HBO Max se afasta do erotismo explícito da versão de 1986 e aposta em uma abordagem mais contemporânea. A nova Dona Beja é apresentada com maior autonomia, menos como vítima passiva e mais como uma mulher consciente de suas escolhas. A trama também incorpora discussões sobre diversidade, racismo e o papel das mulheres em um sistema que frequentemente as colocava como rivais.
O desfecho real de Beja também é menos trágico do que muitas versões sugerem. Ela morreu em 1873, aos 73 anos, deixando um testamento que comprovava sua independência financeira, algo extremamente raro para uma mulher solteira daquela época. A novela, portanto, mistura mito e verdade, mas parte de uma história real que já era, por si só, extraordinária.