Lançado em 2022 diretamente no Disney+, Doze é Demais (Cheaper by the Dozen) marcou o retorno de uma das famílias mais caóticas e queridas do cinema — agora em uma versão repaginada, mais diversa e ambientada nos dilemas do século XXI. Dirigido por Gail Lerner e escrito por Kenya Barris (Black-ish) e Jennifer Rice-Genzuk Henry, o longa é uma nova leitura do clássico de 1950 e do remake estrelado por Steve Martin e Bonnie Hunt em 2003, que até hoje é lembrado como uma das comédias familiares mais divertidas de sua época.
Mas o que pouca gente sabe é que a nova versão tem uma história cheia de curiosidades — e carrega uma longa tradição de adaptações que, de geração em geração, tentam responder à mesma pergunta: o que realmente significa ser uma família?
Uma história que nasceu nos anos 1950
O primeiro Doze é Demais estreou em 1950, baseado nas memórias reais de Frank Gilbreth Jr. e Ernestine Gilbreth Carey, filhos de um casal de engenheiros industriais que aplicavam princípios científicos até na criação dos filhos. O filme original era um retrato biográfico e inspirador, mostrando uma família de 12 irmãos nos Estados Unidos da década de 1920, e se tornou um sucesso imediato.
Dois anos depois, veio a sequência Belles on Their Toes (1952), completando a história da família Gilbreth.
A reinvenção de 2003
Décadas depois, em 2003, a comédia ganhou uma nova vida nas mãos do diretor Shawn Levy (Uma Noite no Museu). Desta vez, os Gilbreth deram lugar aos Bakers, uma família fictícia liderada por Steve Martin e Bonnie Hunt.
A versão de 2003 trocou o tom biográfico por humor pastelão e cenas caóticas, com 12 filhos aprontando todas enquanto o pai tentava equilibrar carreira e paternidade. O sucesso foi tão grande que o filme ganhou uma sequência em 2005, consolidando-se como um dos títulos mais populares da comédia familiar dos anos 2000.

O remake da Disney+ (2022): uma nova família, novos desafios com Doze é Demais
Em 2022, o estúdio resolveu revisitar a história com uma pegada moderna e mais inclusiva. O novo Doze é Demais, estrelado por Gabrielle Union (Being Mary Jane) e Zach Braff (Scrubs), apresenta uma família recomposta e multicultural, formada por casamentos anteriores e novos filhos — refletindo a diversidade das famílias contemporâneas.
Paul e Zoey Baker administram juntos um pequeno restaurante especializado em café da manhã, enquanto tentam lidar com os desafios de criar dez filhos sob o mesmo teto — número que aumenta com a chegada de mais uma criança durante a trama.
Paul é o sonhador ambicioso, determinado a transformar sua receita de molho em um sucesso nacional. Zoey, por outro lado, assume o papel de manter a casa funcionando enquanto o marido se dedica ao negócio. Essa inversão de papéis — com a mãe como base emocional e o pai buscando expansão profissional — é uma resposta moderna à dinâmica dos filmes anteriores.
Um remake cheio de intenções — e contradições
A nova versão tenta equilibrar humor e debates sociais. Além da comédia familiar, o filme aborda temas como diversidade racial, diferenças culturais, bullying e desigualdade econômica, mas, segundo a crítica, faz isso de forma superficial.
A intenção de representar uma família moderna é louvável — afinal, os Bakers de 2022 são fruto de diferentes origens e experiências —, mas o roteiro de Kenya Barris, conhecido por tratar de questões raciais com profundidade em Black-ish, acaba ficando na superfície.
Há boas ideias, como o conflito entre Paul e Dom (Timon Kyle Durrett), ex-marido de Zoey, que traz nuances sobre paternidade compartilhada e masculinidade. Porém, o filme se perde ao tentar discutir muitos temas sem desenvolver nenhum com o cuidado necessário.
As diferenças em relação ao filme de 2003
Enquanto o Doze é Demais de Steve Martin apostava em humor físico e no caos das crianças como motor da trama, o de 2022 tenta ser mais emocional e reflexivo.
Ainda assim, há momentos em que o novo filme tenta reproduzir o ritmo acelerado e os gags visuais da versão anterior — mas sem o mesmo charme. A crítica destacou a edição frenética e confusa, que tenta simular a rotina caótica da família, mas acaba quebrando o ritmo narrativo.
A diferença mais marcante está mesmo na mensagem: o filme de 2003 celebrava o caos familiar com leveza, enquanto o de 2022 quer ser um retrato de como as famílias modernas tentam equilibrar amor, trabalho e identidade.

Um elenco carismático que segura o filme
Se há algo que mantém o público assistindo até o fim, é a química entre Gabrielle Union e Zach Braff. Os dois atores têm carisma, timing cômico e conseguem transmitir a sensação de uma família verdadeira — mesmo quando o roteiro não ajuda.
Braff, mais conhecido pela comédia inteligente de Scrubs, surpreende em um papel mais físico e paternal. Union, por sua vez, dá força e sensibilidade à personagem Zoey, tornando-a o coração emocional da história.
Uma nova leitura de um clássico
Mesmo com falhas, Doze é Demais (2022) cumpre um papel importante: reapresentar uma história clássica a uma nova geração, em um contexto mais diverso e inclusivo.
A proposta de celebrar diferentes formas de família é o que mantém o espírito original vivo — ainda que a execução nem sempre acerte o tom.
No fim, o filme é uma mistura de boas intenções e tropeços, mas serve como lembrança de que, em meio ao caos e às imperfeições, família é sobre união, amor e paciência — não importa quantos filhos estejam na mesa do café da manhã.