E agora para o não dito…

Imagem: Netflix/Divulgação (Reprodução)

Sim! Mais uma vez o domingo chegou e veio acompanhado de mais uma coleção dos meus absurdos, carinhosamente apelidado de Editorial. E notem, é importante começar por essa admissão para que possamos ter uma conversa realmente franca. Afinal, depois de encarar a folha em branco por algumas horas, num impulso que, com toda certeza começa na insanidade aludida acima, optei por levar essas linhas numa direção que eu, particularmente, prefiro evitar. O domínio de tudo aquilo que é relativo, a casa de todas as boas polêmicas e, claro, insanidades: a subjetividade da interpretação.

É preciso deixar isso bem claro, junto com o tão criticado uso da primeira pessoa que sempre impera nos meus textos, para que não reste dúvida quanto à parcialidade de tais ideias. Para que não haja espaço para se considerar, nem mesmo que por um momento, que tudo o que será dito aqui seja mais do que meras conjunturas, acepções, visões – consideravelmente idealistas e, repito, parciais – de uma única pessoa, este que vos escreve. Não estou aqui para apregoar valores ou clamar por mudanças, porque, cá pra nós, ninguém tem saco pra isso.

Assumo essa parcialidade que, para muitos, é um demérito do que aqui se encontra e visto meu texto nesse recurso. Se somos, como dizia o poeta, acasos, que os meus absurdos sejam também acasos de absurdo, entregues a vocês para que com eles façam o que bem entenderem. Isto posto, vamos ao motivo para estarmos aqui. Porque no meio das comemorações juninas você talvez tenha perdido… Mas se, como eu, você estava colado ao sofá na sexta passada, você não perdeu a estreia de GLOW, a mais nova produção original da Netflix.

Fazendo uma alusão – não direi diretamente inspirada por motivos que ficarão claros abaixo – ao programa de TV e organização de lutas fundados por David McLane nos anos ’80 chamada de Gorgeous Ladies of Wrestling – daí o acrônimo GLOW, título da organização e programa de TV originais, de vários especiais e claro, dessa nova traquinagem da Netflix – essa produção da Netflix chega num momento interessante, enquanto o mundo das séries antecipa o retorno de Game of Thrones e tenta processar os eventos da finale de Orange is the New Black, GLOW apresenta-se como um verdadeiro colírio, um sopro de ar novo para espectadores cansados, distribuindo verdades e mais uma vez reafirmando a capacidade da Netflix para boas produções.

Saindo diretamente da seara de coisas que só poderiam ter surgido nos anos ’80 – o que já coloca a produção da Netflix em vantagem, pela garantida de uma ambientação e trilha sonora invejável – a ideia de uma organização de luta profissional só de mulheres pode até chegar como curiosa para o espectador, a produção dos anos ’80 brincava com algo que, nas mãos da Netflix, serviu perfeitamente: a cultura do absurdo.

Mas abandonemos aqui as reflexões sobre o original. Afinal, através de quatro temporadas, a criação de McLane fala por si – em altos volumes de absurdo. Estamos aqui pela subjetividade da coisa, um retrato que só a ficção pode nos oferecer. Foi exatamente isso que a Netflix fez. Tomando para si a beleza de ambientação que só os anos ’80 pode oferecer e, valendo-se das metalinguagens – um dos melhores diferenciais do serviço de streaming – já consagradas, nos revela algo que trabalha com o espaço de subjetividade, de interpretação, para entregar mensagens que são gritantes em nossa conjuntura cotidiana sem, contudo, precisar, efetivamente, gritar tais questões.

GLOW sucede onde outras produções do canal já conseguiram. Afinal, sim, a ficção é sempre um grande ensaio, um grande recorte da realidade dobrado a nossa necessidade para que possamos desfrutar de uma verdadeira autoindulgência, de um perdão máximo pela parte direta ou indireta que temos nessa realidade. Então, no meio desse exercício, nada incomoda mais – pelo menos a mim, como espectador – de constantes quebras nesse fluxo para a inclusão de boas e velhas lições, sejam morais ou de qualquer outra natureza, que quebrem a naturalidade da imitação com um apontar de dedos assumidamente artificial. GLOW, como Dear White People, Black Mirror, Orange Is the New Black e tantas outras, não desperdiça o tempo de cena nos ensinando. As reflexões estão, simplesmente, lá – no melhor exercício de verossimilhança possível.

Assim como funciona com a famigerada realidade, onde, em momento algum, alguém interrompe o curso de suas ações e existência propriamente dita somente para nos lembrar deste ou daquele enorme problema social, tais problemas simplesmente existem, 24 horas por dia, 7 dias por semana, nos aproximados 30 minutos de cada episódio de GLOW, desemprego, xenofobia, racismo, sexismo e toda essa seara de problemas estão sempre . Não é preciso que um arco inteiro seja desenvolvido para se acrescentar ou defender uma bandeira dessa ou daquela causa, os problemas são o próprio ar que a existência da trama respira, esperando somente que o espectador debruce-se sobre eles enquanto assiste.

Eis aí a questão. Talvez uma das maiores questões, a qual não quero que se permeie em demasia pelo texto. Porque abraçar uma ficção que retire de si o artificial é banalizar a própria natureza da ficção e abertamente admitir que a realidade venceu. Contudo, num mundo em que o absurdo é palavra de ordem para compor a realidade, talvez essa ficção, que abraça a derrota de seu propósito e faz disso sua ambientação, que subverte causa e efeito e não precisa de meios-termos, simplesmente existe e coexiste com todos os problemas filosófico-sociológicos que, a cada dia mais, colocam o Ser em questão seja a saída.

Afinal – e aqui, enfatizo, eu falo por mim – é exatamente isso que faz o entretenimento valer o consumo. Depois anos consumindo o modelo de 24 episódios de 45~60 minutos por temporada, simplesmente já não há mais satisfação nisso. Para fazer um trocadilho com um título de James Bond, o tempo simplesmente não é o bastante! Não é mais possível sobreviver a realidade e digerir o rebuscar excessivo de uma crítica a essa realidade que já estou cansado de consumir. São produções que brincam com o subjetivo, que dispensam a máscara e abraçam a decadência e que abraçam as questões flagrantes sem precisar fazer um big deal daquilo – falar sobre xenofobia, racismo, sexismo, sobre preconceito não é algo opcional! – são aquelas que realmente ganham o espaço na grade e valem os trinta minutos. Mais ainda, como é no caso de GLOW quando isso é feito sem se desviar da premissa inicial da série, que é o wrestling – fato que, em nenhum momento, deixa o espectador que desconheça totalmente esse universo, perdido.

Até porque, não dá mais para negar o “tempus fugit” com a ilusão que é o carpe diem, então que venha a realidade como ela é, mesmo que seja pelo escopo da ficção. Who knows? Quem sabe algo muito bom não vá sair dali? Além disso, exercitar a subjetividade só faz mal a quem ainda está negando a inevitável verdade dos fatos: as verdades absolutas, as doutrinas gerais, os certos e errados que excluem, estão fadados a acabar.

Share this post

Richard Gonçalves

Richard Gonçalves

Estudante de Letras, apaixonado por quadrinhos, música e cinema. Viciado em séries desde sempre. Fã de carteirinha de Doctor Who, House, Battlestar Galactica, Sherlock, 24 Horas, The Borgias, Penny Dreadful, E.R. e Lost. Aqui no Mix de Séries é editor de reviews, além de escrever as reviews de Marvel's Jessica Jones, Marvel's Agents of S.H.I.E.L.D. e The Originals.